RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Lá vai Janis Joplin


contribuição de Paco Mitu - Castanhal/PA

“um cão não vê utilidade em carros elegantes
Nem em casarões, nem em roupas de grifes.
Um graveto serve pra ele.
Um cão não se importa se você é rico ou pobre...
Talentoso ou sem graça...
Inteligente ou burro.
Dê a ele seu coração e terá o dele.
De quantas pessoas você pode dizer isso?
Quantas pessoas o fazem se sentir único, puro e especial?
Quantas pessoas o fazem se sentir extraordinário?
(Do filme “Marley e eu”)


E lá vai ela...
Foram quase 12 anos...
E, neste tempo, um sofá destruído, creio que uma dúzia de fugas, algumas delas espetaculares (e ela fugia porque aprendeu que a gente a trazia de volta) e, destas, três ninhadas (17 cãezinhos de diferentes pelos, cores, rabos, focinhos...), algumas caças (de timbu a passarinho), muitas reclamações de banho, os incontáveis “cabos de guerra de panos” e tudo o que a gente pode receber desta companheira que sempre nos recebia de rabo abanando.
Entre dois e três meses de idade... Eu, tentando salvar o sofá de casa

Sempre soube que isso iria acontecer, acreditando no “tempo” que a gente acredita seguir seu fluxo normal, sem acidentes ou interrupções duras e abruptas. Sempre os/as tive, quando pude te-los e Janis reinaugurou esta companhia depois de um longo tempo impossibilitado de ter um cãozinho.
Mas, ontem, foi dia de despedirmo-nos dela. Claro, com dor no coração, pois foi uma despedida planejada, haja vista o acometimento de câncer que a acompanhava.
Nossa humanidade foi testada, até o último segundo.
E, enquanto se aproximava o momento de dizer-lhe as últimas palavras, era impossível (e gratificante) reconhecer-se nela, saber quem você é por conta da Janis.

E como é incrível percebermos nossa humanidade sendo reconstruída para além das relações humanas (e as que eu nutro, mantenho, semeio, alimento, fortaleço também são fruto desta humanidade se desenvolvendo). Uma humanidade sendo humanizada nas relações com uma pequena cadelinha chamada Janis Joplin.

Janis Joplin – nome construído e decidido junto com Bebela (Isabela Nascimento – que tinha medo de cachorro) no primeiro dia dela conosco – chegou nos meus tempos de Brasília, antes de levantarmos o mastro que sustenta esta lona furada de circo e nosso picadeiro de terra batida.
E Janis entrou assim: para mostrar que existia um CIRCO bem melhor dentro de nós, nossos artistas. E antes mesmo de sê-los...
Entrou para mostrar o que nossa humanidade não consegue entender, que não precisamos fazer o certo apenas para ter algo em troca. Janis não esperava nada em troca do rabo abanando, quando eu chegava em casa.
Janis (assim como Hércules e Kaia, que continuam conosco) é a demonstração de um dos ensinamentos mais simples e mais abandonados pela humanidade: não faça o bem em troca de outro bem, não faça a coisa certa para receber algo em troca... Apenas faça o bem, apenas faça a coisa certa, apenas demonstre a alegria que sentes perto das pessoas que ama. E siga a vida agradecendo a ti mesmo por ter feito a coisa certa.
Se receber algo em troca (um carinho, uma brincadeira, um petisco), ótimo. Se não receber, aqui está meu carinho no dia seguinte.
Janis nunca quis mais do que isso...
E, talvez, essa seja a fonte da dor que ainda aperta o peito da gente.
 
Contribuição de Érika Esmeralda
O Circo segue, assim com Hércules e Kaia. Já percebemos que eles ainda aguardam a Janis voltar e, portanto, a matilha precisa continuar unida. E eu, como um “inxirido” na matilha, continuar aprendendo.
Uma pena que tantos que conheço, que tem seus companheiros (e os tem por opção) não tenham aprendido isso ainda.



Da Janis, em nossos últimos momentos, a única coisa que eu poderia dizer por estes 12 anos:
Obrigado, Janis
"De nada e vem brincar logo comigo", no jeito Janis de responder...

– Viva Viva, Janis Joplin! (os artistas)

Venham Todos!
Venham Todas!

sábado, 31 de dezembro de 2016

Escutei por aí... o Chile - e te prepara, 2017!!!!! Ah! Te prepara!!!!





