Aqui é o local onde o picadeiro tem realidade e fantasia, em que os artistas são personagens e pessoas reais, onde a música perpassa nossa história e nosso povo, onde sempre nos encontramos...
Vida Longa!
As mulheres do Universal Circo Crítico são Mulheres...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são sensíveis, subjetivas, misteriosas até...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são guerreiras, guerrilheiras, lutadoras do povo, aprendizes e ensinantes...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são artistas, cantoras, dançarinas de várias e inúmeras artes, músicas e danças...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são professoras, educadoras do mundo, da vida, da graça e da humanidade...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são mães, irmãs, tias, avós, esposas, companheiras a toda prova de nossos artistas e público, de nossos homens e de nossas mulheres também...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são todas e somente elas...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são todas as mulheres... todos os homens... toda a humanidade...
As Mulheres do Universal Circo Crítico lutam contra o poder e os poderosos, contra o esquecimento e o fim da história, contra a intolerância e os tiranos, contra a violência e a força bruta, contra toda a forma de exploração, em qualquer tempo, em qualquer lugar do mundo, contra qualquer pessoa...
As Mulheres do Universal Circo Crítico enchem de orgulho, todos os dias, nosso picadeiro, nossa humilde lona...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são todas aquelas as quais homenageamos, por sua história, por sua luta, por tombarem e permanecerem firmes e vivas em nossas idéias e princípios, em nossas bandeiras e lutas, em nosso sonho de sociedade, justa, igualitária e socialista...
As Mulheres do Universal Circo Crítico são minha mãe, minha irmã, minhas tias, minhas primas, minha amada esposa e companheira, minha querida segunda mãe, minhas comadres “velhas de guerra”, minhas amigas de perto e de longe...
As Mulheres do Universal Circo Crítico serão sempre razão de nossa existência...
Mas, o principal desta pequena, humilde e merecida homenagem é para dizermos, nossos artistas e nosso estimado público, que as Mulheres do Universal Circo Crítico são TODOS OS DIAS...
Vida Longa às Mulheres do Universal Circo Crítico!
“Ao meu lado há um amigo/ que preciso proteger/ Todos juntos somos fortes/
Não há nada pra temer”
(Chico Buarque – Saltimbancos)
Falo, neste momento, aos Estudantes que andam por aí, nos bancos universitários, que acabam de entrar ou que já estão ensaiando a festa de formatura.
Mas acho que falo também aos que já saíram deste espaço tão complexo, dinâmico, contraditório... ao mesmo tempo inovador, quase revolucionário, mas conservador e elitista, que é a Universidade.
E (por que não?) falo também aos que, assim como eu, lá estão, ano após ano, a formar jovens, adultos, até idosos, em diversas, quase que incontáveis, áreas de conhecimento. Professores que ensinam com o pé no chão e professores que se afundam no mais profundo orgasmo catedrático.
A Universidade, há tempos, vem me empurrando para reflexões de toda ordem. Por um lado, há uma lógica nisso, afinal, desde 2008 estou em uma Universidade Pública... No norte do País... aliás, no nordeste do Norte do País.
“É pouco tempo” diriam alguns que vociferam-se em seus muitos anos, talvez décadas, de Ensino Superior – em que pese alguns somarem os seus anos de estudante para “inchar” os dados de “sou da Universidade há...”. Quase contam nos dedos quantas pessoas formaram, quantas pesquisas desenvolveram, quantos livros, capítulos, artigos, textos, papers já produziram. E não é incomum na nossa Universidade, a pública, a brasileira, docentes em todo o país colocarem seus orientandos a escreverem e, por ser “orientador/a”, colocarem seus nomes.
Mas, ainda que pouco, somam-se aos meus “poucos anos” outros tantos anos vividos em diferentes lugares. Não me tornei professor de Ensino Superior (este termo soa estranho algumas vezes) apenas quando adentrei no quadro de docentes de uma Universidade Pública. Tornei-me em um tempo que, talvez, nem saberia dizer. E continuo “me tornando” professor. Todos os dias, o dia todo.
Mas foram tempos que me dão a certeza de qual professor me sinto, de qual professor me transformo... claro, não sou um professor pronto e acabado. Assim como sempre serei um aprendiz de lutador do povo, serei sempre aprendiz de minha própria docência.
