RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Próspera Revolução Cubana...

“Na noite de 31 de dezembro de 1958, para sermos mais exatos às três e quinze da madrugada de 1º de janeiro de 1959, quatro aviões das Aerovias Q partem do acampamento militar de Columbia, nas proximidades de Havana. Fugencio Batista, antes de embarcar no primeiro deles, disse ao general Cantillo que o deixava à testa do país, dos negócios e de todos os seus assuntos, e desapareceu em direção ao nada, ao exílio, a Miami (...)”.
(Paco Ignácio Taibo II)


Próspera Revolução Cubana a todos e todas!

Assim mandei minha mensagem de “saudação” em 2008, a primeira do ano, ainda escrevendo no monumental www.arcamundo.blogspot.com.
E 2008 passou e desejo, novamente, “Próspera Revolução Cubana – que sua história, sua permanente presença e resistência ao Imperialismo nos inspire sempre”. Porque aqueles que não a entendem, fugirão silenciosamente.
Ainda mantenho minha forma de ver e compreender determinadas passagens dos tempos, que se enfatizam como “fim do velho” e “início do novo”, sempre neste período em que fechamos o calendário ocidental de 12 meses. “Adeus ano velho, feliz ano novo!” como se o velho não servisse mais e o que nós precisamos agora é sempre de um “novo”... Quem dera fosse o “novo homem” preconizado por Che, Makarenko, Lênin...
Mas, de qualquer maneira, foi neste calendário de 12 meses que muitas coisas aconteceram em minha particular vida de aprendiz de lutador do povo. Estes 12 meses juntei-os com outros 12 e, por isso, fui juntando 12, mais 12, com outros 12 e tantos 12 que resolvi vê-los em sua história, nas lutas, nos erros, nos acertos, nos desacertos.
Relembrei como tocar algumas das canções que escrevi neste tempo todo (ainda bem que são as que tenho aquela sensação de “ah! Ficou perfeita”), outras não. Escutei uma velha gravação do Afã e, também, coloquei o violão no colo (como sempre) e comecei a tracejar solfejos, notas, palavras: “A verdade é sempre a mesma: muitos pratos sobre a mesa ainda estão vazios. A inverdade é sempre a mesma: a paisagem bela e rara ainda é ganha pão”... Sim, vai sair e com a minha enjoada preciosidade musical, que ainda não encontrou algumas passagens ideais... Falta de prática.
Reaprendi (ainda que não completamente) o quanto é magnífico o confronto de conhecimentos e o quanto que, metafisicamente, se confrontando reconstroem-se; conhecimento vivo, útil, necessário, não importa se nos primeiros anos de aprendizado das letras (e seus significados) ou se quando achamos que sabemos o mundo... Ainda que assim pensemos, não o sabemos. Conhecimento que nos convida a duvidar dele mesmo, que nos impõe enfrentar suas obviedades, suas relações de poder e força. Mais ainda, o quanto ainda são violentos os obstáculos impostos em suas relações de produção, que impedem o homem e a mulher se constituírem como homem e mulher livres e o quanto somos tantos em nossas trincheiras, mesmo que não saibam(os).
Reaprendi (essa lição é, muitas vezes, dura) como somos nós e os outros. Quando confiamos ou não confiamos nas pessoas. E quando estamos certos ou errados, de um ou de outro caso. O quanto somos fortes e fracos, justos e injustos, vítimas e algozes, críticos e ingênuos, solidários e individualistas. Aqueles/as que têm medo do que escutam, mas, pior ainda, os que têm medo do que falam ou silenciam. O quanto somos e não somos.
Reaprendi a ver o tempo, a sentir o vento, a ver a saudade e a escutar o silêncio. Algumas vezes, o silêncio atordoava. Escutando o silêncio, aprendi a compreendê-lo nas pessoas, próximas, do lado e distantes... Não aprendi, talvez, como o silêncio faz para me escutar e, assim, “compreender-me a mim mesmo”.
Reaprendo todos os dias que a solidariedade não se finda em seu ato, principalmente o ato pequeno burguês, de desprendimento daquilo que não me serve mais, ainda que, de tempos em tempos, a natureza roga-se esse poder e testa a capacidade coletiva deste valor. Talvez ela olhe com alegria mas, nas entranhas, testemunhe que ainda não aprendemos o seu real valor (dela e da solidariedade).
Aprendi a dançar, até lundu e, de quebra, pegar o lenço... sem as mãos... sem encostar o joelho no chão (quem é do Pará ou passou – direito – por aqui sabe do que estou falando). Reaprendi a Conversa de Preto, a força da música DO povo, o cheiro da chuva e continuo a falar “bom dia!” aos trabalhadores invisíveis deste país.
Aprendi a ser duro, e terno... ou não. Lição difícil que, para o maior de todos os lutadores do povo que este mundo (e talvez outros) já conheceu, parece ser simples.
Mas, aprendi, reaprendi, esqueci, lembrei, experimentei, duvidei, desafiei, enfrentei, pedagogizei todos os dias... E isso faz com que, entra ano, sai ano, não é o Ano Velho que se vai e sim o que a experiência nos ensina, com suas lições. Não é o Ano Novo que chega, mas os constantes desafios que o Ano Velho havia nos avisado: “Lembrem! Enfrentarás o novo – e conseguirás – se tiver aprendido com o Velho!”. Sem ele, cairás em suas trincheiras.

Nossas Lutas continuam...

Vida Longa!

Venham Todos! Venham Todas!

Marcelo “Russo” Ferreira

PS.: Direitos autorais? Não sei... estive pensando nisso... Mas, se o que eu falei não pertence mais a mim, agora é responsabilidade de tantos quantos, sei lá... Se citares e não te importares em dizer que "Foi o Russo que escreveu", legal... Se não, também legal...

domingo, 21 de dezembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Celebrar...

Celebrar! Camaradas!!!

Celebrar...!

A celebração é, com certeza, a mais digna manifestação popular, com a qual a burguesia ainda não conseguiu descobrir seus efeitos na luta do povo, na luta contra o poder que, nada mais é que a luta da memória contra o esquecimento.

Celebrar! Camaradas!

Celebrar...!

Celebrar todas as pequenas descobertas de um povo! Todas as grandes descobertas das pequenas vitórias! Celebrar, também, que conhecemos profundamente nossos inimigos e que, portanto, sabemos como enfrentá-los. E os enfrentamos!

Celebrar! Camaradas!

Celebrar...!

Celebrar os/as amigos/as como companheiros/as de luta! Companheiros/as de vida, de alegrias, de chegadas e partidas. Celebrar as amizades mais profundas, sinceras e particulares. Celebrar até aquelas que, aos nossos olhos desatentos, parecem perdidas. Mas a descobrimos e, assim, são tão preciosas. Pois continuaram cultivando-se em nossa esperança por dias melhores, por um mundo melhor, diferente, divergente, antagônico deste que enfrentamos.

Celebrar! Camaradas!

Celebrar...!

E que a cada celebração, possamos lembrar de nossa luta, de todos os dias, de todos os/as camaradas de luta e de todos os lutadores e lutadoras do povo!

Celebrar! Camaradas!

Celebrar...!

E é preciso, porque a luta nos impõe assim, celebrarmos os que tombaram lutando, pois são (e verdadeiramente são, não foram) capazes de enfrentar de frente as adversidades da luta e das nossas armas ante aquelas que nos oprimem e, por isso, tombaram... não pelas adversidades, mas pela certeza da vitória, não importa a que tempo.

Celebrar! Camaradas!

Celebrar!

Assim como celebramos o nosso futuro, que este, pertence ao povo!

E não poderemos parar de celebrar, nem disfarçar nossa celebração, porque nossa luta não é disfarçada!

Celebremos com nossos filhos e filhas!

Celebremos com nossos pais, mães, avôs, avós, tios e tias, primos e primas!

Celebremos com nossos amores! Com nossos amigos e amigas! Pertos e distantes! Pouco distantes ou muito distantes!

Celebrar! Camaradas!

Celebrar...!

E eis de, em breve, como nunca se viu na história da humanidade, celebrarmos nossa triunfante vitória, a vitória do povo, a vitória dos trabalhadores, a vitória da revolução...

Celebrar! Camaradas!

Celebrar...!

Esse é o nosso maior presente! Esse é nosso maior desafio! Esse é nosso maior compromisso...

Celebrar! Camaradas!

Celebrar...!

Venham Todos! Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo "Russo" Ferreira

PS.: Esse texto foi escrito, menor, inicialmente para a Turma de Formandos em Educação Física do Campus Castanhal da Universidade Federal do Pará, quando celebraram a conclusão do longo caminho percorrido nesta.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Conversa de Preto...

A semana que se passou protagonizou e foi protagonizada pelas celebrações e manifestações país afora em razão da Semana da Consciência Negra. É verdade que houve, tempos atrás, um pequeno período em que a grande mídia televisiva e escrita deste país até dava mais atenção à data e suas manifestações, ainda que numa nojenta linha e postura de “politicamente correto”. Nos últimos tempos, entretando, descobriu-se que continua elite, branca, financeiramente poderosa e que não precisava mais ser “politicamente correto” e se limitou a pequenas notas e informações no estilo “coluna social”.
Porém, azar dela e daqueles que ainda a acreditam como democrática, crítica, que forma opinião livre de amarras econômicas e/ou políticas. Perderam, dentre outras coisas, um monte de Conversas de Preto que aconteceu naquela semana.
Conversa de Preto é algo mais do que podemos imaginar e foi com essa curiosidade que aceitei o convite de uma nova-grande amiga de terras paraenses para, no último dia 21 (um dia depois das celebrações oficiais em nome de Zumbi dos Palmares – Axé!) conhecer esse tempo-espaço de conversas, a Igreja Luterana, no Bairro do Telégrafo, aqui em Belém do Pará.
Paralelamente, resolvi que pesquisar sobre Conversa de Preto é algo de desnuda a concentração dos meios de produção, não importa sua frente (arte, música, literatura, informática etc.). Resolvi passear pela Internet, atrás de mais referências sobre o tema e é impressionante como o termo entra na linha do “conversa de pobre, conversa fiada”, jogando no lixo toda a imensa capacidade de oralidade, instrumento histórico de educação de gerações inteiras.
Um exemplo disso, encontrei em um sítio na Internet de uma empresa de venda de telefones móveis em Portugal em que clientes insatisfeitos discutiam os serviços desta empresa: “vê-se logo que são conversa de preto! Se vocês fossem para a escola aprender a ler e a escrever, fariam melhor figura!”, antecipado por comentários outros que, aqui, não vale a pena reproduzir. Também encontrei referências mais, talvez, poéticas e literárias, como um trecho de “Navalha, Venda e Tesoura” de Maria Helena (Helena Karsof)
particularmente, empreenderei esforços mais futuros para conhecer sua obra. Mas quase nada sobre Conversa de Preto em sua veia mais histórica – acho que é por isso que a ênfase está na oralidade.
Porém, o que me esforço é apenas, e humildemente, registrar que há muito tempo a luta do homem contra o poder é, também, a luta do preto contra o racismo. E até neste singelo espaço chamado O Universal Circo Crítico essa luta se trava, lembrando que, em pelo menos duas oportunidades (uma delas no maravilhoso Arcamundo –
www.arcamundo.blogspot.com), passeei por assuntos referentes a este tema que, neste mundo que precisamos enfrentá-lo e transformá-lo coletivamente, até registrou depoimentos “não despoliticamente incorretos” de Nobel da Ciência, Reitores de Universidades Públicas e Programas de Televisão dominicais e seus pejorativos eou suas conclusões científicas.
Mas Conversa de Preto nos ensina outras vidas também: a termos orgulho de nossa luta e de nossos aprendizados. De nossas viagens, imagens, desejos e fantasias por um mundo digno para nós, nossos pais e nossos filhos.
E foi inspirado pela fantástica oportunidade que tive de participar de uma Conversa de Preto que vasculhei em minhas memórias poéticas uma canção escrita em 1987 e que foi gravada e tocada pelo imortal (para mim) Afã, digna, inclusive, de uma singela classificação em Primeiro Lugar em um Festival da Canção do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, dois anos depois. E desta canção faço a minha contribuição à Conversa de Preto que, espero, vivenciarei inúmeras mais.