“Por suerte tengo guitarra
 y também tengo mi voz,
 también tengo siete Hermanos
 fuera del que se engrilló.
 Todos revolucionários
 com el favor de mi Dios.
 Si... Sí”
 (La Carta – Violeta Parra)


Este ano, como nosso picadeiro testemunhou e registrou, foi realmente intenso e difícil. E em quase todos os campos, em quase todas as esferas humanas e sociais. E não nos espantemos, o que vem pela frente será mais desafiador, com mais lutas incansáveis mas necessárias.
Mas, não caberia a este picadeiro de terra batida, deixar de lembrar também, que 2016 foi um ano de muitas coisas interessantes.
Sempre somos agraciados com a chegada de alguns/algumas pequenos/as. Assim foi com Maria Luiza, Gustavo, Luisa, Débora, Enzo, Paulo Henrique, Vitor, Luiz Fernando, a duplinha de gêmeas Gaby e Bia, Morena e Bella Liah. E os/as celebramos tanto quanto celebramos aos que partiram este ano, mesmo que partindo: Fidel – El Comandante, Muhanmad Ali, Marga Rothe e Naná Vasconcelos. Celebramos para nunca nos esquecermos, dentre outros, por quem continuamos nossa luta...
Tivemos a juventude, este ano... brava lutadora e que não arredou o pé nas suas lutas. Mais ainda, continuou avançando e as ocupações, nesta parte final deste estúpido ano, mostraram que ela não está pra brincadeira. E é inarrável e inquantificável registrar o quanto que este picadeiro de terra batida e lona furada de circo aprendeu com ela.
Testemunhamos também, mais próximo a nós, duas turmas de professores de Educação Física se formando. A Turma Professora Renata Vivi e a Turma Professor Euzébio Oliveira e, claro, não deixamos de registrar nossa saudação e, nela, as lições que sempre entendemos serem necessárias.
           Foram mais de 13 mil visitas ao nosso picadeiro de terra batida e lona furada de circo este ano e, cá pra nós, estamos muito felizes com isso... Mesmo que, nestas, um mísero e idiota patrulhamento ideológico tenha se manifestado. Também continuam sendo bem vindos, pois sempre aceitamos o contraditório (no bom debate) e, mais ainda, nada como ajudar a estes pobres desavisados do mundo e da vida.
E, meio que para brindar este também celebrativo ano de Luta e seus Lutadores e Lutadoras do Povo, celebramos a música, este elemento da criatividade humana (e muito capturada pelo capital) e que brinda nossos ouvidos com melodia e esperança.
E este picadeiro de terra batida e lona furada de circo – que também em sua história, caminha pela Música, com nossas canções, nossas letras e as histórias por trás delas – iniciou neste ano o mote “Escutei por aí...”. E curtimos muito as nossas primeiras experiências.
Aliás, muito ainda passaremos por aqui, de coisas novas ou “não tão novas”, que só conhecemos agora ou recentemente. Falamos de Francisco - El Hombre, Dom La Nena e Liniker. Por aí, só coisa bacana. E, garantimos, falamos muito menos do que gostaríamos de falar.
E já que estamos em nossa última viagem de 2016, optamos por Música. Sei lá, meio que para celebrar. E festa sem música? Não dá...



A Música sempre é um perfeito instrumento de criação e de celebração. Com a música eu mesmo aprendi a organizar as ideias e as notas, mesmo quando incompreendidas. E também aprendi a celebrar as pessoas que estão neste picadeiro, mesmo as que não saibam.
Em tempos em que até ficamos embasbacados com as vozes escondidas mundo afora e que perpassam os palcos de programas de talentos a serem reveladas – e entrarem num disputado espaço de “pop star’s” – até mesmo a música pode ser um espaço de disputa histórica, ideológica, de concepção de homem, de mundo, de relações sociais.
Essas vozes, entretanto, existem muito além destes programas, e com trabalhos tão ou muito mais consolidados do que os artistas celebrados pelos nossos estúpidos meios de comunicação que os reúne para “festas da virada”...

– Essa parte é sempre difícil, Russo (Strovézio).
– Diga lá, meu nobre e musical palhaço...
– Porque sempre corremos o risco de cair no tal “gosto é gosto, cada um tem o seu” ou sermos levados a não respeitar o fato destes artistas trabalharem muito.
– Oras, claro que não... sabemos que trabalham muito... Mas, também precisamos reconhecer, num diálogo de crítica e autocrítica, pra quem, pra que, em defesa de que, contra o que, contra quem trabalham muito, mesmo que eles mesmos não saibam.
– Não saibam... hummmmm... como é que tu diz mesmo, Russo?
– Pois bom.

