RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Circo nunca fechou...

Afinal...
O Circo sempre está aqui, ali, acolá...
Finca sua tenda aqui, levanta em seguida, segue caminho...
Encontra pessoas novas, amigos de sempre, pessoas desconhecidas e incríveis...

O Circo é um lugar de amor, infronteirado... É lugar em que até inventamos palavras fáceis de entender...
Infronteirado...
 
Assim é o Circo Borboleta...


Assim tenta ser o Universal Circo Crítico...

Voltamos, mas nunca estivemos distantes... estávamos aprendendo outros espaços...
Mas, aqui é o Circo...
Aqui é a Lona Furada... a Terra batida... os Artistas Lutadores e Lutadoras do Povo...

Sempre estivemos...
Sempre estaremos...

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Discurso de Formatura... Turma Raquel de Magalhães Borges.



            Caros amigos e amigas presentes neste ato de formatura da turma 2009 de Educação Física da Universidade Federal do Pará, Campus Castanhal...
            Colegas Docentes e Dirigentes aqui presentes... em particular à colega Raquel, homenageada pela turma.
            Convidados e familiares dos formandos...
            Caríssimos e Caríssimas Professores e Professoras de Educação Física, hoje formados.
            Minhas Saudações.
            Cá estão vocês, se formando mas, e lamentamos bastante, com muitos de seus colegas ausentes. Se por um lado, ausentes por questões de organização acadêmica de cada um, por outro, por conta de tempo de turbulência da Universidade Pública em nosso país. Convivi com essa turma nos tempos mais tumultuados de nossa Educação Brasileira nestes últimos anos que, dentre outros, fizeram com que vocês vivenciassem duas greves: uma na educação municipal (em tempos de estágio de vocês nas escolas) e outra aqui mesmo nesta casa. Mas, prefiro entender que vocês, na verdade, vivenciaram tempos e lutas importantes na educação brasileira, local e nacional, expressos nestes dois fatos. É claro que, de minhas saudações aqui, nesta noite, LUTA é a minha palavra de ordem.
            Mas, interessantes são os caminhos percorridos para estarmos aqui hoje. Datas diferentes, expectativas à flor da pele, adiamentos para, enfim, estarmos aqui. Nós, docentes e dirigentes, meros espectadores e figurantes da Celebração de vocês... E falo isso sem falsa modéstia. É uma lição amadurecida rapidamente, já com os seus colegas de outrora, das turmas que os antecederam.
            Mas deste amadurecimento de uma ideia, de uma lição, a história da Turma 2009 nos trouxe à esta celebração hoje: 04 de outubro.
            Como sempre, vou um pouco à história, buscar lições que, mesmo divergentes entre nós, parecem-me importantes. Mas, por um pequeno detalhe de nascedouro, vocês não incluíram essa data, 04 de outubro, e a Formatura de vocês em uma das datas pessoais, particulares... militantes... revolucionárias mais importantes de minha vida.
          