Apresento, “Negro Albatroz”...

“Qual é o conceito de liberdade / que se passa nas letras / de um dicionário? / Ou se joga em formas / oclusas no mundo? / Que não se conhece. / Que não se afirma / e que paira no ar, / qual um pé de vento / que diz: ‘Até logo!’, / sem mostrar teu rosto / e faz teu caminho, / e nos deixa saudades / sem te conhecer, Liberdade...

O suor de um rosto / marcado por anos. / Levado a promessas / e mais desenganos. / Mostrado conceitos: / ‘Procure uma luz!’, / é a luz de uma vela. / O vento apagou / e não há mais luz, / não há mais caminho, / esperança não há. / Desfez o conceito / guardado à memória / de uma criança. / Um sorriso no rosto. / A idéia interna de Liberdade.

Desfez-se o caminho. / Desfez-se a luz / que não se acende. / Mostrada a mentira / da palavra verdade. / E a luz aparece. / Aparece a sombra. / É sombria e negra, / enganada e fria. / Curvas tortuosas / e completas de calos. / São como um símbolo / forte de um negro, / que procura uma flor. / Já não há mais flor. / Já não há mais cominho p’ra Liberdade.

Se você gritasse, / se você perdesse, / se você um dia pensasse: / ‘E se eu vencesse?’. / Se você dormisse / e não acordasse. / Você sonharia / desmanchar o conceito? / ‘Eu sou livre!’.

Achaste o caminho. / Achaste o conceito. / A luz te achou. / Não existe senzala / e já não vives no mato. / Tu és como Cristo, / com as costas marcadas, / as mãos calejadas. / Sábio de Mestres / de tanto dilemas. / De vidas vividas / e idéias concisas. / Albatroz de uma sombra. / És uma sombra que voa, / Liberdade ressoa. / És Negro-Albatroz Livre!

... / ‘Eu sou livre! / Eu sou Negro! / Sou Negro de cor, / sou Negro de raça, / Negro justiça! / Negro-Albatroz!’, / um sonho de Negro. / Liberdade sonhada. / O sonho acabou. / A Liberdade não!”


Venham todos! Venham todas!
Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

Obs.: Essa, como outras, é uma canção de minha vida. Está registrada em cartório comum.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Sonho...

Era o ano de 1989... Quase longínquo, quase 20 anos.

Naquele ano, precisamente em fins de 88 e início de 89, passei por cerca de 08 vestibulares. Cinco deles em faculdades particulares (passei em todas, algumas quase no topo) e três em universidades públicas (não passei em nenhuma, mas a história foi positiva, mesmo assim).

Optei por escutar os comentários sobre uma faculdade em São Caetano do Sul (ABC Paulista), que estava adequando o currículo para uma formação mais ampliada, atualizada e coisa e tal. Era, inclusive, longe de casa: ônibus (quando não a pé), Metrô, trem e ônibus (quando, também não, a pé).

Nesta, conheci uma pessoa que, nos ano e meio seguinte, passou a ser minha namorada, talvez a primeira de fato. Dela, lembro realmente muitas coisas: dançava muitíssimo bem, já era professora de ballet e jazz e já era dona de academia, morava um pouco mais longe do que a faculdade e tinha uma vida de classe média alta.

Foi uma grande relação, com seus altos e baixos. Como jovem que era, o final do relacionamento (já em 1990) me levou a, digamos, apagar e/ou me desfazer de todas as marcas que foram construídas entre e por nós dois. Quer dizer, quase todas.

Naquela época, mesmo com os ainda limites técnicos com o violão e a guitarra (foi o período do Afã), já era mais criterioso, mais detalhista musicalmente, explorava mais as notas, mesmo quando eram mais simples. E, neste período, veio talvez a primeira verdadeira canção de amor, uma canção para alguém. É verdade que, na minha adolescência e pré-juventude, outras foram escritas, mas essa, significativamente, foi bem escrita: letra simples e, ao mesmo tempo, repleta de uma viagem visionária incrível (e lá está o palhaço), pois, além de tudo, representava experiências até então não vividas em um relacionamento.

A banda não chegou a experimentá-la (tínhamos outra canção amorosa, um dia a apresento), mas, lembro que em conversas com o baterista, o fantástico “Neil Peart brasileiro” Eduardo Marcelo Vidilli, a imaginávamos na banda, devido à sua acústica e melodia... uma bela balada que possuía uma incrível capacidade musical para se transformar num belo rock’n’roll. Ficou em minha memória.

Apresento, “Sonho”.

“Tenho um sonho / mil velas entrando no mar / Tem nas ondas um som / Vejo meus olhos em teus olhos / canta poemas / Não importa! / Não tem o que significar.
Se é que pode escorrer dos meus olhos / Se é que me saem da boca / palavras de amor / Deixe-a falar / Deixe contar aos teus ouvidos / Deixe falar a tua mudez / eterna nudez de paixão / Se sou um palhaço ou não / Dane-se! / Sou um palhaço...
Tem em meus olhos um palco montado/ onde vejo nossas mil velas entrando no mar./ Tem nas ondas um novo som./ Gemem como geme uma virgem./ Gemem como virgens de amor/ Deixe gritar!/ Deixe chegar ao infinito,/ um folhetim de Liberdade.
Sonha como sonha um palhaço.”



Venham todos! Venham todas!

Vida Longa!


Marcelo "Russo" Ferreira
Ps.: esta, como outras canções, estão registradas em cartório de ofícios...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Conversas ao pé de ouvido com Ághata Lídice...

"Desde criança sempre gostei do meu nome,
não só por achar bonito mas também pela sua história
que sempre ouvia ser relatada por meus pais
às pessoas que freqüentemente revelavam
curiosidade em torno de sua origem”
(minha Tia Sacha Lídice, 1985)