Desde pequeno, sempre pude conhecer alguns trabalhos da nossa fantástica cultura musical Latino-americana. É de pequeno que escutava o magnífico “Raices de América” e canções como “Guantanamera” e “La Carta” ou a voz de La Negra Mercedes Sosa.
E, com o tempo, fui percebendo que o Chile de Violeta Parra, a Argentina de La Negra e a América Latina reunido em Raíces de América era muito mais do que me deixavam conhecer. E, portanto, precisava conhecer.
Conheci um espetacular “latino-progressivo-popular” - ou sei lá como denomina-lo - Los Jaivas, e sua mistura de ritmos populares chilenos e rock progressivo:


Conheci Quilapayun e no espetáculo “Cantata de Santa Maria de Iquique” percebemos que há, nesta música latina, a história de seu povo. E como é importante sabermos e cantarmos a história de nosso povo. Como a fantástica “Plegaria de un labrador” (de Victor Jara, também chileno):



Conheci Inti-Illimani, que com o próprio Quilapayun, nos apresentava “El Pueblo Unido” e “Canción del Poder Popular”.


E, conhecendo-o este pouco, sei que há muito mais ainda por conhecer.
Em um ano tão difícil, e a necessidade de nos prepararmos para o que vem pela frente, pessimistas na análise, mas otimistas na ação, há que lembramos sempre, e com música (por que não?), que...


“De pie, cantar
 Que vamos triunfar.
 Avanzan ya
 Banderas de unidad
 Y tú vendrás
 Marchando junto a mí
 Y así verás
 Tu canto y tu bandera florescer
 Da Luz
 De un rojo amanhecer
 Anuncia ya
 La vida que vendrá
 [...]

 El Pueblo unido, jamás será vencido”


Não esperamos por 2017! Iremos ao seu encontro, com força e determinação. Sabendo que estamos com centenas, milhares de camaradas ao nosso lado, assim como estamos ao lado de centenas, milhares de camaradas...
Não apenas por nós... mas por toda a humanidade!
           Te liga, 2017! Nós estamos chegando... 2016 não nos derrotou!

            Venham Todos!
            Venham Todas!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Conversa ao pé de ouvido de Bella Liah...

 “Dormi sozinha e acordei cantando a nossa canção/
 Canção que só escutei num sonho que eu não lembrei/
 Mas juro, havia paixão.”
 (Breve Canção de Amor - Zélia Duncan)

Salve, Salve, nossa Pequena Bella Liah.
Em nossa última Conversa ao Pé de Ouvido de 2016, o Universal Circo Crítico te saúda e te celebra.
Chegas com o nome de Bella Liah, que significa...

– Opa! Calma, Calma, Russo... péra um cadin (Strovézio).
– Mas me diga, meu nobre palhaço... qual o problema.
– É que a gente sempre se aventura nesta de explicar aos pequenos e pequenas que chegam sobre a origem de seus nomes, possíveis significados e tals... Mas, com a Bella, deixemos a própria Karina, a mãe dela, fazer isso... que tu achas?
– Sempre inovamos aqui, Strovézio...
– Karina... quer ter a honra? (Strovézio)
– Muito grata... Vem de Isabella. Mas o nome é Bella Liah, Bella (do italiano, Isabela, que significa “consagrada a Deus”. E Liah é o hebraico Leah. Foi a primeira esposa de Jacõ e significa olhos doces...

Pequenos Olhos Doces consagrados a Deus...
É... que bela homenagem logo na chegada.

E chegas, tipo chegando, né, Pequena Bella Liah? Já tô vendo tu dando seus saltos em piscinas mundo afora. Afinal, que ideia (e coragem) genial de seus pais em proporcionarem seu nascimento NA ÁGUA!!!!!! É quase que uma narração de saída de “tiro de 100 metros”

– Atenção! Prepara! Em suas Marcas! (O Apresentador!)
TCHIBUMMMMMM!!!!!!
– E lá vai Bella Liah em suas primeiras braçadas!



Mas é assim que faremos essa nossa conversa ao pé de ouvido, de um picadeiro de terra batida e lona furada de circo... até debaixo d’água.
Chegas em 28 de outubro, Pequena Bella. E, claro, passeamos um pouco, mas bem pouquinho mesmo, na história desta humanidade que te recebe, para – inxiridamente – deixarmos algumas humildes lições e homenagens. E sempre encontramos fatos bacanas e pessoas arretadas para este papo da gente.
Particularmente, achamos muito legal nasceres no dia em que a primeira animação (desenho animado mesmo) foi tornada. Isso mesmo! Foi em 28 de outubro de 1892 que Émile Reanaud exibiu o primeiro desenho animado e a gente foi atrás desta obra prima.