  Foi ontem, 03 de outubro, que celebramos o Centenário de Hiram de Lima Pereira. Meu avô, jornalista, militante e dirigente político do Partido Comunista Brasileiro, poeta e ator popular premiado em seu tempo... Homem de ideias libertárias, humanas e por ser um homem de ideias que, a seu tempo, eram críticas, revolucionárias, foi calado pelo Estado brasileiro.
Em Hiram de Lima Pereira, gostaria de traduzir minha imagem de homem, lutador do povo, em vocês. Em minha opinião, vontade ousada (em que pese a ousadia ser o que me dá sentido à vida), pois é sabido entre nós que não dividimos a defesa do mesmo Projeto Histórico de Sociedade, como tal, radicalmente. Defendemos coisas comuns, na nossa área, na Educação e até mesmo nas relações humanas. Mas é a defesa do Projeto Histórico que nos coloca lado a lado ou não.
Digo isso porque falo não apenas de um jornalista (ou o jornalista), artista, poeta, avô, camarada, pensador. Falo, também, de um militante... e de um militante comunista. E traduzir a imagem dele em vocês é, na minha ousadia, também traduzir sua postura e luta por uma sociedade socialista e, em sua expressão superior, comunista.
Disse uma vez do “Velho” (meu pai se referia a ele assim) que minha memória me levava a apenas uma manifestação, infantil, uma brincadeira: “Serra, serra, serrador / Serra o papo do vovô / Quantas tábuas já serrou? / 1, 2, 3, fora uma que quebrou!”. Brincadeira de nosso imaginário folclore infantil, compõe minha memória que, também, me levam a outras, aquelas acerca da ausência do Velho. Da dúvida à certeza de sua prisão nos porões da Ditadura, em 1975, e eu nem entendia isso direito.
A minha primeira lição (e lição nunca será exemplo ou conselho) é exatamente essa: que possamos definitivamente escolher de que lado estamos, agora, como professores que estão se formando. E espero que façam a escolha do povo. E em tempos em que acompanhamos as atrocidades e violência das Polícias Militares gaúcha e carioca contra professores em greve – ao ponto de uma professora no Rio ter morrido nestes confrontos – parece-me que está bastante claro para nós QUAL é o lado que temos que escolher.
Escolha, em minha opinião bastante justa, se não nos esquecermos que, mesmo com todos os percalços até aqui, vocês ainda estão se formando em uma Universidade Pública. E que pena que ainda tenhamos que amadurecer muito a nossa Universidade em nosso país, uma Universidade que ainda dá as costas ao povo que a sustenta.
Nunca me cansarei de manifestar as palavras de Ernesto Che Guevara, em outubro de 1959 (não exatamente em 04 de outubro) quando falava da árdua tarefa que os jovens, não apenas eles, precisam assumir em nome de seu povo, dentro da Universidade. E aqui, repetirei, ipsis litteris, o que já disse a seus colegas em formaturas anteriores, sobre o compromisso desta Universidade (e, portanto, também de vocês): o compromisso com a luta dos trabalhadores, dos jovens, dos pobres, dos campesinos [e] que a Universidade se incorpora à sua real tarefa quando os estudantes se incorporam às práticas sociais para o crescimento de sua nação e sua soberania. (...) precisamos pintar a Universidade de preto, de povo, de operário, de camponês. Precisamos pintar a Universidade de índio, de mulher, de trabalhador. E que sejam abertas as portas das universidades aos párias e segregados por razões sociais ou econômicas. Como diria o Comandante “a tarefa é muito grande, tão grande que não é possível resolvê-la individualmente: ou a resolvemos todos juntos ou fica sem resolver”.
O Velho Hiram estava certo, mesmo nunca tendo dito nada à minha pessoa, aos meus ouvidos. Mas o disse em sua história. Nosso lado só pode ser o da classe trabalhadora. Essa é a primeira lição.
Mas é também em outros dois “04 de outubro” – que é a data em que estamos celebrando a formação de vocês, Professores de Educação Física – que gostaria de também prestar minha homenagem.
A história de homens e mulheres sempre nos possibilitará celebrarmos nascimentos, tanto quanto nos desafiará a aprendermos celebrarmos as despedidas, que conhecemos também como “Morte”. Em 04 de outubro de 1917, nascia Violeta Parra, chilena e considerada em seu país como a mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos e explorados, além de canções de lirismo, poesia e emoção inquestionáveis. Em 04 de outubro de 2009, partia Mercedes Sosa, argentina, La Negra, cujas canções refletiam o seu movimento musical com africanas, cubanas, andinas e espanholas marcado por uma ideologia de rechaço ao imperialismo norte-americano, ao consumismo e às desigualdade sociais.
 