Bem vinda, querida Ághata Lídice... Bem vinda!
Sua chegada é celebrada tanto pela chegada em si, como, também, pelo fato de conhecer seus pais (Cidinha e Aquiles, o nosso querido “Quarta-feira” – depois pergunte ao seu Tio João Alberto porque chamamos seu pai assim), pessoas importantes, em especial nos últimos cinco anos de minha vida aí por essas terras candangas.
Mais do que falar do dia 09 de novembro, dia que comemoraremos, ano após ano, a sua chegada, a vinda de Ághata Lídice em nossas vidas, quero aqui viajar profundamente nas histórias de seu dia e de seu nome que, podes ter a mais absoluta certeza, são imensas e intensas.
Sobre o novembro há muito o que contar.
Em outros dias do mês de novembro, encontramos muitas histórias de significativos aprendizados: a memória de Zumbi dos Palmares, um dos poucos e verdadeiros heróis brasileiros (derrotado e morto no dia vinte, em 1695); o nascimento do abolicionista Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes (1748); a partida de “Aleijadinho” (1814), um dos (se não o) mais importantes escultores brasileiros. Sem falar naquilo que irás aprender também na escola (como o 15 de novembro – proclamação da República do Brasil) e o que, possivelmente, não será a escola que irá te ensinar (o assassinato de Carlos Marighella, em 1969, um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil e amigo de meu velho avô, Hiram de Lima Pereira).
Mas se tu chegasse dois dias antes, dia 07, ah! que data especial na história da luta do homem contra o poder, pois foi em 07 de novembro de 1917 que, liderados por Vladimir Lenin, os bolcheviques tomam o poder na Rússia e derrubam o governo provisório de Alexander Kerensky. E é por ser lúcido pôr essa memória da humanidade que a desejo lutadora, sempre, por ti, por sua família, por seus amigos e por aqueles que não conhecerás, mas saberá que existem e esperam sua solidariedade permanente.
Mas se fosse dois dias depois, vale a pena assinalar, estaríamos também comemorando o aniversário da Independência de Angola (1975). Mas a escola fala mais da Independência dos EUA.
É na véspera de seu nascimento que indianos homenageiam a morte de cerca de mil pessoas que morreram em seu país na passagem de um ciclone, com ventos de 200 quilômetros por hora, em 08 de novembro 1996. Por isso, minha pequena Ághata Lídice, respeite a mãe de todas as mães da vida e de todos os seres vivos, a natureza, pois ela não está longe de ti.
Mas, em exatos 09 de novembro, a história do homem e da humanidade registram outros importantes acontecimentos (não vou contá-las cronologicamente, certo?):
Foi neste dia, em 1799, que Napoleão Bonaparte chegou ao poder na França através de um golpe de Estado e, cerca de século e meio depois, durante os anos da Primeira Grande Guerra, um navio italiano (Ancona) é afundado por torpedos alemães com 272 pessoas à bordo e Guilherme II, imperador alemão, se exila na Holanda e a Alemanha é proclamada uma república, em 1915 e 1918 respectivamente. Lembre-se, querida Ághata Lídice, sempre encare e enfrente com coragem e ousadia toda e qualquer forma de autoritarismo; toda e qualquer forma de opressão; toda e qualquer forma de desumanização em nome de poderes que não venham a ser o da liberdade e da justiça popular.
Foi em 1889, com o Império brasileiro mal das pernas, que aconteceu o Baile da Ilha Fiscal, a última vez que Dom Pedro II apresenta-se com honras de imperador. Durante o Baile, dizem os mais informados, era realizada no Clube Militar do Rio de Janeiro uma reunião republicana para a derrubada da monarquia e pela instauração da república. Só não sei lhe dizer se é o mesmo Clube Militar que anda dando com os ombros à vontade do povo brasileiro de conhecer à fundo a história da ditadura no nosso país. E aqui, mais uma lição de seu aniversário: a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento (Milan Kundera – autor e músico tcheco).
Foi em 1953 que o Camboja (que em 1884 passou a ser tratado como parte da Indochina francesa, vai entender...) tornou-se independente da França, depois de ter procurado sua proteção em 1863. É preciso sempre conhecer a fundo a nossa história, para saber o que isso representa em nossas vidas, mesmo que em países distantes... vais entender isso mais adiante, neste texto mesmo.
Foi também neste dia especial p’ra ti (e para nós) que a Ponte Rio-Niterói foi inaugurada, em 1968 – aliás, quem a inaugurou foi a rainha inglesa Elizabeth II (hein?) – e a saudosa Telebrás, privatizada a preço de banana (que nem anda tão barata assim, mas fica pelo conto popular, ta?) foi criada em 1972. Mais uma pequena e importante lição: nunca permitas que, em nome do poder econômico, marcos do povo sejam bagatelados aos mentirosos donos da força de produção mundial.
Foi em 09 de novembro de 1989 que o muro de Berlim, que dividia a Alemanha em Ocidental e Oriental, fora derrubado. A queda do muro passa a ser um dos marcos do fim da Guerra Fria. A unificação oficial do país acontece no ano seguinte. Já sobre o que significou o fim da Guerra Fria (teve gente que dizia que era o “Fim da História”), penso que ainda irás vivenciar muito em seus certos longos anos de vida.
Ah! aprenda a jogar xadrez, que jogo magnífico. E foi em 1985 que o soviético Gari Kasparov é proclamado pela primeira vez campeão mundial de xadrez.
Mas, nesta longa viagem histórica, sua chegada tem algo de especial, ah! realmente muito especial: seu nome.
Quando seus pais me disseram “É uma menina!”, comentei sobre os nomes de minha mãe e tias (todos muito bonitos) e eles gostaram do nome Lídice, pela história que contei a eles e que está marcado também na história de minha tia Sachenka (Sacha Lídice). Foi uma alegria imensa saber que eles escolheram este nome para compor o seu primeiro nome, assim como o foi com minha tia. E, por isso, em breves palavras, te conto ao pé de ouvido, o que significa chamar-se Lídice.
Lídice era um pequeno povoado da antiga República da Tchecoslováquia, invadida e massacrada por alemães-nazistas em 10 de junho 1942.
O massacre, em si, foi uma resposta vingativa ao assassinato realizado por agentes da resistência tcheca ao alemão SSO Reinhard Heydrich, em 27 de maio daquele ano. Heydrich resistiu até o dia 04 de junho.
Após este dia, foram presos e mortos mais de 1000 acusados por aquele assassinato, além de 3000 judeus deportados dos guetos e executados em Theresienstadt. Em Berlim, no dia da morte de Heydrich, em represália pelo atentado e morte de seu comandante, 500 judeus foram presos, sendo que 152 deles foram executados.
Segundo o historiador Adriano De Toni “Sob o pretexto de que haviam abrigado os assassinos, Hitler ordenou que a pequena Lidice, fosse ‘riscada do mapa’, deveria ser completamente destruída e todos os mapas do Reich fossem re-impressos, não constando mais a pequena vítima, para que fosse esquecida pela história”. Naquele povoado, como uma aclamação às vontades de Reich, todos homens e garotos com idade acima de 16 anos foram fuzilados e as mulheres (esposas e mães) deportadas para o campo de concentração de Ravensbrück, onde seriam posteriormente exterminadas. Já as noventa crianças que vivian na vila foram enviadas ao campo de concentração de Gneisenau, onde posteriormente seriam mandadas para orfanatos nazistas, por terem traços arianos (cor dos olhos, cor do cabelo etc.). A cidade foi simplesmente “riscada do mapa”, como assim queria o império nazista... mas não foi esquecida pela história.
A pequena Lídice foi reconstruída após o final da guerra, ainda que não no mesmo lugar. Neste, foi erguido um monumento para que as futuras gerações não se esqueçam do ocorrido e para que talvez nunca mais volte a ocorrer um fato tão grotesco.
Encontrarás, também, no mapa brasileiro, uma cidade chamada Lídice, também em homenagem ao pequeno vilarejo tcheco. A antiga Santo Antônio do Capivari, a cerca de 40 quilômetros de Angra dos Reis, abriga sinais dessa história, como a estátua de uma Fênix (a mitológica ave que renasce das cinzas) na praça central. No seu Centro Cultural há marionetes tradicionais da República Tcheca, quadros e exposições sobre o país do Leste Europeu. Uma história distante perto de nós.
E foi assim que Hiram de Lima Pereira e Célia Pereira (meus avós) batizaram minha bela Tia Sachenka: Sacha Lídice Pereira e seu nome e sua homenagem correu o mundo e chegaram naquele pequeno povoado reconstruído. Minha tia tem um orgulho histórico de seu nome e já me contou muito sobre isso e, agora, espero que também tenhas orgulho infinito sobre o que significa chamar-se Ághata Lídice que, traduzindo ousaria chamar-te: Pedra Preciosa da Luta Popular Mundial.
Por fim, pequena Ághata Lídice, não posso deixar de lembrar que em um 09 de novembro partia, aos 64 anos, a poetisa brasileira Cecília Meireles, a primeira mulher a ter um livro reconhecido pela Academia Brasileira de Letras (que passados 44 anos, parece-me que ainda é um centro literário-intelectual machista) e, pesquisando um pouquinho sobre essa importante poetiza brasileira, encontrei uma obra publicada postumamente e que aqui, celebrando sua chegada, a reproduzo:
“Ou se tem chuva ou não se tem sol, / ou se tem sol ou não se tem chuva! / Ou se calça a luva e não se põe o anel, / ou se põe o anel e não se calça a luva! / Quem sobe nos ares não fica no chão, / Quem fica no chão não sobe nos ares. / É uma grande pena que não se possa / estar ao mesmo tempo em dois lugares! / Ou guardo dinheiro e não compro doce, / ou compro doce e não guardo dinheiro. / Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... / e vivo escolhendo o dia inteiro! / Não sei se brinco, não sei se estudo, / se saio correndo ou fico tranqüilo. / Mas não consegui entender ainda / qual é melhor: se é isto ou aquilo.” (Ou isto ou aquilo – Cecília Meireles).
É isso, minha pequena Ághata Lídice. Seja bem-vinda!

Venham Todos! Venham Todas!
Vida Longa à Ághata Lídice!
Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Na casa do Zé Ramalho!

“O Carimbó é lá na casa do Zé Ramalho”(Um vizinho)

Em maio, aqui neste magnífico espaço virtual, mas que sempre me aproxima com mais regularidade de amigos nada virtuais, falava, em caixa alta e boca cheia: “Eu vou para o Pará!” e ia me deliciando com as coisas, as pessoas, as experiências culturais, corporais, religionais, etc e tais deste belo e lutador Estado do Norte brasileiro.
Ainda não conheci os rios onde certamente irei me banhar; conheci algumas histórias da cabanagem (a dos porões do Colégio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, por exemplo), mas não todas; ainda não conheci e me envolvi concretamente com os tempos e espaços de luta atuais, mas já conheci os companheiros do MST e do Movimento Estudantil de Educação Física e os lutadores pela educação (não todos, é verdade, mas importantes e até imprescindíveis) das bandas de cá; ainda não dancei a Dança do Siriá, o Xote Bragantino, o Cairé e o Boi-Bumbá; ainda não viajei na cultura e no folclore desta região, de riqueza e variedade impressionantes.
Mas tudo tem seu tempo.
Já conheci o Carimbó e o Lundu (eita da dança instigante, onde o corpo e a alma falam ao extremo – mas ainda não aprendi a dançar); já fui na trasladação do Sírio de Nazaré (ver a Nazica) que, a bem da verdade, não chega aos pés do Círio do domingo; já me empanturrei de tacacá, de açaí (com camarão, com carne seca, com peixe, com farinha d’água ou de tapioca), pato e peru (acho que era peru) no tucupi, arroz com maniçoba, peixada, caruru paraense, a folha de jambú, o creme de cupuaçu, o bacaba.
E os amigos? Ah! Os amigos, resgatando-me a velha mística norte-nordestina de ver e receber os amigos: Joselene, Ney e a pequena – e já apresentada neste espaço – Júlia, Zaira, Robson e a poderosa Iara, a Edel, o Jorge, a Carmem Lilia, a Dalva, Marco Pólo e os belos Rodrigo e Danilo, o Beto, Matheus (caramba, não o vi ainda), Lucilia e Edmilson (o melhor prefeito que Belém já teve), Patrícia Araújo, de meus compadres Andréa e Paulo (agora sou eu quem os recebe) e as já grandinhas Bebela e Bibi (sempre vigiadas pelo poderoso Wilsinho) e, no meio deste fuzuê danado de amigos que já tinha, de um jeito ou de outro: Livinha, Myrian, Betânia, Éder, Carol, Linnesh, Macapá, Patrícia (minha querida palhacinha), Lílian, Mirleide, Ana Cristina, Josafá, Daniel (e meus inquietantes e inquietadores alunos de Castanhal), Marta, Elenir e Dérick e, o que é mais interessante, amigos e amigas que me ajudam a compreender mais e mais a profundidade da amizade (e, assim, as que tenho em outras partes deste país) e da luta.
E a trasladação do Círio? Que impacto espiritual provoca na gente. Em que pese eu não ter ido no dia do Círio, no domingo da sua celebração (ah! minha renite!) e o fato de eu não ser um cristão praticante, ir na trasladação fez a provocação espiritual que eu esperava. Milhares de pessoas na Saída da Avenida Nazaré, entrando na Presidente Vargas/Praça da República, aguardando a chegada da Santinha. Quando isso acontece, no meio daquela multidão, um silêncio leve e igualmente ensurdecedor ocupa meu universo singular e me leva a uma conclusão que já a tinha como certa: “que bom que estou aqui! Obrigado”.
E o carimbó? Ah! o carimbó... Imaginem o que é aglutinarmos nossos melhores e grandes amigos daqui e de fora (recebendo também aqueles que não puderam ir) e, na garagem de casa, vivenciar quase três horas ininterruptas de carimbó, lundu, xote, até um forrozinho e, claro, homenagem ao anfitrião, “Madeira do Rosarinho, vem à cidade sua fama mostrar...!” seguido de “Felinto Pedro Salgado Guillherme Fenelon cadê seus blocos famosos...” e uma ciranda de roda para fechar. Agora, o carimbó, na opinião de meus vizinhos, é “na casa do Zé Ramalho”.
Celebrar! E temas para celebrar não faltam e não faltarão nesta Terra (com T maiúsculo). Estão todos e todas convidados.