É interessante quando comparamos esta revolucionária exibição de mais de 120 anos atrás com os desenhos de hoje e percebemos o quanto que as coisas evoluem... até mesmo no desenho.
Pequena Bella Liah, chegas em tempos estranhos, sabe? Muita coisa pra tentar entender mas, principalmente, um tempo em que o homem se aprimora cada vez mais para sua extinção do que para sua vida. Se é verdade que 120 anos de história dos desenhos animados nos deram, hoje, desenhos super legais para assistir, o mesmo não podemos dizer com outros temas, com outras “necessidades” humanas. É tanta energia para o caminho errado...
Daí, nossa primeira lição está posta: comece desenhando, visse? E peça o quanto antes uma boa quantidade de folhas de papel...

– FOLHAS DE PAPEL??????? Na-na-ni-na-não!!!! (Strovézio).
– Oxi, por que não Strovézio?
– Eu, se fosse a Bella, pedia logo um par de parede! É bem mais legal...
– Eita...



Bom, já que falamos de desenho animado, arte, criatividade humana e tals, vamos falar de uma pessoa, que nem nasceu e nem partiu em um 28 de outubro mas que tem, nesta data, um fato marcante em sua vida.
Falamos de Raquel de Queiroz, escritora brasileira de obras maravilhosas. De repente seus pais até gostem muito dela e nem sabemos.
Mas a história dela demonstra como que a nossa história, a história do povo brasileiro, é realmente repleta de estranhamentos sobre a liberdade de expressão e, também, sobre a frágil democracia brasileira. Neste dia, lá por volta de 1937, ela oi presa no Ceará, acusada de ser comunista...
Quando ficares mais velha, mais grande, sabendo mais das coisas, irás saber, também, que nasce em um tempo em que ser comunista, defender os ideais do comunismo é quase que um grande perigo de vida.
Mas o interessante da vida de Raquel é que mesmo com este “currículo” e suas ideias progressistas da época, em 1964, apoiou o golpe civil-militar e, depois, “desapoiou”...

– Eita, Russo... muita confusão para a cabecinha da Belle Liah (Strovézio).
– Pois é, meu nobre palhaço... pra você ver como que 28 de outubro traz tanta coisa, mas tanta coisa (mesmo em poucas coisas que trazemos aqui), que a gente até fica meio... meio... hããã...
– Debaixo d’água! (O mergulhador dos mares da vida planetária, um dos nossos artistas)...
– Isso...

Pois bom.
Ainda tem coisas deste outro fato de Raquel (o ano de 1964, em particular), mas, dela, deixamos algumas ideias de leituras que, acreditamos, irão fazer suas ideias, seus sonhos, suas viagens seguirem longe. E se tiveres as paredes para pintar então...
Que possas, em seus primeiros anos de vida, curtir as obras infantis de Raquel de Queiroz: O Menino Mágico, Cafute e a Pena-de-Prata e Andira... Literatura e desenhos: que combinação perfeita, Bella Liah.



Uma das histórias (e lições controversas) que este 28 de outubro também nos deixa, Pequena Bella Liah, diz respeito a um dos países mais poderosos do mundo (e que deu uma mãozinha danada no Golpe de 1964): os Estados Unidos da América – vulgo USA. Este país é capaz de criar guerras (e não controla-las) para criar mercados e fazer isso em nome da Liberdade...
E é por falar em “liberdade” que lembro, aqui, que foi em 28 de outubro de 1886 que a mui conhecida Estátua da Liberdade (que na literatura também é denominada de “A Liberdade iluminando o mundo”) foi inaugurada em Nova York, palco dos auto-atentados de 11 de setembro de 2001.
No pé desta enooooooorme estátua, tem o seguinte poema, escrito por Emma Lazarus:

“Não como o gigante bronzeado de grega fama,
 Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
 Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol,
 Se erguerá uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
 É o relâmpago aprisionado e seu nome
 Mãe dos Exílios.
 Do farol de sua mão brilha um acolhedor braço universal;
 Os seus suaves olhos comandam o porto unido
 Por pontes que enquadram cidades gêmeas.
 ‘Mantenham antigas terras sua pompa histórica!’
 Grita ela com lábios silenciosos
 ‘Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
 As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
 O miserável refugo das suas costas apinhadas.
 Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
 Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado”.