Violeta Parra
Violeta, que nasceu em um 04 de outubro, partiu por sua tristeza pessoal e política. Mercedes venceu em vida o período de ditadura de seu país. Ambas, mulheres, cantoras, artistas que cantavam seu povo, sua história, sua canção.
Não sei se vocês se emocionam ou se emocionariam (caso nunca as tenham escutado) com suas canções. Gosto de escutá-las em meu silêncio, gosto de tocá-las e cantá-las em paz e com amigos/as... com companheiros/as... com camaradas...
Suas canções me ensinam a Celebração. E aqui estamos celebrando e esta é a minha combatente, militante e humilde maneira de homenageá-los e celebrá-los. Com as canções de Violeta Parra e Mercedes Sosa.
Violeta Parra escreveu uma canção que, dentre inúmeras gravações, recebeu uma maravilhosa da própria Mercedes Sosa e Milton Nascimento. “Volver a lós 17”:
“Meu passo retrocede quando o de vocês avança / O arco das alianças penetrou em meu ninho / Com todo seu colorido passeou por minhas veias / E até a dura corrente com a qual nos prende o destino / É como um diamante fino que ilumina minha alma serena / ... / O que pode o sentimento não o pode o saber / Nem o mais claro proceder, nem o maior dos pensamentos / Tudo o muda num momento qual mago condescendente / Nos afasta docemente de rancores e violências / Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes”
Talvez pareça, aparentemente, piegas falarmos do Amor de Violeta Parra. O amor pelo seu povo, pela sua canção, pela sua liberdade. Amor Revolucionário, por que não? Mas de qual amor estamos falando? Entenderíamos, afinal, as palavras de Che sobre o Amor? Dizia Che: Deixe-me dizer-lhe, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor...”.
Se nossa convivência – e acredito profundamente que sim – deixou nestes tempos de relação pedagógica boas lembranças, importantes memórias, necessárias lições, que o Amor também faça parte disso. Lembremos, por exemplo, de Válery, a personagem que contou sua história a Evey, em “V de Vingança”... Lembremos apenas das palavras finais dela: mas o que mais quero é que você entenda, quando digo que ainda que eu não te conheça, apesar de talvez jamais encontrar você, rir com você, chorar com você ou beijar você, eu te amo de todo coração, eu te amo.”.
Que lição é essa, caros Professores e Professoras de Educação Física? Por que uma “lição de amor” é tão importante? Qual seu sentido? Qual seu significado?
Amamos o que fazemos... Amamos aquilo que nos tornamos profissionalmente... Talvez seja isso. Mas, ouso (continuo fazendo isso) instigá-los a algo que, em minha opinião, levará nossos sentimentos a um lugar mais longe. Que possamos romper fronteiras em nosso amor pelo que fazemos e, também, por quem o fazemos. E que cada transformação que operarmos a cada dia em nosso trabalho docente, que possamos encontrar esse amor que transforma, esse Amor Revolucionário... como um diamante fino que ilumina nossa alma serena. Lembremos: Evey lia as cartas em papel higiênico escritas por Válery. Ao final, emocionada e serenamente, ela não tinha mais medo de nada. Estava completamente livre.
Voltando a Violeta Parra, “Volver a lós 17” parece-me uma canção tão bela quanto “Gracias a La vida”, também cantada por Mercedes Sosa. Gosto de cantá-la pois a aprendi também em minha infância, ficou adormecida durante mais de uma década até eu reencontrá-la em meus aprendizados com os lutadores e lutadoras do campo, já em minha vida universitária. “Gracias a La Vida” é um refrão curto, e que sempre obstinar-se-á a ser deliciosamente cantada, assoviada, solfejada...