Venham todos! Venham todas!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira
Obs.: Cumprindo (ou tentando) o compromisso de falar ao mundo sobre a luta do povo paraense, que também sabe, e como, celebrar a vida, a cultura, a religiosidade, a esperança, a revolução.

domingo, 26 de outubro de 2008

O Universal Circo Crítico... Lições de Che...

“A vida Humana não tem significado
senão depois de ter estado muito tempo
a serviço de algo infinito.
Para nós, a humanidade é esse infinito”

(Adolf Ioffé, em carta de despedida à Léon Trotsky)

Estranho e interessante os caminhos com os quais seguimos numa relação recíproca e dialética de ensino-aprendizagem de nossos valores, no meu caso, valores socialistas.
Sempre afirmo com convicção e tranqüilidade quase humilde: não sou um lutador do povo, continuo aprendendo a sê-lo. Espero, com paciência e ousadia revolucionárias, que meu(s) neto(s) venham a ser verdadeiros lutadores do povo, tamanho e histórico é o caminho que ainda a humanidade tem a trilhar para a construção de um mundo verdadeiramente livre de toda forma de opressão e exploração do homem pelo homem.
Porém, não é o caso de dizer que apenas as crianças que vierem daqui a duas gerações serão verdadeiramente revolucionárias. Esse processo não é estanque, quadradinho, ajustado à vontades singulares, no máximo particulares. E, recentemente, a história (e, de certa maneira, o Pará) me deu uma lição-demonstração disso.
Passaram-se cerca de duas semanas de meu aniversário, quando visitei um casal de amigos e, sua filha, Júlia, veio com um pequeno embrulho com jeito de presente. Na verdade, era um presente, verbalizado como “atrasado” porque foi dado depois de minhas completas 3.9 primaveras.
Dentro do pacote uma camisa (com desenhos rupestres) e um CD e foi justamente este que chamou minha atenção. Na capa, fotos da pequena “Jujuba” desde bem pequenininha e dentro dele, músicas, cerca de 20 canções, de Zeca Baleiro e Ed Mota (“Eu sou da Arca e você quem é que é?”) a RBD e Xuxa (caramba! Cantando Chico).
Tinha canções de nossa infância e que ainda persistem heroicamente na cultura infantil (ainda que muitas vezes na voz de Xuxa que, todos sabem, é ajustada em estúdio, dada a sua conhecida desafinação musical): “Fui no Itororó beber água, e não achei...”, “O sapo não lava o pé, não lava porque não quer...”, “A dona aranha subiu pela parede! Veio a chuva forte e então a derrubou! Bum! (bum??? Eita da aranha pesada!)”. Ah! uma que minha professora (Tia Rosana, não esqueço) da 3ª séria do primário (ensino fundamental) cantava sempre que tentava organizar a fila para nos dirigirmos à sala de aula no antigo Externato Santa Terezinha: “Minhoca! Minhoca! Me dá uma beijoca! Não dô! Não dô! Não dô!” (é assim mesmo, dô).
E a saga amorosa do rato, que é um rato que a gente gosta, porque prefere o beijo brilhando da Lua “Declaro ser o seu mais lindo amante! (...) e fazer da noite escura o nosso altar!”... E vem a Nuvem Redonda que cobre o Luar, num altar de céu imenso; e vem a Brisa Macia que destrói a Nuvem, num altar de vento; e vem a Parede Parada que para a Brisa, num altar da terra; e, finalmente, a Ratinha Dentuça que cavoca a parede que barra a Brisa que destrói a Nuvem que cobre o Luar e que faz da natureza o altar, “Esperando um grande queijo... Ops! Esperando um grande beijo!”. Lembrava Saltimbancos.
No meio destas canções todas, uma com jeito mais de formação cristã, mas com uma passagem muito bonita: “Como pode o Rei nascer sem riqueza para receber? Sem festejo para o acolher? (...) Tão humilde, seu tesouro somos nós”... A Igreja Romana tenta, luta, escreve Encíclicas e a mídia mundial superficializa, mas ‘tá aí uma lição cristão-revolucionária. Pois é assim que pensam os grandes líderes revolucionários de nosso tempo, inclusive os que tombaram (e continuam sendo): os lutadores do povo são a única e grande riqueza da humanidade. Pode até ser que a canção em questão não tivesse intenção de formar revolucionários, mas nada como tirar as lições importantes à humanidade daquilo que o poder produz.
Mas, o principal deste lindo presente que recebi é o sentido e significado que ele tinha. Era o CD das canções mais importantes, mas significativas daqueles 5 anos de Júlia e não apenas isso fez deste presente uma jóia rara, mas, e mais importante ainda, o olhar que a pequena Júlia deu a um presente no dia do meu aniversário (que foi planejado para o seu aniversário). Seu presente foi sua história, contada por músicas infantis, cantada também por nomes que não gosto, mas que fazem parte do Universo infantil dela. E, no conteúdo expresso em seu presente, a importância superadora que Júlia fez sobre a industria cultural, em particular a que manipula e molda os ídolos de música mundial. Um presente que, precisamente, diz a sua história... a história de uma criança de 5 anos de idade. E isso é revolucionário.
Por que “Lições de Che” no título deste artigo? Porque, por mais ridículo que possa parecer, este grande líder entendia que um verdadeiro revolucionário é movido por um sentimento profundo e verdadeiro de amor. Desde pequena, Júlia fez de seu presente de aniversário (o seu e, no meu universo particular, o meu) uma manifestação absolutamente revolucionária de amor.

Vida Longa à pequena Júlia!
Vida Longa aos pequenos Lutadores do Povo, do campo e da cidade!

Venham Todos! Venham Todas!
Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Laços...

Era o ano de 1995... já faz um tempo...
Lembrei-me desta canção depois de participar, a cerca de duas semanas, de um evento que reunia, em sua maioria, jovens estudantes universitários e “fotografar” o comportamento coletivo destes jovens. Venho convivendo com eles (jovens estudantes universitários) quase todos os dias, quer em sala de aula, quer em seus locais de prática de ensino.
Vejo os jovens que militam (principalmente em tempos de eleição) e a convicção que os move, de um lado ou de outro, a defender determinado nome, nem sempre com um projeto político claro, concreto, real como pano de fundo.
Vejo os jovens em programas dominicais, em programas de auditório, ambos e outros procurando construir o perfil “Malhação” como o melhor para nossos jovens e, pelo menos estes que assisto, adorando a idéia.
Também vejo os jovens do “dia de hoje”, perfil construído bem ao gosto de uma sociedade imediatista e consumista, em que as ações coletivas se reduzem às formas mais impressionantes: torcidas uniformizadas e fã clubes (capitaneados valorativamente pelos “Fãs de Carteirinha” global) são bons exemplos disso.
Mas também vejo os firmes e invencíveis jovens lutadores do povo e, vendo-os, lembrei-me de uma viagem em que cerca de 46 jovens estudantes universitários retornavam de um Encontro Nacional de Estudantes de Educação Física. Os olhares para o que acontecia na Estrada, em que, a cada passagem em pequenas cidades/vilas nordestinas, reparávamos (e alguns angustiavam-se) nas pessoas que pediam comida e dinheiro: crianças, adultos, idosos até e jovens... outros jovens.
Entre conversas e falas coletivas sobre o que assistíamos, um violão (sempre ele) foi para o meu colo e, quase sem perceber o tempo que isso levou, lá estávamos a construir uma canção de jovens, uma canção de esperança, uma canção de não apenas olhar para o futuro, mas comprometer-se com ele, ideológica e politicamente. Alguns destes jovens persistiram neste caminho, com todas as suas contradições. Outros, caminham no seu dia-a-dia... não os condeno, de maneira alguma. As garras e artimanhas no Projeto Histórico Capitalista são cruéis e obscuros... Mas a canção, ah! a canção...
Apresento, “Laços”.

“No meio de uma multidão de jovens / Poetas que procuram razões. / Emoções a flor da pele. / Viajam mil léguas / e passam por culturas em uma canção.

Se quiseres vir com a gente / seremos poetas e amantes da canção. / Se quiseres vir com a gente, / rasgue a camisa e nos mostre o coração.

E nessa busca nos expomos / aos efeitos da ilusão. / E nos encurta os caminhos, enamorados, / e nos enganam os corações. / Aos nossos corações.

O mundo passa / e nele, conflitos despertam união. / São passos que levam / pessoas distintas à critica.

‘Somos vida, somos laço, / que no desembaraço / não existirá uma reta, / mas uma simples relação concreta, / que exposta ao tempo, / se romperão os falsos argumentos, / Trazendo fertilidade aos nossos movimentos.
Nós ficamos e buscamos um novo mundo. / Alegria, amor, tesão, liberdade. / É o nosso grito de canto: / Terra, linda Terra, Fértil Chão. / A luz que ilumina os nossos / caminhos fortalecem a união.
Venham conosco nessa luta / constante de paz, amor e paixão. / E sejamos forte para combater as desilusões.’
... somos vida, somos laço.”


Venham todos! Venham todas!
Vida Longa!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O Universal Circo Crítico... um aniversário...