E, por tudo isso, falo aos Estudantes que andam por aí... Ouso falar também a seus pais, seus irmãos e/ou irmãs, seus/suas companheiras, seus entes e amigos/as. Afinal, em um país como o nosso (democrático...), que ainda não consegue garantir o acesso amplo e irrestrito ao Ensino Superior – nem à educação básica de qualidade – que faz com que aqueles que estão nos bancos universitários sejam, no final das contas, parte da pequena parcela que ainda acessa a Universidade, não se trata apenas da superação individual, mas daqueles que estão juntos, apoiando e ao mesmo tempo torcendo e ansiosos por verem seus filhos, irmãos/ãs, companheiros/as e amigos alcançando um espaço na Universidade.
De tantas coisas que acho que a Universidade precisa garantir e que vocês, estudantes, precisam não apenas “cobrar”, mas acreditar na capacidade desta mesma Universidade atender, é a humanização. A Universidade precisa “formar gente”. E formar gente, obviamente, é o contrário de “formar coisas”.
E formar gente parece-me, a cada dia que passa, uma tarefa não apenas hercúlea, mas uma tarefa a qual muitos docentes em nossas Universidades há muito tempo abriram mão.
Premiar os primeiros colocados de vestibular não é formar gente.
Dizer aos nossos alunos “sejam O profissional, não mais um” não é formar gente.
“Corram atrás do conhecimento” (cada um por si) não é formar gente.
Ocupar um espaço no Mercado de Trabalho não é formar gente.
O que não apenas vocês, Estudantes, precisam é formarem-se continuamente, como o fazem desde que “viraram gente”. É, aquela coisa de “desde que me entendo como gente”, frase comum para dizer sobre o tempo em que começamos a compreender o quão grande é o mundo e o quão pequenos somos nele. Viramos gente e, quando nos aproximamos da vida universitária (e a conquistamos) vamos deixando de ser, porque precisamos ser mais espertos, mais rápidos, mais competentes.
E a Universidade precisa aprender, de uma vez por todas, a formar gente! E formar gente é, inquestionavelmente, formar mais um, mais um, mais um... numa grande composição que diga, a cada muitos “mais um” que formar, “somos fortes!”.
Parafraseando Victor Jara, devemos ser mais um, sempre mais um para que, todos os “um” unidos, possamos construir e formar uma Universidade nova... um país novo... um continente novo... um mundo com novos homens e mulheres.
Pensem nisso, caros estudantes...
Campesinos, soldados, mineros,/
la mujer de la patria también,/
estudiantes, empleados y obreros,/
cumpliremos con nuestro deber.
Sembraremos las tierras de gloria,/
socialista será el porvenir,/
todos juntos haremos la historia,/
a cumplir, a cumplir, a cumplir.
(Trecho da música “Venceremos”, hino da Unidade Popular, última canção entoada por Victor Jara, no limite de suas forças, após dias de tortura no Estádio do Chile em 1973.)
Nossa mais nova pequena Lutadora do Povo e, mais uma vez, assim a “batizamos”, como outros/as tantos/as Pequeno/as Lutadores/as do Povo que aqui, honradissimamente, recebemos.
Filha de novos amigos desta nossa humilde lona de Circo (que nos ensina diuturnamente o significado de indignação e esperança), nossos queridos Alex e Fernanda, chegas com um nome que marca, um nome escolhido como certeza de que lado estarás em sua Vida Longa vida: Alexsandra, defensora da humanidade, traz em seu nome a personalidade de uma liderança, entusiasta e decidida e, por isso, lhe dizemos: Seja Bem Vinda!
Chegaste, na referência da mitologia romana, no dia dos “Deuses dos Lares”. Bom, é preciso dizer que este brincante escriba não é muito afeto as questões religiosas (e nosso Circo é laico, diga-se). Mas é um belo dia nascer com nossos Lares protegidos, não é verdade?
Sempre celebramos a chegada de Pequenos e Pequenas, filhos e filhas de pessoas mais do que queridas, importantes, significativas em nossas vidas. Celebramos a chegada de filhos e filhas de pessoas que nos ensinam a arte da amar... revolucionariamente. E como sempre, pesquisamos aqui e ali para saber o que (para nós) aconteceu de importante em datas assim. Para ti, Pequena Alexsandra, o que aconteceu de valoroso e significativo neste que é, a partir de sua chegada, também o seu dia, dia 26 de janeiro, dia de Alexsandra.