            Mesmo que com olhares diferentes, mais particulares ou mais coletivos. Afinal, fechemos os olhos e “cantemos” da maneira que a queiramos cantar: Graças à vida que me deu tanto / Me deu dois olhos que quando os abro / Distinguo perfeitamente o preto do branco / E no alto céu seu fundo estrelado / E nas multidões o homem (e a mulher) que eu amo (...) / Me deu o ouvido que em todo seu comprimento / Grava noite e dia grilos e canários / Martírios, turbinas, latidos, aguaceiros / E a voz tão terna de meu bem amado (e minha amada). (...) / Me deu o som e o abecedário / Com ele, as palavras que penso e declaro / Mãe, amigo, irmão / E luz iluminando a rota da alma do que estou amando (...) / Me deu a marcha de meus pés cansados / Com eles andei cidades e charcos / Praias e desertos, montanhas e planícies / E a casa sua, sua rua e seu pátio (...) / Me deu o coração que agita seu marco / Quando olho o fruto do cérebro humano / Quando olho o bom tão longe do mal / Quando olho o fundo de seus olhos claros (...) / Me deu o riso e me deu o pranto / Assim eu distinguo fortuna de quebranto / Os dois materiais que formam meu canto / E o canto de vocês que é o mesmo canto / E o canto de todos que é meu próprio canto”...
            A fortuna e o quebranto, ambos compõem meu canto e o canto de vocês que é o mesmo canto e o canto de todos, o meu próprio canto...
Mercedes Sosa
Gracias a la vida! Gracias a La vida!...
Tenho que aqui reconhecer nossa pontual diferença. O Cristianismo de vocês (e, possivelmente, de seus pais, mães, irmãos, irmãs, esposos, esposas, filhos, filhas, amigos aqui presentes e seus tantos outros e outras próximas) e meu Ateísmo. Valores religiosos, espirituais, diria, opostos e que conviveram dia-a-dia nestes tempos de formação tranquila e respeitosamente. Alguns aqui dirão, agora, que é o milagre que percorre o coração de vocês. Outros, talvez, delinhem pela mera coincidência. Eu prefiro a história e que, sempre e constantemente, nos reserva os presentes mais interessantes, curiosos e, claro, revolucionários. Mas, entendo que Mercedes Sosa, agora não como interprete de Violeta Parra, mas como também compositora, traz uma justa e bela saudação, ao momento desta celebração e as intenções de minhas palavras. É em uma de suas canções que, sempre que a interpretava, levantava multidões (alias, eram muitas as canções que faziam isso). Acreditem: eu adoro esta canção e aqui também presto minha homenagem a vocês:  “Solo Le pido a Dios” ou, como quiserem, Eu só peço a Deus:
“Eu só peço a Deus / Que a dor não me seja indiferente / Que a morte não me encontre um dia / Solitário sem ter feito o que eu queria (...) Que a injustiça não me seja indiferente / Pois não posso dar a outra face/ Se já fui machucado brutalmente (...) / Que a guerra não me seja indiferente / É um monstro grande, pisa forte / Toda foram de inocência desta gente”.
Percebam... nas palavras de Mercedes Sosa, elevando sua canção a Deus, sua convocação mais humana, em busca de sua verdadeira, revolucionária e profunda humanidade. Que não sejamos indiferentes à dor, à injustiça e à guerra. Vivemos isso, ou melhor, somos expostos em nossa sociedade, essa pela qual nós lutamos contra, todos os dias. Vemos a dor alheia, a injustiça distante, a guerra desconhecida e nada fazemos. E que agora, como professores e professoras que somos, NÓS, exatamente assim, NÓS, tenhamos coragem de nunca sermos indiferentes.
E é assim... Nós...
E quero, à guisa da conclusão desta minha celebração à Turma Raquel de Magalhães Borges, reafirmar o que disse em nosso último encontro coletivo, na disciplina que vocês mais gostaram em toda a formação de vocês (Políticas Públicas): voltem à esta Universidade. Se não for à ESSA Universidade, a UFPA, voltem à Universidade Pública. E que seja, não por bairrismo, mas por labuta, para uma Universidade Pública no Norte do País. Ela também precisa, cada vez mais, ser pintada de cabana... de cabocla... da indígena... de quilombola... de campesina... de povo...
Se isso acontecer e tivermos que nos percebermos em trincheiras opostas, que assim seja, pois já construímos nossas bases de respeito, carinho e admiração recíproca. O que vier, que venha com nosso debate franco, duro (se for o caso) e fraterno... mas que sejamos NÓS!
E é com uma canção dos argentinos Armando Tejada Gómez e César Isella, também cantada por Mercedes Sosa, que faço minha saudação final: A “Canción com Todos”:
“Todas as vozes, todas / Todas as mãos, todas / Todo o sangue pode / Ser canção no vento / Canta comigo, canta / Irmão americano / Liberte tua esperança / Com um grito na voz”