Sim, um pelo poema, a falar de uma Liberdade que acolhe os fatigados e os pobres.
Sei não, Pequena Bella Liah.
À esta altura de nossa inxirida conversa o pé de ouvido, seus pais (e, talvez mais sua mãe, que foi aluna deste brincante aprendiz de lutador do povo) devem estar pensando: “que viagem este Marcelo!”...
Mas, Liberdade é palavra séria, palavra que expressa a luta do oprimido contra seu opressor. Liberdade é uma ideia que se estabelece no forjar da vida.
E esta Liberdade, palavra construída pela história da humanidade e tão maltratada pelos homens é, possivelmente, um de seus grandes desafios em sua vida. E, para tanto, deixamos aqui uma canção que, à bem da verdade, não tem muito a ver com o 28 de outubro... mas muito a ver com a Liberdade. E de um cantor que já não está mais entre nós, mas que este Circo sempre curtiu muito...



E já que falamos de música, é sobre ela – e este picadeiro não vive sem uma boa conversa ao pé de ouvido sem falar de música – que vamos comentar um cadin.
Sua mãe é professora e, neste ano – difícil – celebramos o Dia dos Professores com um passeio na história cinematográfica deste tema. Um filme de nossas infâncias (talvez mais deste que vos fala do que de sua mãe), um clássico chamado “Ao mestre com carinho”...
Numa das cenas, mais perto do final, um baile, com estudantes e o professor (interpretado por Sidney Poitier). E, nesta cena, uma banda tocando “It’s getting harder all the time”, algo como “Está ficando mais difícil o tempo todo”...


A banda era The Mindbenders, do cantor Wayne Fontana, que nasceu em um 28 de outubro.
Tem um que de “especial” poder falar desta cena, porque, à bem da verdade, foi também sua mãe junto com suas amigas da Turma de Letras, lá pelas bandas de 2001, que me chamou nos corredores da UFPA (onde ela estudava) para um convite surpreendente, cativante e emocionante: ser homenageado como paraninfo da Turma.
Portanto, pequena Bella Liah, sempre reconheça aqueles que estarão em sua vida, lhe ensinando na concordância ou no conflito. Sempre entendi que ensino mais no conflito... não sei porquê. Mas, como a ideia é ler sempre e desenhar tudo, acho, sinceramente, que irás também caminhar pelo fantástico caminho das muitas ideias a se pensar e muitas coisas a se fazer.
Ah!
E também a super Zélia Duncan é de 28 de outubro... Reconhecemos que pouco sabemos do trabalho dela, mas uma canção (quando começamos a organizar nosso papo contigo) nos veio a mente... aquela história de “lembro ter escutado” e, violá, lembramos de “Breve Canção de Sonho”... Uma canção de amor, mas, para nós, também uma canção ao pé de ouvido.

E é claro que seus pais são apaixonados por ti, Pequena Bella Liah.



Chegamos, por fim, ao que mais toca o coração revolucionário, e sempre aprendiz de Lutador do Povo, deste picadeiro de terra batida e lona furada de circo, nossa Pequena Bella Liah.
Em 28 de outubro de 1959, o primeiro ano da Revolução Cubana – resistente e histórica Revolução Cubana – havia tombado, em um acidente aéreo, o grande revolucionário Camilo Cienfuegos.
Bravo revolucionário Cubano, do povo cubano, e de coragem a alegria indescritível (mesmo nas várias obras que o descreveram) durante todo o processo de luta naqueles anos que findavam a década de 50, naquela pequena ilha do caribe.



Não me atreverei a muitas histórias sobre o que entendemos desta particular, magnífica e contraditória história de Cuba. Mas, me atreverei uma pequena lição sobre o que aprendi desta história e do que ela significa na pessoa de Camilo: lutar ao lado daqueles que precisam lutar. Lutar pela vida de todos, contra aqueles que a quer apenas para seu bem pessoal e particular. Lutar pela solidariedade, pela liberdade, pela classe trabalhadora... Uma Liberdade verdadeira, que não cabe numa estátua. 
Dizia Camilo: “No, no quiero ser outro cordero” (Não, não quero ser outro cordeiro), afirmando sua firme convicção de que não está aqui para servir a quem o explora e explora seu povo. Podemos (e o fazemos) servir por nossa função pública, por nossa solidariedade, por nossa humanidade... Do contrário, não.
Parecem palavras estranhas, para quem está acabando de chegar neste mundo de tantas confusões e, também, de tanta esperança. Acho até que estamos muito embebidos destas lutas e esperanças todas.
Mas, para este humilde picadeiro de terra batida e lona furada de circo, poder conversar ao seu pé de ouvido, saudá-la e homenageá-la sem sua chegada, neste dia, com esta história, e com o amor revolucionário que tentamos, todos os dias, cultivar em nossos corações e nos corações dos que estão à nossa volta... bom... Somos nós quem agradecemos sua chegada.