Todo ano é a mesma coisa... mas não chega a ser a mesma coisa. O que é a mesma coisa é que é o dia do meu aniversário, ou seja, é o dia em que, a cada ano, celebramos mais um ano, mais uma primavera (literalmente), o dia em que mainha me apresentou ao mundo (mesmo que meus olhos estivessem fechados), o dia em que...
Mas, sempre tem o diferente, sempre existem diferenças peculiares, importantes, daquelas que não dá p’ra esquecer mesmo. Desde aqueles 10 anos com bolo, velinha, refrigerante e pega-pega na frente de casa até os 38 (último), com uma boa e longa cerveja, numa mesa de bar (no Círculo Operário do Cruzeiro), com os amigos e com as amigas.
De um tempo p’ra cá, também passei a fazer coisas singulares, talvez até particulares, neste dia em que fui aprendendo, aos poucos, a celebrar, para além daquela relação materialista de “dia de ganhar presentes”.
O 22 de setembro, assim, passou a ser também um contínuo dia de celebrar aprendizados. Esses, todos os dias marcam nossa história, pequenos, singelos, com jeito de insignificante, grandes que são pequenos, objetivos e subjetivos, impares e únicos, permanentes, os de sempre (até aprendermos) e por aí vão nossos muitos aprendizados. Dias 22 de setembro’s intensos e outros calados, circunscritos à minha necessária introspecção.
O 22 de setembro também é um dia de buscar AQUELE livro, AQUELE CD. Ah! Esses eu lembro sempre. Foi num dia assim que fui atrás de “Os saltimbancos” do Chico Buarque que, quando criança, escutávamos (eu, minha irmã, mainha, painho) no toca-disco de casa, ou no toca-fita do carro, o bom e velho maverick verde de painho... Cantávamos as músicas, todas elas, de ponta-a-ponta. Adorava aquela assim, bem rock’n’roll “A cidade ideal de um cachorro/ tem um poste por metro quadrado/ não tem carro, não corro, não morro/ e também nunca fico apertado”. Anos depois fui saber qual era a do cachorro não ficar apertado numa cidade cheia de poste... E também foi num dia assim que comprei um CD de Jon Anderson e Kitaro, chamado Dream, uma viagem musical fantástica. Levantado do Chão, de José Saramago “foi-me dado por mim” num 22 de setembro, assim como “Batismo de Sangue” do Frei Betto, este comprado num sebo, na Av. Brigadeiro Luiz Antônio em São Paulo.
Lembro de um 22 de setembro divertidíssimo, na escola em que trabalhava, o saudoso e imponente (por seu projeto) Projeto Nossa Escola. No início daquele mês, passei em todas as salas e coloquei o meu nome (Tio Marcelo) no quadro de aniversariantes do mês. Vantagens de ser professor de Educação Física e dar aulas para várias turmas. Ah! Parei a escola... Só de bolo, foram dois. Flores, bombons, perfume (hein? Ué? Por que?), caneta, camisa, beijos, beijos, beijos... Mas, o que foi lindo (e divertido) daquele dia foi a intensidade, o quão era ímpar e gostoso a relação com meus pequenos alunos, meus pequenos lutadores do povo, intensamente.
Nos meus últimos anos, os que vivi em Brasília, foram também 22 de setembro’s de descoberta das pessoas, as que trabalhavam comigo, as que conheci e construí forte e linda amizade, também fora do trabalho. E era fantástico, porque, no final-das-contas, a gente sempre fazia aquela torta de chocolate, uns pãezinhos e salgados, uma vaquinha para um presente (perfume? De novo? Tem alguma coisa cheirando mal...), mas era como se fosse só com a gente que acontecesse isso. E, depois, celebrar com todos e outros tantos, ou no Círculo Operário do Cruzeiro, ou no Pescoço de Peru.
Houve um 22 de setembro, ainda em São Paulo (orra meu!) que passei trabalhando. Quer dizer, foram muitos 22 de setembro que passei trabalhando. Mas, naquela oportunidade, eu trabalhava no interior de Minas Gerais todo o final de semana e, naquele ano, lá estava eu, monitor de recreação, em um Hotel na Serra da Mantiqueira. Eu e um amigo, também monitor... Ganhei(amos, na verdade) um vinho da gerente do Hotel e o abrimos, com salgadinho (que crime) e um pão, no lado de fora do nosso quarto. E tome conversa sobre nosso trabalho, nossos amores, a família, o planeta, a amizade, nossos cachorros... e, ao final do segundo vinho (compramos este) já estávamos chorando e dizendo juras de amizade um com o outro. Impressionante o que faz duas garrafas de vinho em dois jovens de 21 anos de idade.
Em época de Internet, orkut, blog etc. é até legal esse lance de fazer aniversário. Todo mundo “se lembra” do seu aniversário. Sim, eu também lembro do aniversário de todo mundo... Tá no orkut. E não é que esquecemos dessas pessoas, mas, acabamos nunca lembrando dos aniversários de nossos amigos. Mágico esse orkut. Se, até a data de seu aniversário, o(a) camarada entrar no seu perfil, lá está a nossa foto no campo “aniversariantes do dia”... Adoro isso!
Mas o 22 de setembro é, também, realmente o dia em que nossa introspecção nos visita e nos alerta: “ainda há muito o que aprenderes, bravo guerreiro!”. Ainda que eu faça isso sempre (ou quase sempre).
E que bom que, em meu 39º aniversário, continuo tendo professores e professoras, pertos e distantes, amigos e mui amigos, deste lado ou do lado de lá de nossas trincheiras e que, de um jeito ou de outro, me ensinam todas as artes e as músicas, todas as lutas e as batalhas, todas as vitórias e as temporárias derrotas.
Neste 22 de setembro, celebro minha história, que só o é, pelas pessoas que habitam-na.

Venham todos... venham todos...
Vida Longa!

Obs.: Hoje, também é 22 de setembro para minha mea-irmã, Silvinha. Mundo pequeno esse...

domingo, 14 de setembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Triste Comédia...


Era o ano de 1986... Longe, longe, longe...
Recordo que, poucos anos antes, eu havia tomado uma postura de “inxirimento” no velho Del Vecchio de minha mãe, um violão vistoso, com uma acústica linda que, com certeza, anos mais tarde me daria mais precisão musical, se bem investido. Mas, lembro que esse movimento de descoberta deste instrumento, em pouco tempo, me levou a tentar coisas minhas. Reconheço que me deliciava e até fazia planos com aqueles ajuntamentos de três ou quatro notas – aparentemente sempre eram simples – e a pequenas viagens nas primeiras letras. Bobinhas, recordo... mas que foram, vez por outra, se qualificando e, daquele período, resgato coisas escritas com criticidade e profundidade que incitavam significativa maturidade e, coisas de adolescente, inflexões.
Em 1986, estava no que chamávamos de 2º colegial... Tinha uma garota na minha turma à qual eu era apaixonado. Mas, não deu certo. Recordo até que cheguei perto, mas a ansiedade me traiu. Era também um ano de crescimento como atleta (fazia remo) e, mesmo que não competindo nesta modalidade oficialmente, tinha ótimos resultados em outras modalidades na escola, principalmente nas competições individuais, momento em que obtia pequenos, mas significativas expressões de respeito (doce ilusão de adolescente). E, naquele ano, tinha amigos que topavam tentar uma banda... Eduardo (que seria o baterista do Afã, alguns anos depois) e Sandro Ricardo, que tocava baixo... Eu tinha uma guitarra Bergman que, segundo minha memória, era de uma fabricante pequena nacional.
Mas, nesta canção que apresento, a guitarra não se fez presente. Apenas o velho e fantástico Del Vecchio de mainha. Penso que, com os devidos “equívocos” de interpretação da história da humanidade, era uma das primeiras músicas que entravam em meu campo crítico de compor e, talvez ainda sem perceber, já adotava uma das personagens da ironia mundial que compõe meus imaginários mais críticos e criativos: o palhaço.

Apresento, “Triste Comédia”... Lembrem-se! Foi escrita no alto de meus 16 anos. Ainda não me incomodava a mania de compor sempre com versos.

“Lá vem o palhaço / cheio de alegria. / Junto com seu povo / numa utopia. / Vem então uma flor, / Rosa de Hiroshima. / E o palhaço viu / que o seu povo temia.
Temia por uma coisa que nunca viu. / E que em pouco tempo se expandiu. / E logo o palhaço então chorou, / Pois viu que o seu povo se acabou.
Num mundo que em sete dias se formou / e em cinco segundos se acabou. / E logo uma pomba então se perdeu / no meu de pombas de ferro.
Mas um só jovem sonhou. / E em um palhaço se transformou. / E a pomba suas asas bateu / e os jovens então se uniram.
E as pombas de ferro caíram. / Caíram e logo explodiram. / Mas uma flor se formou, / e suas espinhas soltou. / E o cinza que é cor de fumaça, / de fumaça a flor se formou.

Lá vem o palhaço / cheio de tristeza. / Junto com seu povo / agora, uma pobreza. / E a rosa já se formou / e suas raízes ficaram. / E o palhaço viu / que sua platéia morreu. / E a triste comédia se formou, / pois sua platéia morreu. / e o palhaço então chorou, / pois sua platéia morreu. / E logo o mundo se dividiu, / pois sua platéia morreu. / E a triste comédia se formou, / e o palhaço então sua lágrima deixou”


Venham todos! Venham todas!
Vida Longa!

Obs.: Essa, como outras, é uma canção de minha vida. Está registrada em cartório comum.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O Universal Circo Crítico... Círculo Operário do Cruzeiro...



“Ao sair do caroço do tucumã/
a noite criou os boêmios/
poetas e loucos/
que navegam nos rios da amizade/
a cultivar histórias e fantasias/
que adormecem com a aurora”
(Éder Jastes)



De repente, mas não tão de repente assim, chega a sexta-feira. Pelo mundo afora, no seu sentido cotidiano de trabalho “bancário”, é o dia em que nos preparamos para o fim-de-semana. Da sexta para o sábado, aquela sensação de “liberdade”, afinal, no dia seguinte é sábado.