            Violeta Parra, Presente!
            Mercedes Sosa, Presente!
            Hiram de Lima Pereira, Presente!

            Eu tenho certeza: estão cantando e dançando com vocês, exatamente agora!
            À mim, apenas registrar minha alegria de poder participar minhas palavras em uma data tão importante e que assim como celebrei, ontem, o centenário de Hiram de Lima Pereira, hoje, iniciamos a história do próximo centenário... o da Turma Raquel de Magalhães Borges! O Centenário da Turma 2009 de Educação Física da UFPA/Castanhal.

            Vida Longa à Turma Raquel de Magalhães Borges!
            Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Hiram de Lima Pereira... PRESENTE!



Hoje, 03 de outubro!
            Centenário do nascimento de Hiram de Lima Pereira... Jornalista, ator, poeta... militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)... Clandestino, capturado, torturado e morto nas mãos do Estado Ditatorial Militar nos anos de chumbo (1964-1985), no Brasil.
       
     Meu avô!
            Ainda aprendo sobre sua história... assim, meio que distante de quem poderia meu ensinar mais e todos os dias sobre ele. Pela distância física, também...
            Mas, neste centenário do “Velho”, e na conjuntura de retomada da violência do Estado contra trabalhadores (Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, como modelos mais atuais desta expressão, mas não apenas), parece-me dar uma lição inquestionável de sua luta, que chegou às vias de fato durante a ditadura.


            O Velho foi preso sem nunca ter pego em armas durante a ditadura. Era jornalista e ator... homem de ideias e por isso era perigoso à ditadura.
            Dizem os defensores dos anos de chumbo (lamentavelmente, inclusive jovens de hoje) que as prisões, as mortes aconteciam por conta da violência dos revolucionários, que eram comunistas e que queriam implantar uma ditadura comunista no Brasil... às favas, tamanha imprudência pseudo testemunhal.

            A nossa homenagem a Hiram de Lima Pereira, o Velho, meu Avô vem reacender o Universal Circo Crítico, hibernado a algum tempo, mas nunca em silêncio, muito menos parado.
            Nossos artistas e nosso picadeiro de terra batida e lona rasgada não poderia ficar em silêncio hoje. E fazemos justamente com uma poesia de sua companheira (minha Vó), Célia Pereira ou, artisticamente, Maria Célia.
            Em suas duas obras (uma póstuma) a expressão de sua saudade, imposta necessariamente pela luta em nome e defesa da Classe Trabalhadora. E é essa luta, contraditória no seio familiar, que fez deste picadeiro a sustentação de seus valores e da defesa intransigente da Classe Trabalhadora.
            O sacrifício do Velho junto à família tinha uma razão maior, e essa razão continua viva, nas ruas, nas escolas, nas praças, na organização de trabalhadores e trabalhadoras mundo afora.
        
 

 “Meu coração calado, / magoado, /mostra um riso fingido, / mascarado. / Como um palhaço, / gargalha, sem cessar, / procurando, com riso, / o soluço abafar. / Conversa,  / canta, ri, / dá cambalhotas / e provoca na plateia / hilaridade, / que em su’alma ecoa, / como um canto noturno / de Carpas a gritar” (Meu coração é um Palhaço – Maria Célia).





            Hiram de Lima Pereira... o Velho... Meu Avô!
            Presente!

            Venham Todos!
            Venham Todas!

            Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Discurso de Formatura... Turma Rita de Cássia Paiva...









“Papai, porque que vocês
não fazem com ele
o mesmo que fizemos com o Juca?”
“Quem é o Juca?”
“Juca era o dono da bola.”
“Que foi que vocês fizeram?”
“Tomamos a bola dele.”
(Mário Lago)



            Prezados hoje Professores de Língua Espanhola, oriundos da Faculdade de Letras da UFPA/Castanhal.
            Minhas saudações.