Por isso a saudamos, Pequena Bella Liah.

Vida Longa, Vida Sempre Longa, Bella Liah!

Venham Todos!
Venham Todas!




terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O Espetáculo da Violência...


“Quem me dera ao menos uma vez
 Acreditar por um instante em tudo que existe
 E acreditar que o mundo é perfeito
 E que todas as pessoas são felizes.
 [...]
 Como a mais bela tribo
 Dos mais belos índios
 Não ser atacada por ser inocente...”
 (Índios – Legião Urbana)



Que espetáculo é esse?
Que faz com que 1:32 minuto de violência seja “assistida” por pessoas amedrontadas (amedrontadas?) que não conseguem mover-se um centímetro contra ela?
Que faz com que uma “renomada” instituição de transportes públicos (fonte de recursos) e privados (nós pagamos), com sua sempre presente segurança a atacar e expulsar vendedores ambulantes e estudantes que protestam por educação e transporte público com rapidez e brutalidade, não tenha chegado a tempo de impedir e prender dois homens... fortes... brancos... bem vestidos... bem alimentados... bem “adereçados” com seus socos ingleses à mão... e bem “protegidos”, agora, por advogados que querem transforma-los em vítimas.
Foram 1 minuto e 32 segundos de cenas duras... e contei quase trinta pessoas (sem compor com os que estavam na bilheteria...
Mas, era trinta pessoas assistindo... apenas uma, aparentemente, se manifestando em ajuda ao vendedor Paulo Ruas, e também sendo ameaçado.
Trinta pessoas vendo uma pessoa sendo espancada até a morte por duas pessoas....
O que as fazem ficar paralisadas?
Por que ficamos paralisados?
Por que é tão difícil uma pessoa, uma só pessoa pegar duas, três, quatro pelo braço e dizer “Vamos ajudar aquele senhor!”, “Vamos salva-lo daquela selvageria!”, “Vamos salvar uma vida!”...
Claro que tenho “respostas” e claro que também não entendo minhas “perguntas”... ou as entendo, enfim...
Quantas vezes já escutamos, e em tantas situações, quase todas sobre violência: “Não se mete, não tens naca a ver com isso!”, “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher!”, “Vais arrumar encrenca pra ti, deixa isso pra lá”...?
Lembrei-me de uma cena de um filme que, infelizmente, não recordo o nome.
Era um filme sobre o Nazismo, e nesta cena um judeu prisioneiro em um campo de concentração é amarrado suspenso em um poste. Fazia muito frio e dois, apenas DOIS soldados alemães (divertindo-se) jogavam água fria neste prisioneiro, congelando-o.
E 50 judeus, também prisioneiros, assistindo, imobilizados... Era uma ficção, mas talvez era a expressão de relatos reais sobre o holocausto.
Mas, ainda que como filme, como assim, 50 homens não conseguem insurgir-se contra dois oficiais que torturam até a morte um judeu? Um dos seus.
Como assim, 30 cidadãos (alguns passando com cara de “Nossa! Nem percebi!, Estava tão distraído...”) não conseguem insurgir-se contra dois, DOIS brutamontes que violentam até a morte um senhor jogado, por eles, no chão?
Pouco importam as rações destes idiotas... ou o advogado que quer transforma-los em vítimas.
Mais importa a pergunta: por que não conseguimos enfrentar a violência?
Paulo Ruas era indígena (até onde entendemos) morando na capital paulista... Morreu por defender gays. Assim como gays morrem por defender fracos, negros morrem por ser pobres, indígenas morrem por serem os reais donos desta terra, mulheres morrem por existirem homens que às querem inferiores... trabalhadores e trabalhadoras morrem por vender a única coisa que possuem: sua força de trabalho.
Paulo Ruas vendia a sua com uma barraquinha de bombons.
À Paulo Ruas, nossa singela homenagem, de um pequeno picadeiro de terra batida e lona furada de circo... uma homenagem com ares de vergonha humana.

Convite estranho, deste nosso picadeiro, vez em quando...

Venham Todos!
Venham Todas!

Não fiquemos mais a assistir...