Já vi muito de sábados serem aqueles dias em que tentamos dar conta daquilo que não tínhamos condição de dar durante a semana: tarefas domésticas, feira, comprar roupa para as crianças, banho no cachorro, deixar o terno para lavar na lavanderia, arrumar o carro ou a bicicleta (sua ou do filho), preparar o almoço, lavar louça, estudar... No final do sábado, lembramos que ainda podemos dormir tranqüilos, pois o dia seguinte é domingo e, ainda, dá para dormir um pouco mais e esticar a preguiça.
Já falei do domingo em outras oportunidades e, quanto mais perto chegamos da hora do Fantástico, mais caímos naquela sensação de que “vai começar tudo de novo” e assim seguimos a vida, anos a fio.
Mas, e se começássemos a sexta-feira diferente? Se a sexta-feira fosse não apenas uma “hora feliz”? Se a sexta-feira fosse um constante encontro com nossas raízes, não importa onde elas estejam? Se fosse um encontro certo, quase marcado (mas sem rotina) com a poesia popular? Se fosse um encontro em que o trago nosso de cada dia – “(...) que a gente vai levando de teimoso e de pirraça / E a gente vai tomando, que também sem a cachaça ninguém segura esse rojão” – fosse algo quase que religioso, ritualístico? Se fosse um encontro em que cada abraço, cada aperto de mão, cada beijão, cada “E aí, velho?”, “Olá, meu amor!” fosse dito do fundo do coração, que até chega a bater mais rápido? Que um chamar p’ra dançar seja um chamar p’ra dançar, que um cantar mais alto seja uma vontade louca de cantar mais alto?
Um lugar em que a sexta-feira nos fosse brindada com Raul Seixas, Zeca Baleiro, Ednardo, Amelinha, Caetano, Gil, Baianos e os Novos Caetanos... Que a gente pudesse cantar “eu quero é botar, meu bloco na rua!” com a mesma energia e alegria com que cantamos “eu tava triste, tristinho!”...
Um lugar que, também, fosse a síntese e a expressão de luta dos trabalhadores. Em que auto-organização e trabalho coletivo tem não apenas sentido e significado, mas concretude e emoção. E que, além disso tudo, fosse espaço de alfabetização de jovens a adultos, democratização da informática, serigrafia e artesanato, Biblioteca Comunitária e, tudo o que eu falei até agora, de Sextas Populares!
Eis o Círculo Operário do Cruzeiro, um tempo e espaço, um gentes e pessoas, um música e poesia que me acompanhou durante quatro, dos meus cinco anos em Brasília. Espaço que levei muitos amigos a conhecerem e, unanimemente, se encantaram com tudo o que acontece lá dentro. Um lugar do qual saímos, ao final de cada visita de suas Sextas Populares, e voltamos para nossas casas rejuvenescidos. Pense... Sairmos à noite, para dançar, cantar, beber (sim...), comer, namorar, abraçar pessoas, rir, chorarmos, conversarmos e, principalmente, voltar inteiros, com nossos corações repletos de energia e, ao mesmo tempo, de saudade, não vendo a hora de nos encontrarmos novamente.
Há muito tempo devo essa homenagem: celebrar um espaço de profunda humanização cultural em pleno Planalto Central. Existem outros, com certeza. Desde espaços abertos, até as casas de nossos amigos. Mas esse foi o tempo-espaço que me fez bem, que me fez voltar ao violão e encarar o desafio de experimentar o baixo. Que me fez feliz...

Vida Longa às Sextas-Populares!
Vida Longa ao Círculo Operário do Cruzeiro!
Vida Longa...!

Venham todos... venham todos...


P.S.: Para você que está em Brasília, o Círculo Operário do Cruzeiro funciona sempre nas segundas sextas-feiras de cada mês. E, neste próximo dia 12, estaremos lá novamente, curtindo Sérgio Pereira... Entrada/couvert artístico a R$ 3,00!!!! Nos vemos lá...

O Universal Circo Crítico... Elefantes, cães e pessoas...

“Quem olha pra mim / me vê feliz /
não sabe o que é duvidar /
viver de amor até o fim /
não quero mais chorar”

(“Viver de amor” – Toninho Horta e Ronaldo Bastos)


Revista Carta Capital, nº 510, página 50... A coluna estilo fala de Jenny, uma elefanta de 32 anos da família Proboscidea, agonizando em depressão desde que seu companheiro faleceu após uma parada cardíaca. Acrescenta-se o fato de ser uma elefanta retirada de seu habitat na África, embarcada em navio (quase) negreiro (como eram transportados escravos do mesmo continente às Américas) e que viveu anos de abusos e maus tratos em um circo americano.
Kaia, Hércules e Janis Joplin... três cães, todos mestiços, que convivem comigo há cerca de dois/três anos. Quem tem cães sabe o quanto são fiéis, o quanto confiam em você (dono). É verdade que existem cães que “dominam” seus donos, mas isso é próprio da relação estabelecida e, principalmente, compreendida entre ambos.
Stella Maris... pense numa mulher que faz um homem mostrar como preguiça e amor são coisas comuns e inseparáveis... Dorival não agüentou a distância de sua companheira de uma vida toda e também partiu. Dias depois, veio buscá-la, pois onde estava (mesmo com Tom, Elis, Vinicius e uma tuia de gente boa), sentia falta de alguém especial ao seu lado, mesmo que para aproveitar melhor os seus re-encontros celestiais.
Essas três histórias (uma de meu próprio cotidiano, pois são meus cães) vieram recentemente bater meu coração e minha’lma, quase que ao mesmo tempo. Uma bela mensagem de uma pessoa querida, uma matéria de uma revista semanal, lida ao lado de Kaia, Hárcules e Janis, que me faziam companhia. E, deste momento até hoje, fiquei pensando sobre o que é que existe de comum entre estas histórias.
Três histórias diferentes, bem diferentes, uma da outra, pois envolvem elefantes, cães e poetas/músicos. Mas todas elas marcam algo que, parece, vai se perdendo cada vez mais em nossos tempos pós-modernos: história. História? Sim, história... Não há amor sem história, não há cumplicidade sem história... Nem solidariedade, nem esperança, nem companheirismo, nem verdade, nem humildade, quanto mais luta, verdade (essa é revolucionária)...
É interessante pensar sob este prisma, considerando que esta, a história, já teve em tempos recentes, o seu fim decretado, o fim da história (de jeito nenhum), o fim de homens e mulheres construírem e lutarem por idéias comuns de homem, mundo e sociedade... e animais. É verdade que os animais não olham para a história, não vêem o amanhã e, penso, não sabem que irão morrer.
Hum... talvez!
Jenny está certamente em depressão, seu parceiro partiu, ela o viu caindo fulminante ao seu lado e, possivelmente, o viu sendo retirado, levado para longe, um longe que ela não sabe onde é. Ela talvez “aguarda” o seu retorno, assim como aquele cãozinho que, vendo seu parceiro caído no meio da rua, desfalecido, ficou do seu lado, impedindo que homens e automóveis o atingisse, até que ele, seu parceiro, pudesse levantar e seguirem, juntos, suas aventuras a latas de lixo e “cinemas de padarias”. É... talvez, que não saibam que irão morrer, mas percebem que partiu seu parceiro, sua parceira e, da mesma maneira que homens e mulheres que amam, não estão dispostos a deixá-los.
E é assim, acho, que vejo o amor. Sem deixar de pensar em elefantes, cães e poetas e poetizas, músicos e instrumentalistas, cantores e atores...

Vida Longa ao amor...!
Vida Longa...!

Venham todos! Venham todas!

Marcelo “Russo” Ferreira

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O Universal Circo Crítico... Inspiração...

Às vezes fico pensando como é possível inspirar-se para estudar, compor, ler, poetizar, pensar em projetos de vida, de mundo, de sociedade, aos domingos...

E não estou pensando sob o ponto de vista de o domingo ter uma relação direta com a preguiça, o descanso, a família e demais conflitos de “sem compromisso” X “é compromisso” da vida privada moderna. Não, falo (de novo) sob o ponto de vista daquilo que os domingos nos oferecem.

Por um lado, é “Vídeo cassetada” espalhado a torto e a direito e vídeos sobre bichos (ai que saudade do “Mundo Animal”, que passava na televisão lá longe, na minha infância) comentados com o absoluto olhar civilizado. Quadros até interessantes, mas sempre apresentados com o mais grotesco ar de humor, típico da TV brasileira, principalmente a de platéia... Prêmios, viagens de “volta às origens”, a história daquela campanha de “paguem meus impostos” da Globo, como era o nome mesmo??? Hum... sim... Criança Esperança! Fausto Silva, Silvio Santos (quantos anos esse cara tem????), Gugu Liberato, Tom... E o mais interessante é que é um mundo de gente que fala “são todos chatos”, que não agüentam mais ouvir suas vozes e coisa e tal. E, para nós, pobres mortais do NO e NE (acho que os gaúchos irão concordar comigo também), é aquele sotaque que parece que tem que ser nacionalizado e, quando não, tratado sempre pejorativamente.

Ah! E tem o futebol... Globo, Record e Bandeirantes. Pelo menos este final de semana não tivemos que agüentar Luciano do Vale e Galvão Bueno (ufa!) que, dizem as más (?) línguas, dão um azar danado quando narram jogo importante. Mas, há anos o espírito da transmissão de jogos nas telinhas brasileiras é transmitir jogos das “grandes torcidas”. Ta, os jogos do Corinthians, na Série B, não estão sendo transmitidos. Mas os programas jornalísticos-esportivos só falam de seu breve retorno à série A... desde a primeira partida do Brasileiro da Série B.

E os programas/matérias que adoram mostrar a vida (dor) alheia? Microfones agindo quase que como armas, invasoras das particularidades humanas, mas aceitos quase que solicitando “me mostra, mostrem minhas lágrimas e meu sofrimento”, porque aprenderam que isso é bom... Quem dá mais? Quem dá mais?

Por que não é mais comum darmos aos domingos a atenção de viver plenitunamente aquela sensação de “Direito à Preguiça” de Paul Lafargue? Por que parece cada vez mais difícil vislumbrarmos a possibilidade de os nossos domingos (não apenas, claro) serem verdadeiramente momentos de livre criação e, sim, crítica e criativa?

Digam-se: quando foi a última vez que fostes a um sarau de poesia, música e infinitas viagens literárias? Faça um na sua casa...

Digam-se: quando foi a última vez que fostes conhecer um lugar novo, diferente... um museu, uma paisagem, um parque, uma praça?

Digam-se: quando foi a última vez que colocastes aquela música para ESCUTAR! Eu disse, para ESCUTAR, não para preencher um vazio sonoro ou, pior ainda, para vencer a música do vizinho?

Digam-se: quando foi a última vez que arrumaste suas fotos? Ou as cartas que guardamos (já que guardamos)?

Digam-se: quando foi a última vez que pegaste o telefone e telefonaste para alguém para “E aí? Tudo bem?... Pois é, liguei para saber da vida...”. Dizem que, aos domingos, a ligação é metade do preço.

Digam-se: quando foi a última vez que pegastes um livro para ler, ler, ler... Se tens cachorros (como eu), sentas-te ao lado deles e ler... ler... ler...

Digam-se: quando foi a última vez que pegaste seu violão, seu cavaquinho, seu pandeiro, seus metais, seu berimbau, seu agogô, seu teclado (ou sentaste em frente ao seu piano), seu acordeom para simplesmente apreciá-lo, colocá-lo à viagens novas, criativas, diferentes...

Digam-se: quando foi a última vez que pegastes um papel em branco, uma tela, um pano velho e passasse a colori-los, a rabiscá-los, e “desdenhá-los” sem pressa de acabar, sem idéia do que virá?

Digam-se... quando foi a última vez que olhaste para o mundo e pensaste: “Precisa ser diferente! Precisa ser ludicamente diferente!”...?



Venham todos... venham todos...

Vida Longa!


Marcelo “Russo” Ferreira


P.S.: Ontem foi domingo... deu uma preguiiiiiiça!

domingo, 17 de agosto de 2008

O Universal Circo Crítico... carta a um(a) amigo(a)...

“Meu caro amigo me perdoe por favor,

se não lhe faço uma visita.