Hoje, minhas palavras não são presenciais. Isso, claro, não me incomoda. As circunstâncias da docência, da convivência acadêmica nos levam, em diferentes momentos de nossa vida, a estar presentes fisicamente ou não em momentos distintos. Neste caso, minha homenagem será apenas neste picadeiro de terra batida e protegidos pela nossa boa e velha lona furada.
Mas, mesmo estando em outra “esfera” (viagem?) deste momento, o certo é que passei algumas boas e significativas experiências com essa turma e, por compromisso, vontade, paixão e aprendizado docente, acadêmico... militante... revolucionário, não poderia de deixar minhas poucas, humildes e sinceras palavras.
Pero cuidado ... No quiero correr el riesgo de cometer sacrilegio lingüística, y por lo tanto mis palabras son en portugués, no español ... (Y este tramo es el traductor de google)
Ao participar da Aula da Saudade, poucos dias após concluímos nossas atividades de sala de aula, havia resgatado um pequeno poema (ainda que não tenha declamado) que, segundo registros familiares, fora censurado durante o Estado Novo mas que, como sempre na história, não havia se perdido totalmente. E, para minha honra particular e singular, esteve nas mãos e na memória de meu avô, Hiram de Lima Pereira.
Tratava-se do Poema de Mário Lago, “O Dono da Bola” que, abaixo (e numa tripla homenagem: a vocês, ao “Velho” – meu avô – e ao fantástico Mario Lago), reproduzo abaixo:

O DONO DA BOLA (Mario Lago)

Quando o Juca concordava, / A garotada tomava conta da rua / E armava o campo de futebol.
Juca era o dono da bola. / Juca era o dono do jogo.

Fazia o que muito bem entendia / E quando alguém discutia... / O Juca guardava a bola. / Ninguém brigava com o Juca. / Juca era o dono da bola.

Na hora de escolher o time / Era o Juca quem primeiro dizia / Os meninos que queria pro time dele./ Se o capitão do outro time discordava, / O jogo nem começava, / O Juca guardava a bola.
           
Ninguém brigava com o Juca. / Juca era o dono da bola

A garotada corria / De um lado para o outro. / Dribla daqui, chuta de lá, / Passa pr’ ali, / Cabeceia pr’ acolá .

Juca ficava sentado todo o tempo./ Mas na hora de fazer o gol se mexia,/ Corria e gritava: / !Passa que aqui quem faz gol, sou eu! /E, se o outro não passava / Ou se chutava e marcava / O gol que o Juca esperava... / O Juca guardava a bola.

Ninguém brigava com o Juca, / Juca era o dono da bola.

Todo gol que o outro time / Fazia, era roubado. / Ou tinha sido com a mão, / Ou de off side. Anulado.

O Juca dava rasteira, / Canelada, cabeçada, / Aleijava a garotada, / Juiz não marcava nada. / O tranco mais delicado / Dado no Juca, era pênalti. / E, quando alguém discordava, / O Juca guardava a bola.

Ninguém brigava com Juca. / Juca era o dono da bola.

Um dia, o Alfredinho achou / Que aquilo era desaforo. / Driblou o primeiro. / Driblou o segundo, / Driblou o terceiro, / Driblou o quarto... /O Juca gritou: / “Passa que eu marco o gol, Alfredinho!” / O Alfredinho  não passou, / Chutou e fez o gol sozinho.

O Juca xingou a mãe dele. / Ele meteu a mão no Juca. / (A garotada ficou assustada)

O Juca avançou pra ele, / Ele tornou a dar no Juca. / (A garotada ficou animada).

O Juca avançou outra vez, ele então, / Jogou o Juca no chão. / ( A garotada foi toda em cima do Juca).

Quando o Alfredinho voltou pra casa, / O pai estava se queixando / Que o dinheiro que ganhava não chegava /
Pra alugar outra casa,
Ao menos com mais um quarto,
Pra botar seus nove filhos,
Para comprar mais comida,
Feijão pra seus nove filhos,
Pra comprar umas roupas,
Pra vestir seus nove filhos,
Pra pagar uma escola,
Pra educar seus nove filhos,
Pra pagar o pneumotórax,
Pra mãe dos seus nove filhos.

“Papai, porque que o dinheiro  que você ganha não chega?” / “É pouco.” /  “Porque que é pouco?” /  “Porque o patrão paga pouco.” / “Papai, porque que vocês /   não pedem mais ao patrão?” / “O patrão despede a gente  /   e a gente fica sem pão” / “Porque que o patrão despede?” / “Porque ele é o dono das fabricas, /  ele é o dono das maquinas.”