Bom... nossas “conversas ao pé de ouvido” são sempre assim. Repletas de fatos históricos importantes e a coragem de estabelecer um ponto de vista sobre elas para, assim, tirarmos nossas lições. Lições que servem para tal: aprendermos com o que elas nos ensinam. Nada de exemplos, apenas lições. E, neste caso, as lições do dia 26 de janeiro.
Vivemos um mundo, Pequena Alexsandra, em que há algumas décadas sentenciaram: “Acabaram-se as fronteiras! Agora, vivemos num mundo globalizado!”. Mas, nunca disseram que, na verdade, ao “extinguirem” as fronteiras em nome da globalização, isso iria acontecer numa única direção: dos poderosos aos mais fracos; dos imperialistas à periferia; do hemisfério norte ao hemisfério sul. Difícil, né? Mas seria como dizer o seguinte: Vamos globalizar um ou outro estilo de música que seja de fácil pegada, com refrão simples e repetido, que dure o tempo que precisar durar para gerar lucro e depois a gente troca por outra música, mesmas notas, muda as palavras, mas os gestos são mantidos: “ai se eu te pego!”, que não é diferente de um recente (que virou caso de polícia) “Reboletion!” e “créu!” que não eram diferentes de um mais distante “Segura o Tchan!”.
E por que esta reflexão, pequena Alexsandra?
Bom, é que foi em um 26 de janeiro (há quem diga que foi dia 25, outros dia 16... ficamos aqui a esperar alguém que conheça da data certa) que a vida levou para outras bandas um raro nome da música brasileira: Codó (como era conhecido o pescador-violinista / cantor e compositor Clodoaldo de Brito) partia em 1984. Ah!, pequena Alexsandra: em tempos em que cada vez mais a música vale menos – enquanto que o mercado cada vez mais cria refrões que tem o poder apenas de “produzir frases que peguem”, temos não apenas a expressão de um cantor e compositor, mas a expressão da própria capacidade humana de o criador criar, por completo, a sua expressão laborativa e cultural. Se não bastasse a bela obra que nos deixou, trata-se, Codó, de um violinista que, antes das obras, construiu seu instrumento, com madeira e cordas de piaçava. Um músico que constrói seu instrumento antes de construir sua obra... Daí, pequena Alexsandra, nossa bela, belíssima lição: a capacidade humana de produzir intensamente obra de valor está em nós... está em você. Os músicos do Universal Circo Crítico, se tiverem esta honra, adorariam acompanhar suas criações.
Mas a música nos presenteou nascimentos em um 26 de janeiro, Alexsandra. Como sabes (ou fica sabendo agora, né?) este brincante que te saúda também tem em sua veia musical o bom e velho rock’n’roll e foi em outro 26 de janeiro que nasceu um dos maiores guitarristas que já conhecemos (tem aqueles, claro, que são... incomparáveis. Que não precisa dizer “foram os maiores”, tá?): Eddie Van Halen, que também foi um destes que construiu o próprio instrumento. Mas o que dizer de Chico Cesar, músico, compositor e cantor de rara qualidade e ousadia, uma espécie de artista que resolveu dizer o que pensa, lutar pelo povo sofrido de sua e outras terras e, claro, colocado no esquecimento musical daqueles que não querem ouvir o que escutam. Culturas diferentes, posturas “políticas” também... Assim é a música. Escolha a melhor das opções, pois elas ainda existem.
Países se formaram e se perderam (portanto, fronteiras) ao longo da história, e também num 26 de janeiro. Um fato mais antigo foi a perda de territórios por parte da Turquia, lá pelas bandas de 1699. Historiadores mais experientes poderiam nos dar mais detalhes sobre perdas e conquistas, vidas humanas – entre povo e nobreza (esta, que sempre é preservada, ainda hoje, nas guerras que produz) – em países que se formam ou deixam de existir. Hungria, Transilvânia e Ucrânia se tonaram países neste dia, num Tratado denominado “Paz de Karlowitz”. O Peru, aqui mais perto da gente, também conquistou sua independência da Colômbia em um 26 de janeiro, isso já em 1827, assim com a Índia, em 1950 estabeleceu sua independência. E aqui, pequena Alexsandra, nossa segunda lição: a soberania de um povo também se faz pelo direito à história de seu povo e de seu país. Não devemos defender nosso país em nome de seus proprietários (num mundo globalizado, eles existem aos montes), mas, sim, defender um país pelo seu povo. Defenda seu povo, sempre, pequena Alexsandra. Sempre vale a pena.