Mas como agora apareceu um portador,

mando notícias nesta fita”


(“Meu Caro Amigo” – Chico Buarque e Francis Hime)
Belém, 17 de agosto de 2008.
Olá, meu/minha velho/a amigo/a. Quanto tempo!
Pois é... mesmo eu tendo lhe escrito em janeiro (http://www.arcamundo.blogspot.com/), e tu tendo me respondido, demoro novamente a lhe responder. Mas isso vai se ajustando com o tempo.
Como sempre, espero que esta o/a encontre bem, assim como os seus... Suas últimas notícias e fotos (não só as suas) mostram que o tempo não lhe fez mal, muito pelo contrário. Lhe trouxe beleza e um ar de maturidade e sabedoria fantástico.
Bom, como podes perceber no cabeçalho, vim para o Norte, vim para o Pará... até escrevi sobre essas bandas e o que eu vou ter que aprender por aqui, no Universal Circo Crítico que, sei bem, já visitaste. Aqui, como açaí dia sim, o outro também. Já experimente a tremedeira dos lábios e da língua uma tuia de vezes comendo jambú... Como tenho lá minhas raízes paulistanas, experimentei-o também na pizza. Já conheci o Ver-o-peso e o Ver-o-Rio, o Mangar das Garças, Icoaraci e, claro, as casas dos muitos amigos que temos por aqui.
Em Belém, onde moro a cerca de dois meses, coisas interessantes para reaprender: dirigir aqui me fez resgatar todas as manias de “direção defensiva”, e duplamente. Em Brasília, eu reclamava da falta de gente nas ruas, aqui, passo a ter cuidado com elas o tempo todo, gente a pé ou de bicicleta. Interessante isso, pois mostra como realmente o mundo estabelece realmente, em todas as formas de relação (o trânsito, por exemplo) uma relação de poder. Em alguns lugares, é mais pedestre e bicicleta do que carro e a impressão é que, de um lado, os primeiros são um bando de kamikazes e o segundo com um medo danado de fazer uma besteira. É verdade que, vez em quando, é o contrário. Mas, veja se não é realmente interessante: em Brasília, que tem uma cultura interessante de grupos de camelos (como chamam bicicleta lá) e acidentes/atropelamentos a toda hora. Isso com toda uma cultura, o movimento “Rodas pela Paz” e coisa e tal e, aqui em Belém, é uma cultura de ter a bicicleta como meio de transporte, diferente de Brasília. Ainda pretendo observar melhor isso.
Tem também a volta a convivência com vizinhos, coisa que literalmente não existia em Brasília, haja vista os muros altos e a mania de aquele povo (principalmente no Plano Piloto) de se esconder em seu mundo-residência. E, incrível, já convivo com aquelas coisas de “vizinho-boa praça” e “vizinho enjoado”... Mas, no geral, eles só reclamaram de Kaia, Hércules e Janis (lembra deles, meus cachorros?) porque latiam... Sei lá, de repente queriam que eles miassem... Mas, por outro lado, as faces dos valores capitalistas se mostram também na relação com vizinhos. Sabe aquela sensação de estranhamento, do tipo: de onde vem a postura “não fui com a sua cara?”. Será que é porque ainda tenho cabelos compridos? Ou porque tenho cachorros grandes (caramba! O Hércules é boa praça p’ra caramba!). Mas é realmente estranha essa sensação de ter vizinho com muros baixos separando nossas casas e não conseguir trocar um “Bom dia”, “Boa tarde”, “Boa noite”... é claro que não são todos...
As aulas na UFPA iniciam-se essa semana e estou contando os dias... Fiz umas propostas de mudança na disciplina de Prática de Ensino, que é a disciplina à qual fui aprovado em concurso e irei ministrar já a partir deste semestre (nem falei direito sobre isso... Pois é, agora sou professor na UFPA). Já conheci Castanhal, o Campus onde ministrarei as minhas aulas de Prática de Ensino e, claro, Políticas Públicas em Educação Física, Esporte e Lazer... acho que foi um pouco da herança dos cinco anos em Brasília e os quase três em Recife. Mais uma pequena mudança em meus ares de educador, já que sempre trabalhei ou com crianças ou com jovens agentes sociais (nem sempre estudantes ou professores) e com outra forma de sistematização. Quem sabe a gente não troque umas cartas falando sobre nossas experiências profissionais.
Ah! Tem uma coisa super-interessante no Pará. A dois dias, dia 15 é feriado no Estado. E por que é interessante? Porque trata-se do “Dia da Adesão do Pará à Independência” que, prometo, vou estudar um pouco mais para te falar em breve sobre essa história. O que eu sei é que há quem diga que a data correta é dia 11, quando os ingleses deram a posse do Pará à membros da corte imperial... ou algo assim.
No mais, continuo caminhando e cantando hehehe... O violão vem resgatando coisas importantes na minha memória de compositor (que ainda não re-apareceu), bem como algumas brincadeiras musicais interessantes. Mais novos amigos, outros que deram as caras novamente (coisas de orkut), e outros/as tantos/as que, ele de novo, mostram sua essência a partir de relações de poder, como sempre, o velho poder... queres conhecer o homem...”. Mas como é rico esse negócio de amizade, né? Aliás, sem ela, nem estaria te escrevendo.
Também continuo me deparando com os lutadores e lutadoras do povo, bem como com os ódios profundos que tantos mundo afora têm por eles... Ah! E até com “vizinhos” a gente aprende que a luta é realmente profunda e permanente. Também continuo percebendo as meias palavras, palavras oportunas, alpinistas de todo o tipo, públicos ou não. Das minhas incoerências, conforme comentei em minha última carta, já as venho identificando-as como contradições, e isso realmente é muito bom.
Bom, meu/minha bom/boa e velho/velha amigo/a... O mais importante é que volto a escrever-lhe e quero te dizer que fiquei realmente feliz com sua resposta, torcendo que tu perdoe este velho amigo pela demora, mais uma vez... Está sendo um ano de muitas mudanças, ainda bem que a grande maioria delas tem sido “grandes mudanças”. Lembro que recordaste, em sua resposta, o quanto que trocávamos correspondência outrora e o quanto que curtíamos isso... Como disse naquela oportunidade, escrever para as pessoas, para os amigos... isso é muito bom. Pois são nossas notícias que também continuam falando da gente, não é mesmo?
Por fim, lembre-se, caro/a amigo/a: continuo no mesmo lado da trincheira, continuo tentando arregimentar novos e velhos lutadores, continuo com minha boa sina de trabalhar com formação... E, mais ainda, continuo aprendendo... sempre.
Vida Longa, caro amigo...
Vida Longa, cara amiga...
Marcelo “Russo” Ferreira
Obs.: Essa é uma carta... só uma carta. Guarde-a no melhor lugar que merecer.

Venham todos! Venham todas!

domingo, 10 de agosto de 2008

O Universal Circo Crítico... As Olimpíadas já terminaram...

E deixa eu logo deixar claro que não se trata, neste caso, de um discurso de crítica aos valores e movimentos olímpicos... Mas claro, alguns comentários aqui virão...
Bom... de quatro em quatro anos sempre nos deparamos com este fenômeno esportivo mundial chamado... chamado... Olimpíadas?

Vamos deixar claro o seguinte ensinamento histórico: as olimpíadas acabaram. E acabaram exatamente no momento em que o ex-ginásta Li Ning (ouro em Los Angeles – 1984), depois de, erguido no ar, percorreu “correndo” o anel superior do Estádio “Ninho do Pássaro”, acendeu a Pira Olímpica dos Jogos... Neste exato momento, nem um segundo a menos, nem um segundo a mais, acabaram as Olimpíadas de Pequim.

A reflexão necessária que temos neste momento em que assistimos os Jogos de Pequim, e sempre nestes períodos, de quatro em quatro anos, somos bombardeados por informações de todo o tipo sobre a questão das Olimpíadas. Na de Pequin, o grande mote foi em torno do regime daquele país, a poluição, o partido único, a vigilância etc. O principal mote, todos sabem, a questão do Tibet, ainda que muitos, mundo afora, não saibam concretamente o que está em torno desta relação – China X Tibet. Mas tudo bem, não tem problema, apenas o da China. Daqui a quatro anos, teremos Londres 2012 e, duvido muito, quero ver as manifestações mundo afora sobre a participação da Terra de God Save de Queen na ocupação do Iraque (E que pena que, nos Jogos de Atlanda, ninguém teve a idéia de chegar no aeroporto usando máscaras em protesto ao Tio sam, poluidor confesso). Tudo bem, a relação China X Tibet é mais antiga... Mas, então, por que ocupações mais “contemporâneas” são permitidas, principalmente quando se trata de uma ocupação, de um lado, Imperialista (um país mais forte e poderoso invadindo um país mais fraco) e, de outro, comercial (que o diga a Texaco)?

Outro ensinamento que este período está nos deixando é a multiplicidade de linguagens comerciais em torno das... Olimpíadas: os patrocinadores oficiais: Sansung, Bradesco, Nestlé, Olimpikus (pelo menos fabricam tênis) e Casas Bahia (que, aqui no Pará, só tem propaganda, não tem Loja). O importante é que tem patrocínio, apoio, oferecimento de marcas importantes... Eletrodomésticos, Banco Privado, fabricante de leite e chocolate (que sempre ganha importantes decisões da OMC para aumentar o lucro e diminuir a oferta de emprego, além de, em que pese os seus produtos que oferecem um crescimento mais saudável de nossos pequenos filhos, continuar a explorar o trabalho semi-escravo extrativista das colheitas de cacau do hemisfério sul), tudo a ver com as... Olimpíadas.

A abertura, em si, foi também um profundo ensinamento de “privatização do conhecimento” e de vaidade... e ao mesmo tempo. A disputa pela sabedoria do que era apresentado na abertura dos jogos de Pequim foi de uma “capacidade” sem precedentes. Principalmente em relação aos diálogos protagonizados por Marcos Uchôa e Galvão Bueno. Mas isso, creio, ficou escancarado para nós, elementares tele-espectadores. Interessante eram os comentários no estilo “pimenta nos olhos dos outros”.

Por exemplo: o que mais a mídia esportiva protagoniza neste país são os “heróis”, as personalidades que todos nós admiramos e torcemos para que sejam vencedores, por que são o Brasil lá fora... e, de repente, a crítica a cultuação da liderança daquele país, o presidente Hu Jintao, ao personalismo do comunismo. Inacreditável!