“Papai, porque que vocês / Não fazem com ele / O mesmo que fizemos com o Juca?” / “Quem é o Juca?” / “Juca era o dono da bola.” / “Que foi que vocês fizeram?” / “Tomamos a bola dele.”

Como puderam perceber, a epígrafe desta minha homenagem a vocês está ao final deste belo poema de Mário Lago.
            Mas há algo de interessante (e contraditório) nestas palavras, neste poema, desta data, além, é claro, da Formatura de vocês. Afinal (e não é o fato mais importante de um 19 de julho na história da humanidade ), hoje é o Dia Nacional do Futebol.
É verdade eu há atos e fatos na história da humanidade mais importantes. Como, por exemplo, a vitória do exercito sandinista (Viva Sandino!) na Nicarágua, em 1979, ou a fundação do município de Assaré, no Ceará que, mais importante que a infinita maioria dos intelectuais da Casa Grande (vulgo Academia Brasileira de Letras) nos presenteou na história das letras com Patativa do Assaré.
Mas, o Futebol aqui, no cai bem.
Queria, neste momento, que nos enxergássemos como Juca e como Alfredinho. E quando falo para nos enxergarmos, é apenas o nosso exercício de definir nossas trincheiras (e, ao definirmos, também assim serão nossas bandeiras, nossas lutas, nossos/as companheiros/as e/ou camaradas de luta, nossos sonhos coletivos).
Juca e Alfredinho, bem possivelmente, passaram em nossas salas de aula, nos laboratórios, nos trabalhos individuais e coletivos, nas nossas avaliações, em nossas relações acadêmicas.
É inquestionável que, nestes mais de quatro anos, vocês tenham conhecido e convivido com Juca’s e Alfredinho’s. E essa convivência não era apenas uma personificação. Juca’s e Alfredinho’s viam e se afastavam de vocês quando pensavam em pesquisa, em trabalho, em escola... e muitas vezes eram Juca’s e Alfredinho’s (agora sim, suas personificações) quem provocavam essas convivências.
Vivemos um mundo de Juca’s. O “Dono da Bola” do capital manda, também, no campinho, no lado de fora do campinho, no juiz (e, portanto, nas suas regras e leis), na cor do uniforme, quem pode (e quem não pode) jogar. Manda nas canções que cantaremos entre uma partida e outra, no que beberemos e comeremos antes ou depois de cada partida. Manda, também, no lugar em que jogaremos: qual a nossa posição, o que fazer nesta posição, em defesa de que farei e contra quem atacarei nesta posição.
Vemos o Dono da Bola o tempo todo e ainda não identificamos (ou não nos identificamos) como Alfredinho’s para este jogo.
Mas é fácil compreender o que Alfredinho faria (além ou depois de tomar a bola do Juca).
O Campinho passaria a ser um lugar de todos, mas apenas de todos/as os/as Alfredinho’s. Sim, lamento: Juca’s não terão vez em nosso Campinho, pois não entenderão o que significa o campo ser de todos e, está na sua natureza, tentarão sempre dizer que, no final das contas, o Campinho tem um dono. Eles aprenderam isso tomando campos de índios, de campesinos, de quilombolas, de moradores pobres da periferia e, portanto, farão de tudo para que eles mesmos – índios, campesinos, quilombolas, pobres, homens e mulheres – percam o direito ao Campinho...
O lado de fora do Campinho tanto quanto importante como o próprio também será um lugar para nós (já assumi meu lugar), Alfredinho’s. Porque é ao redor do Campinho que estarão nossas casas e nossos quintais, nossas escolas, nossos hospitais, nossas igrejas (desde que a serviço dos Alfredinho’s e de nós, ateus), nossas plantações, nossas águas, nossas fábricas. E elas também serão de todos/as.
O Juiz representará apenas a nossa Lei: pobre, trabalhadora, mulher, negra, campesina e lutadora. É essa Lei, como expressão da realidade que temos e a possibilidade de sermos, todos/as, ver-da-de-i-ra-men-te FELIZ que iremos escrever e fazer cumprir. E não precisaremos mais de juízes, porque a Lei não precisará existir para que saibamos: nossos velhos são sagrados, nossas crianças são nossa responsabilidade, nossos trabalhadore/as são imprescindíveis e nossa felicidade é única e coletiva.
A cor do nosso Uniforme? Ah! não há o que discutir (e não é por imposição, é por coerência histórica): VERMELHA!, assim como será a nossa bandeira. Para que não esqueçamos de todo sangue que correu por aqueles/as que nos antecederam e nem de que lado estamos na história. O Campinho e tudo que o cerca ser de todos/as não é apenas uma perspectiva. É uma necessidade e, por ser necessidade histórica, é uma bandeira de luta... e ela precisa ser vermelha!
E que todos e todas (como Todos e Todas de nosso humilde picadeiro) possam beber e comer do bom e do melhor, celebrando o Campinho e tudo o que ele nos ensinou.
E só jogaremos contra Juca. Apenas contra o que ele representa, quem ele representa o porque ele representa. Precisamos tomar a bola para nós e fazermos isso em defesa daquilo que realmente é certo, é verdade, é justo e para todos e todas.