Temos sempre uma grande alegria de saudar a vinda de nossos Pequenos e Pequenas Lutadores/as do Povo em dias que também outros lutadores e lutadoras do povo fizeram suas lutas neste dia. E vez em quando a história nos conta a necessidade da luta também por suas derrotas. Assim foi em 1939, quando o facismo espanhol de Franco avançou sobre Barcelona (dos socialistas e trabalhadores do campo e da cidade), pondo fim a um processo revolucionário que pouco se conta na história. E também em um 26 de janeiro (já em 1969, mas ou menos no dia em que, digamos, fui “gerado”) que o capitão Carlos Lamarca saia, com mais alguns soldados rebelados, do quartel de Quitaúna (São Paulo) com armamento para a resistência popular à ditadura militar brasileira. Carlos Lamarca, assim como milhares de bravos lutadores tombaram durante a Ditadura Brasileira (entre 1964 e 1985). Eis aqui mais uma importante lição, pequena Alexsandra: os heróis somos nós, aqueles que acreditam no seu povo, na liberdade e na justiça social. Que labutam dia e noite sem querer o que é do outro p’ra si, mas sempre querendo o melhor para todos. Assim lutaram trabalhadores do campo e da cidade na Espanha em 1939; assim era a resistência à Ditadura Militar brasileira... e continua.
Mas, temos que aqui trazer uma curiosa informação histórica neste seu dia, pequena Alexsandra. Em tempos de globalização, que também é da informação (a grande parte controlada, diga-se de passagem), há aqueles “lugares” que conseguem ser interessantes, pois permitem de um lado, colocar em dúvida se o fato e a história está no lugar certo, do jeito certo. Mas também permite que a história seja contada por outros que não conseguem contá-la. É estranho, mas é interessante. Bom, foi em um 26 de janeiro que a Revista Semanal Veja (só leia para saber as bobagens conservadoras e reacionárias que a imprensa brasileira produz, certo?) publicou que a Wikipedia (uma espécie de Enciclopédia virtual) é feita por quem quiser e, assim, todos os fatos históricos lá apontados se tornaram duvidosos. Fiquei pensando se isso era inteiramente verdade ou se, também, algumas verdades estavam se tornando públicas demais e incomodou alguém.
De qualquer maneira, Pequena Alexsandra, história é um pouco assim. Meio relação entre caçador e leão. Dizia um grande amigo desta Lona de Circo que “a história contada pelo caçador, leão sempre é culpado!”. Por isso que gostamos das lições que a história nos conta. Se o dia é certo ou não, bom, isso é outra... história.
Seja Bem Vinda, Pequena Alexsandra.
Nosso Circo, de novo, Celebra!
Venham Todos!
Venham Todas!
Vida Longa à Pequena Alexsandra!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira.
PS.: Não conhecia Codó. Sugiro o blog http://clodoaldobrito.blogspot.com, que tem um denso e belo material para aprofundarmos o nosso conhecer de nosso povo e nossa música.
“Travamos nossa luta por responsabilidade contra um ser mascarado. A máscara (...) é inexpressiva, impenetrável, sempre a mesma. (...) Ficamos, com frequencia, intimidados ou amargurados (...). Nós ainda não experimentamos nada”
(Walter Benjamin)
Pinheirinho...
Palavra que em período natalino (talvez por essas e outras que sempre questiono este bendito termo “tempo de...”, já expresso embaixo de nossa lona) irremediavelmente significa Natal, Festa, Compartilhar, Amor ao próximo e por aí vai.
Pinheirinho... palavra mais do que palavra para cerca de 2,5 mil famílias (aproximadamente 9 mil pessoas, entre crianças recém-nascidas e idosos de longa idade) moradoras desde 2004 em área de inquestionável improdutividade social e que representava as vantagens de quem é rico, rouba o estado, e continua rico (Empresa Selecta – publicamente falida – de Naji Nahas – aquele que cumpriu “prisão domiciliar” pelos crimes contra economia, do colarinho branco e formação de quadrilha... Domiciliar...).
Uma comunidade formada a anos, que se organiza justamente pela ausência do Estado (que em São Paulo é ausente mesmo, por opção herdada dos tempos de FHC, em que o Estado presente é o policial), pela ausência de políticas públicas que aliem habitação, educação, saúde, lazer, saneamento etc.