Mas, o principal deste artigo e, cá entre nós, trata-se de um vício do jornalismo esportivo brasileiro em geral e, também, da cada vez maior e mais angustiante incapacidade de duvidarmos da nossa imprensa é a falta de conhecimento daquela. E nada como um evento esportivo, da magnitude dos Jogos de Pequim, para desmascararmos, com simplicidade, a mídia brasileira. Vamos ao fato: O que está acontecendo neste momento, na capital chinesa, são os Jogos Olímpicos. As Olimpíadas já terminaram, como disse, no momento em que foi acesa a Pira Olímpica no Ninho do Pássaro. As Olimpíadas nada mais são do que uma representação do “levar a tocha olímpica de uma sede dos Jogos a outra”. Ou seja, quando os Jogos Olímpicos de Pequim terminarem e a Pira Olímpica for apagada, teremos caracterizado o início das Olimpíadas de Londres, que terminarão quando os Jogos daquele país começarem, quando a Pira Olímpica de Londres for acesa... e assim segue. Conhecimento simples da história do esporte e da humanidade.

Ah! Finalmente conseguiram superar a abertura dos Jogos de Moscou. Mas todo mundo ainda sabe o nome da mascote de 1980 (o ursinho Misha)... de lá, até hoje, nenhum mascote emocionou mais o mundo do que as lágrimas derramadas ao final dos Jogos Olímpicos de Moscou... Não nas Olimpíadas de Moscou.

Em tempo, que me mande um e-mail ou deixe um depoimento no Universal Circo Crítico que não se emocionou uma única vez, na abertura dos Jogos de Pequim. Eu já me emocionei logo nos 2.500 tambores que saudaram os Jogos e os presentes.


Vida Longa ao esporte livre, universal e crítico!


Venham todos! Venham todas!


Marcelo “Russo” Ferreira


Obs.: Galvão Bueno acertou, finalmente, quando disse, finalmente, que as argolas da bandeira olímpica nada tem a ver com os cinco continentes... Mas errou na hora de organizar o seu sentido e significado (momento típico das quase quatro horas de vaidades entre ele e Marcos Uchoa). A Bandeira Olímpica reúne todas as bandeiras de todos os países do mundo (por isso é uma bandeira) e, neste caso, todos as bandeiras de todos os países do mundo possuem, pelo menos, uma das cores da bandeira olímpica. Também simples, também histórico...

domingo, 27 de julho de 2008

O Universal Circo Crítico... The memorian Song...

Não tenho muito o que comentar desta canção, que, como se evidencia, é longa. Acho que todo fã de rock progressivo que toca algum instrumento sempre quis ou quer compor uma daquelas canções enormes. Bom, na época do Afã, as músicas da banda eram razoavelmente grandes, ao ponto de sempre arriscarmos nossas composições e participações em festivais, porque sempre extrapolávamos o tempo permitido.
Pois bem... Quando compus a seqüência de “O menino e o Palhaço” (com a inspiração para compor “O Palhaço e as Estrelas”), pensei: “Vai ter que ter um ‘fechamento’”. No mesmo ano que compus a última, acho que fiz uma das duas melhores incursões musicais da minha vida. Na verdade, lembro de uma terceira, da minha adolescência, composta para uma menina à qual me apaixonei, mas não namorei e que, infelizmente, perdi a letra. Mas isso é outra história... A outra “grande” incursão é um instrumental em lá menor.
“The memorian song” foi assim chamada porque não sou perfeito, não consegui encontrar nome mais completo para uma canção que, pronta e tocada, toma cerca de 12 minutos. Pensei, na época, em “Canção de Memória”, mas não o suficiente para batizá-la com este nome. Trata-se de uma canção de altos e baixos, batidas fortes e mais lentas e um final tocado em apenas duas cordas. Musicalmente, ela inspirou alguns trejeitos musicais de “Olhos Negros”, apresentado a vocês ainda no www.arcamundo.blogspot.com
Apresento, “The memorian song” (perdão pela longa letra).

“Nossos anos passaram, muitos anos./ Se fôssemos famosos, o que seria da nossa maquiagem? / Se os sonhos que insistíamos em fingir serem possíveis se transformassem? / A canção e sua poesia no ar...

Mais uma semana quando as horas não passaram. / A nossa viagem foi apenas de um segundo. Eterno, p’ra quem riu ou chorou... / Os Sinos e os poetas perderam seu conjunto, envolvidos em silêncio em suas notas e palavras absurdas./ Eu sei! / Você não entendeu!

Quem sorriu, sentiu! Viu o poeta e o palhaço, suas palavras, sua malícia construíam em um compasso um sentido verdadeiro para sua lucidez não entender. / Não entender... / Falo inalado e preso em mais de mil palavras. / Seus fonemas, suas notas, sua orgia Universal quando urgiam e gritavam sua loucura habitual. / Tão ilúcidos... /... você não entendeu?

Quando olha em volta e não percebe sua sombra, olhas para cima, sua luz lhe ofusca os olhos. / Seus olhos... / O Sol não brilha p’ra você. / Esse é o seu brinquedo, o seu jogo não tem graça. / Esta é minha arte, não viajo só com ela. / Você pode vir também.

P’ra você que viu minha agonia, já sorri e chorei. / P’ra você que viu minhas lágrimas, já cantei e viajei. / P’ra você que não viu minha alegria, já brinquei de fantasma. / No quarto, na cama, na noite que voei. / No som mágico de fundo. / Música... / Música...

Se você me viu na TV, foi porquê não me via fora dela... / Se você me viu fora de casa, foi porquê não brincava lá fora comigo. / Se você me via falando sozinho, inventando personagens nunca vistos: / o palhaço, o poeta, as estrelas, o menino e a menina...

Pare! E ouse me ouvir. / Ouça! E ouse calar-se! / Cale! E ouse cantar! / Cante! E ouse gritar! / Grite! P’ra todos ouvirem...

O menino e a menina brincavam nas estrelas. / E o bêbado sentado na esquina. / Roda o mundo para ele e para o louco que não temia em gritar. / Ele sorria... / Olhem para o Sol, vamos saltar os seus limites. / Pois minha loucura verdadeira é a que esvai-se dos meus olhos. / Quando sinto o seu cheiro a liberdade passa entre os meus dedos. / Entre meus dedos...

Quem que não viu o palhaço no beco? / Era escuro. / Muito escuro. / Quem apagou as luzes do show? / Não brilha com seus olhos... / Luzes! / Luzes!

Que continue o show...”


Venham todos! Venham todas!
Vida Longa!

Obs.: como todas as outras canções, a letra está registrada em cartório de ofícios.

domingo, 20 de julho de 2008

O Universal Circo Crítico... dia do(a) Amigo(a)...

Tenho muitos/as amigos/as pelo mundo... amigos/as do Universal Circo Crítico...
Tenho amigos/as que são artistas incansáveis, que cantam, que dançam, que escrevem como grandes poetas e poetizas, outros/as tantos que também são desenhistas, tocadores e cantadores, dançarinos ou apenas brincantes, instrumentistas, maestros... Com eles e com elas aprendi e aprendo todos os dias tudo sobre a arte, a música, o teatro – do oprimido e o fantástico Movimento de Cultura Popular – e todas as formas de apresentar e representar o mundo real, muitas vezes assumindo o papel de próprio mundo. Alguns destes amigos/as viajaram musicalmente comigo, escrevendo e compondo, com muitas ou poucas mãos. Outros tantos me inspiraram.
Tenho amigos/as que são carinhosos/as... Sempre estão colocando o ombro na altura exata de nosso pender da cabeça. Que estão com a mão na hora certa sobre a nossa mão. Que nos escutam e falam, quer seja o que gostaríamos de escutar, quer seja o que sabíamos, mas não gostaríamos. Amigos que sempre lembram da gente para um convite de uma boa comida e uma cerveja gelada ou um copo de cachaça.
Tenho amigas que estiveram bem perto de mim, com suas e minhas pequenas confidências, com seus carinhos que procurava retribuir na medida certa, que trocaram odores e suores comigo.
Tenho amigos/as que me ensinaram a andar, a falar, a comer, a tomar banho, a brincar, a ter amigos, a comer biscoito sempre com leite, a ter responsabilidade, que sempre sabiam o que se passava comigo, independente de eu falar alguma coisa... Amigos/as diferentes, é verdade. Mas, também amigos/as.
Tenho amigos/as que sempre trabalharam comigo. Quer dizer, não “sempre”, mas quando trabalhavam comigo, era “sempre”. Todos os dias, o dia todo... Com esses amigos, também vivenciei, vivencio e, com absoluta certeza, vivenciarei uma infinidade de experiências, não apenas relativas ao trabalho. Além de muitos “muito trabalho”, vivi alegrias pelas formaturas, pelos nascimentos, pelos aniversários, pelas celebrações de festas, mas também algumas tristezas, pelas perdas e partidas, pelas despedidas (principalmente aquelas contra a vontade própria). E o que sempre é melhor desses amigos/as de circunstâncias (o local de trabalho, para muitos, acaba sendo a circunstância) é que sempre nos encontramos por aí. Falar desses amigos precisaria de muitas tantas dessas linhas.
Tenho amigos/as bichos... Sempre os tive, desde que me lembro de ser gente: Xandoka, Dolly, a pequea Xâninha (nome estranho, dúbio, mas ideal para a nossa infância) e, mais recentemente, Janis, Hércules e Kaia. Quem tem amigo bicho sabe o que é ter amigo bicho e quem os conhece pode ousar dizer o quão eles realmente são amigos.
Mas também tenho amigos/as que não sei o nome, ainda que eu possa ousar dizê-los: José’s, Maria’s, Tião’s, Severino’s e Severinas”, Antônio’s e Antônia’s e uma infinidade de nomes, em incontáveis línguas. Estão espalhados pelo mundo.
São amigos/as que nunca comeram na minha casa e nunca me convidaram para um lanche em suas casas, porque nunca nos vimos. São amigos/as que nunca beberam comigo, porque nunca nos vimos. São amigos/as que nunca trabalharam comigo, porque nunca nos vimos. Nunca fomos ao cinema, ao bar, ao teatro, ao show, nunca viajamos juntos, nunca tocamos violão, escutamos música, compomos, nunca criamos animais domésticos juntos, nunca demos apoio um ao outro em momentos difíceis.
São amigos/as que, sequer, sabem que dia é hoje, que existiu um argentino chamado Enrique Ernesto Febbraro que, inspirado na chegada do homem à lua e a possibilidade de fazer amigos em outras partes do Universo, teve esta idéia genial: O dia do Amigo. São amigos que, possivelmente, ainda não viram sentido em lutar, porque o fazem apenas para fugir de seus opressores.
Por causa também desses amigos/as, tenho todos aqueles que falei aqui.

Venham todos... venham todos...
Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

Obs.: Este é um texto que fala de todos os meus amigos/as e, portanto, não caberia lembrar de possíveis “direitos autorais”... Não tenho autoria exclusiva sobre meus amigos/as.