Mas, há um detalhe, caros companheiros e companheiras, agora, Trabalhadores e Trabalhadoras da Educação.
Precisamos cantar... Celebrar o lado em que estamos, como quem estamos, por quem estamos sem música, não é uma celebração. E vocês, talvez sem saber, bem possivelmente sem terem planejado, tocaram uma canção em seus computadores em sala de aula e que novamente foi cantada na Aula da Saudade que muito representa a este caminhante professor e aprendiz de Lutador do Povo.
Uma canção que desde minha infância, com outros artistas, cantores e canções que regavam o ambiente de minha casa, sempre se fez presente e, quanto mais avançava em meu aprendizado de Lutador do Povo, mais a voz e a canção se faziam presentes.
Mercedes Sosa, La Negra, em minha humilde opinião, deveria ser a homenageada de Lutas, a homenageada de Canções, a homenageada de Universidades, junto com grandes outros/as Lutadores do Povo. E, portanto, que possamos cantar e dançar sua “Canción com Todos!”
Porque certamente essa canção é celebrada pela Revolução Sandinista de 1979, na Nicarágua... É justo que possa também ser cantada e bailada neste 19 de julho de 2013.

“Salgo a caminar / Por la cintura cósmica del sur / Piso en la región / Más vegetal del tiempo y de la luz / Siento al caminar / Toda la piel de América en mi piel / Y anda en mi sangre un río / Que libera en mi voz / Su caudal.
Sol de alto Perú / Rostro Bolivia, estaño y soledad / Un verde Brasil besa a mi Chile / Cobre y mineral / Subo desde el sur / Hacia la entraña América y total / Pura raíz de un grito / Destinado a crecer / Y a estallar.
Todas las voces, todas / Todas las manos, todas / Toda la sangre puede / Ser canción en el viento.
¡Canta conmigo, canta / Hermano americano / Libera tu esperanza / Con un grito en la voz!”


É assim, queridos PROFESSORES de Língua Espanhola, hoje, formados pela UFPA/Castanhal.

Minha alegria de poder conviver com vocês ali, na reta final da vida acadêmica de vocês, tem o tamanho do coração e das lições de Alfredinho, tem a voz e a canção de Mercedes Sosa, tem dos desafios e os sonhos dos Sandinistas. E que eu possa testemunhar o retorno de vocês à essa casa que, é preciso reconhecer, ainda pertence ao Juca, ainda pertence à elite dirigente deste país. Por mais que tenhamos a boa sensação de que estamos vivendo um tempo de transição do que a Universidade Brasileira (pública, laica, gratuita) representa, mas ainda precisamos mais.
Disse-lhes ao final de nossos encontros acadêmicos: vocês continuam fazendo parte desta casa. Espero que retornem a ela, em outra condição, mas do lado de cá das trincheiras do dia-a-dia.

E que este dia 19 de julho não seja apenas o Dia Nacional do Futebol. Mas seja o dia em que tomamos a bola para nós. Porque somos Lutadores e Lutadoras do Povo.
           
Vida Longa à Turma Rita de Cássia Paiva.
Vida Longa!



Marcelo “Russo” Ferreira