Pinheirinho, assim como BBB12, esteve nos noticiários ao bel prazer da imprensa tupiniquim, que edita aquilo que lhe serve e, quando “vasa” o que não servia, dão destaque ingênuo, superficial, com notinhas de 2 segundos em que a frase “o governo irá averiguar e punir aqueles que cometeram excessos”. Quanta conversa fiada...
O que aconteceu em Pinheirinho já aconteceu recentemente e, talvez, já nos tenha escapado da memória, essa que cada vez se perde mais: protesto de estudantes em Recife, reprimida violentamente; protesto de estudantes em Teresina/PI, reprimida violentamente; manifestação de estudantes em São Paulo (USP) reprimida violentamente; protesto de professores na Assembléia Legislativa Cearense, reprimida violentamente... E na história mais ou menos recente, o campo, seus trabalhadores campesinos – lutadores do povo – reprimidos constantemente pela ausência do Estado (os jagunços, os “agro-investidores” – que conhecíamos como latifundiários – os matadores de aluguel) e pela presença do Estado (a Polícia Militar do Estado e Guarda Municipal de São José dos Campos, em sua maioria). Crianças correndo de gás de pimenta? “Corram para dentro de casa” gritariam os seus pais. Mas, dentro de casa, a polícia entrava e as expulsavam de lá. De que adiantaria gritar “Tem criança aqui!”? Diria o Estado: “eles (os pais) são os covardes, pois colocam seus filhos na frente!”... Aff...!
Um Estado que inclusive usa a velha estratégia de “infiltrar” com o argumento de que era apenas para descobrir onde as armas eram guardadas é balela. É piada que não faz rir. As imagens que ficaram públicas nos remetem ao conflito Israel-Palestina, onde badoques/baladeiras, pedras e gestos enfrentam tanques e mísseis “inteligentes”. Enfrentar cassetetes de verdade, escudos de verdade, capacetes de verdade, balas de borracha de verdade, armas de fogo de verdade com capacetes de moto, tampas de tonel, caneleiras feitas de PVC e cabos de vassoura (Ah! Tinham pregos!!!! Nossa, que diferença...!) não se compara. Apenas nos leva a acreditar na capacidade do homem (o trabalhador, o pobre, o migrante) de lutar pelo mínimo de dignidade: sua casa, seus móveis de segunda mão e carnês de 20 prestações da Casas Bahia.
O resultado foi uma expressão do Haiti (só que sem terremoto e malária) em um bairro da região sul de São José dos Campos: famílias inteiras entregues à perda, por resistirem à ela. Nem carnê, nem segunda mão; nem roupas, nem brinquedos das crianças (que também não tem Anjo da Guarda... eles não existem para a miséria); largadas em ginásios, igrejas que – não há como negar – nunca foram pensadas para essas situações e, portanto, não tem estrutura e higiene para abrigar famílias inteiras... 1,5 famílias. Diferente (e muito, antagonicamente) do BBB12, estão também confinados.
Com todas as peculiaridades que sempre rodeiam esta tragédia do Estado defender o Privado (mesmo que falido) do seu povo, nada como uma “reintegração legal de posse de área ocupada” acontecer em um domingo... às seis da manhã. Não, isso não apareceu no Domingo Legal, no Domingão do Faustão, no Melhor do Brasil e esses lixos todos que passam nos lares brasileiros. E também os “heróis do BBB” (segundo o intelectual-jornalista-escritor Bial) não souberam de nada. Estão confinados.
Não há palavras suficientes para expressar a indignação, daqui das bandas no Norte, ao que acompanhamos (superando o tradicional silêncio da mídia tupiniquim) em Pinheirinho... não apenas na ocupação, mas fora dela também. A indignação ao que acontece em inúmera regiões do país e do mundo, em que pessoas são expulsas de seu lugar para que o capital vingue-se da existência da miséria humana.
Talvez por Contestado... Talvez por Carajás... Talvez por Pinheirinho a esperança se faz necessária... absolutamente necessária... vitalmente necessária...
Vida Longa a Pinheirinho!
Venham Todos!
Venham Todas!... mas venham mesmo...
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira
Obs.: Fotos, imagens, reportagens, documentários (de fato tão recente) não faltam. As imagens e vídeos aqui colocados estão públicos na internet. Sou apenas mais um...
Parece profecia... Quem lê o artigo publicado por Nirlando Beirão, na Carta Capital da semana passada diria que o nobre colunista sabia o que iria rolar n”A casa”.
O BBB nunca foi nossa preferência de publicações nesta Lona de Circo. No máximo, citações an passan. Mas, os acontecimentos desta semana e a covardia do Poder (a Globo) e do Capacho (o modelo expulso) demonstram que, de certa maneira, deveríamos ter dedicado mais tempo a este tema. Claro, estabelecendo as claras e devidas diferenças entre o grotesco picadeiro do BBB e o humilde e sempre revolucionário picadeiro de nosso Universal Circo Crítico.
Mas, neste momento, ajudamos a divulgar o artigo da Carta Capital, suprema em sua análise e... profecia.
O Império da indigência
BBB confirma o papel de usina de trapaças a serviço da mediocridade.
“Bota a bunda pra dentro!” – comanda o poeta e intelectual Pedro Bial, MC do BBB, à baianinha chorona Jakeline, que diz ter saudades do galo Fabiano e da galinha Nicole, “mãe de Paulinho”, que ela deixou em casa, com o coração partido, em busca de seus 79 dias de fama e, quem sabe, do prêmio de 1,5 milhão de reais. “A bunda deve estar dentro do carro”, reitera Bial, biógrafo do patrão Roberto Marinho e porta-voz daquela UDN do Baixo Leblon no manjado circuito Jobi-Bracarense.
Bial ancora há dez anos o Big Brother Brasil, que chega agora à sua edição número 12. Tem demonstrado considerável denodo em dilapidar sua própria biografia. Mas já que já limites até mesmo para o mais blindado cinismo, Bial tenta justificar-se na condição de herdeiro do Chacrinha, “o Velho Guerreiro”, e, em sua piscadela ao público Cult, trata de citar coleguinhas de rimas, de Casimiro de Abreu a Arnaldo Antunes. É como se ele quisesse dizer: não me confundam com a vulgaridade que eu promovo.
Vai se difícil. Nesse exato momento, dia de estréia do BBB 12, Bial orquestra, com sarcasmo cruel, a primeira “prova de resistência” da competição. Trata-se do desafio de amontoar os 16 concorrentes dentro de um veículo reiteradamente identificado como sendo da marca Fiat. O último a sair ganha o carro e a “imunidade”: não pode ser despachado do programa já na primeira votação. Da para pensar se não foi a concorrência que pautou a tarefa. Trata-se, com certeza, do jeito mais estúpido de promover um automóvel: pelo desconforto que ele pode propiciar.
“Isso, ao”, esbaforiu-se o colorido mineirinho João Carvalho. O brother mais sensível e mais veterano não resistiu a cinco minutos de metaconfinamento, ou seja, de prisão dentro da prisão. Bial adverte: é só o começo. Pois é, é só o começo.
Aquinhoado por verbas publicitárias milionárias e pela ansiedade do espectador em pagar para ter seu fugaz momento de imperador romano, decretando por telefone ou mensagem de texto a morte ou a salvação dos gladiadores, o BBB chega mais uma vez para reiterar seu papel de usina da indigência de um espetáculo solúvel, lixo reciclado e enlatado made by Endernol.
Festa infantilóide que, se a gente olhar em volta, não dá para comparar nem com os programas da Xuxa, nem mesmo com as atuais prévias do Partido Republicano, nos Estados Unidos. Quem assiste ao BBB 12 fica com escrúpulos de pertencer ao gênero humano – se é que alguém ali faz parte do gênero humano.
Analice, Ronaldo, Mayara, Renata, Jonas, Kelly, Yuri, Monique, Laísa... Acolhidos pela intimidade do primeiro nome, espera-se de brother e sisters a contrapartida de uma espontaneidade nua e crua, se descortinando à frente do apetite voyeur do ilustre espectador aquela esfregação langorosa entre pit bulls e saradonas, exercício descerebrado, mera flex/ao de músculos, de atropelos gramaticais e de banalidades explícitas.
Pelo histórico do BBB, costuma brilhar uma única estrela com luz própria, nesse blecaute da inteligência, apagão total de talento. Refiro-me ao edredom. O edredom é, ao longo da maratona de amassos, o único sinal de sutileza expressiva e de dramaticidade aguda – aguda e, literalmente, por baixo do pano. Sem o edredom, o Big Brother Brasil não é nada. O edredom encobre a cupidez dos personagens, mas, sobretudo, aguça a fantasia dos espectadores. Tão triste quanto a mediocridade dos brothers e sisters é a vocação que a platéia, ela sim, tem para a mediocridade.
Já houve tempo em que o reality show da Globo simulava amostra mais ampla, em suposto respeito à nossa biodiversidade, mas se percebe hoje que a seleção da colorida fauna se norteia não mais pelos critérios etnográficos e geográficos ou pelos estereótipos da sociedade. A produção diz que levou oito meses para eleger os candidatos. Bastava ir até meia dúzia de academias de musculação. O BBB é o lugar onde a geometria encontra a anatomia. Dos homens espera-se apenas o volume do peitoral. Mulheres só têm serventia se desenvolverem elefantíase em determinada parte do corpo que se diz aqui no Brasil ser a preferência nacional.
Enquanto o carnaval não vem, será aquele desfile cotidiano, 24 horas ao dia, de muita prótese de silicone, excesso de tatuagens, exagero de protuberâncias, intenso ensaboar masturbatório sob chuveiros indiscretos – e, se alguém notar, em meio àquela torrente de energia libidinal, que neurônios estão sendo acionados, poucos que sejam, é bom avisar o Boninho, o diretor, do programa, porque inteligência e raciocínio não fazem bem ao escript.
Do Bam-Bam, o básico, o primeiro campeão, à Grazi, rara celebridade que dura; do truculento Alemão à suave Maria, a última contemplada – o BBB já em seu elenco de duvidosos heróis. Lembre-se do Jean, estrela incomum do BBB 5. O sestroso baiano quebrou o pacto. Naquela dinâmica de cartas marcadas, cabia a ele o papel da bichinha vulgar e alcoviteira, mas eis que, com lampejos de astúcia e repentes de sinceridade, ganhou o respeito de humanista e livre-pensador e passou os dias de clausura lecionando não para seus pares, mas para toda a nação inculta e bela. Jean é hoje o combativo deputado federal Jean Wyllys, do PSOL do Rio.
A cada edição, e essa aí não nos deixa mentir, o BBB muda para não mudar. São acertos cosméticos apresentados com estardalhaço, como se fossem enormes surpresas. “A casa”, essa entidade quase mística, foi redecorada em extravagância multicromática, que leva a gente a crer que todo aquele kitsch resulta de uma inesperada parceria entre Jeff Koons e o carnavalesco da Grande Rio.
No fundo, reality shows ao estilo BBB, e a ninhada que já fez proliferar, continuam sendo o que são, em sua secreta propensão para a malvadeza e seu apelo irrestrito ao masoquismo. É justificada a suspeita de que tais programas tenham sido inventados no hospício de Charenton pelo notório Marquês de Sade, o que torna ainda mais intrigante o fato de que pobres enclausurados demonstrem, ante o olhar de milhões de sádicos virtuais, tão sorridente orgulho com a humilhação a que são submetidos. Não há edredom libidinoso ou promessa de fama que pague o preço, ou há?
Anos atrás, este escriba lamentou ver Pedro Bial fazendo as honras da casa no BBB, “desperdício tão flagrante como seria ter Sarah Berbhardt na bilheteria do Théâtre de La Renaissance, em Paris”. Bial, “cultor de Guimarães Rosa, no meio de tantos que jamais abriram um livro”, tinha agora de se resignar “a não mencionar nem Elliot e muito menos Keats, seus poetas de cabeceira, pois haveriam de ser confundidos com gatos de estimação de alguma grã-fina de folhetim”.
O constrangimento muito bem remunerado de Bial, dez edições depois, é do tipo que se confunde com a filosofia do próprio BBB. A gente fica sem saber o que é realidade e o que é fingimento. Citando Roland Barthes, de quem Bial certamente já ouviu falar em suas horas de folga, a virtude desse tipo de espetáculo é abolir causa e efeito: “o que me interessa é o que se vê, e não o que se crê”. O show modela a sua própria realidade.
Por Nirlando Beirão
(Carta Capital – 18 de janeiro de 2012 / nº 680 – Seção Plural: Televisão)
Aqui, ninguém dá uma olhadinha... o Circo é de Todos e Todas!
Venham Todos!
Venham Todas!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira
PS.: O Vídeo da Música na voz de Zé Ramalho tem inúmeras versões na internet. Assisti a três e todas elas tem, sempre, alguma imagem a qual não faria referência. Vale mais, também, pela canção que, claro, não tem espaço na mídia, na indústia cultural e nem recebe/paga "jabas".