RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Universal Circo Crítico... a justiça II...

O dia 17 de abril, desde 1996, é um marco no simbolismo e na mística (enquanto processo intrínseco de manifestações de amor e luta, fortemente tratada pelos movimentos sociais organizados, em particular, os movimentos campesinos) da luta pela terra. Há 13 anos, 19 trabalhadores Sem Terra foram assassinados pelo Estado (seus aparelhos), o mesmo Estado que não prendeu seus assassinos.
Nesta semana e, em particular, neste dia, novamente as manifestações se espalharam país afora e na região onde ocorreu o Massacre de 1996, novamente os noticiários deram margem (sob seu ponto de vista) a um novo confronto, desta vez na Fazenda Agropecuária Santa Bárbara, que pertence ao Banco Opportunity (aquele, vinculado ao amigo de Gilmar Mendes, o Daniel Dantas). Os seguranças e a advogada da fazenda deram seus depoimentos, amplamente garantidos na mídia. Do que vi na TV (jornais) apenas uma pequena entrevista com uma liderança do MST do PA, que falava das “armas” do MST: uma espingarda de caça e os sempre presentes facões de trabalho.
Participei já de várias marchas campesinas, principalmente em PE. Sempre vi facões, foices, enxadas... Os instrumentos de trabalho de trabalhadores/as do campo, em sinal de demonstração de sua realidade, de sua história, de sua relação com a terra. Penso que os professores aprenderiam mais um pouco (do muito que estes trabalhadores da educação já sabem) se levassem seus livros, lápis, cadernos, canetas, apagadores em suas manifestações, não abrindo mão da relação com seus instrumentos de trabalhado nestes momentos.
E assim seria:
Músicos se manifestando contra a Ordem Nacional dos Músicos, publicamente, levando seus instrumentos, suas partituras, suas palavras de ordem em forma de música.
Trabalhadores da construção o fariam com seus carrinhos de mão, desempenadeiras, pás e mangotes, manifestando-se contra a ordem de empreiteiros de baratear a obra, misturando areia e isopor, enquanto curtem suas mansões em Miami Beach.

Ou então os motoristas e cobradores, levando suas chaves de roda, rolando pneus e os cofres às ruas, para protestar contra suas jornadas desumanas e os autos lucros dos empresários de transporte urbano.
E, então, todos estariam armados, preparados que estavam para confrontos, já intencionados e conflitos e enfrentamentos corporais. Difícil, aos nossos olhos, acreditar nisso, mas, com anos de luta persistente, pensamos assim da luta campesina e de seus militantes.
Pensei, também, em escritores, pois esta semana que recebi uma mensagem, com o título “Vamos repensar nossas vidas” e vários pontos de exclamação e que tinha, como centro, uma fábula infantil: A Fábula da Galinha Vermelha, de Susanna Davidson. Peço que os que por aqui passarem e lerem esse artigo, possam pesquisar, para conhecer a fábula que, em síntese, conta a história de uma pequena galinha, de penas vermelhas, que convida o porco, o ganso, a vaca e o pato para ajudá-la a fazer o pão, desde seu início (o plantio do trigo). Como ninguém a ajudava, os demais animais reclamaram e a galinha, por ordem “legal”, teve que dividir o pão, que, depois disso, nunca mais o fez.

O final da fábula trazia o que chamaríamos de “moral da história”, a qual reproduzo (retirando termos “desnecessários”):
“Esta 'fábula' deveria ser distribuída e estudada em todas as escolas brasileiras. / Quem sabe, assim, em uma ou duas gerações, sua mensagem central pudesse tomar o lugar de toda essa papagaiada pseudo-socialista, que insiste em assombrar nosso país e condená-lo à eterna miséria. / Em tempo... Qualquer semelhança desses bichos com alguns abaixo (a seguir) é mera coincidência: Sem Terra, Sem Teto, Sem Bolsa Escola, Puxa-sacos, Sem Vergonha, (...)E outros bichos mais”.
O interessante é que em alguns blog’s que visitei e onde encontrei a fábula, esse mesmo comentário final se repete, integralmente. Ou seja, parece que foi incorporada à fábula.
Deste contexto todo, tiro algumas reflexões. A primeira: antes, socialistas (travestidos simbolicamente de comunistas - que são coisas diferentes) comiam criancinhas. Por isso, deveriam ser perseguidos e, quando ocupassem governos, deveriam ser derrubados "em nome da democracia, da família e dos bons costumes" (ou bons coturnos!). Vingando o crescimento do pensamento neo-liberal, passaram a ser "ultrapassados" - o muro caiu! Hoje, é uma idéia papagaiada! Por que o pensamento fundado nos princípios do Projeto Histórico Socialista assusta mais do que as bancarrotas econômicas do estado fundado no Projeto Histórico Capitalista, sempre “cuidado” com arrumações (essas sim pseudos) econômicas que mantém os que especulam no poder?
Sobre a história, cabe lembrar (ou refletir) que trata-se de uma fábula urbana, mesmo falando de animais de fazenda. Trata-se de um olhar enviesado sobre as relações de trabalho e o papel do Estado nestas relações. Porém, penso que a idéia da nobre autora, à época, era mostrar a solidariedade e a coletividade, ainda que sob o aspecto burguês.
Para me fazer entender: todos conhecem (acho) outra fábula, a do incêndio na Floresta em que todos os animais saem em disparada e, de repente, o Leão, no alto de sua majestade, repara no pequeno beija-flor pegando a água no riacho, com seu pequeno bico, e apagando o fogo que lhe era possível. O Leão pergunta: "beija-flor! Tu achas que vai apagar o fogo assim?" e o beija-flor responde: "Não acho, mas pelo menos estou fazendo a minha parte"... Uma bela história, em princípio.
Brinco dizendo que a história não terminou aí. O Leão, após a fala do beija-flor, gritou para a bicharada: "Corre, bicharada, que o fogo já queimou os miolos do beija-flor!".
Essa forma de terminar a história é p'ra dizer que enquanto, na fábula, os animais não forem organizados, nunca estarão preparados para enfrentar coletivamente o fogo. Por isso, não basta o beija-flor ter, sozinho, consciência de sua tarefa. É preciso conscientizar a coletividade dos animais. Até porque, outros que não conseguem correr na velocidade necessária, morrerão no fogo e nem tentarão apagar o incêndio. É o valor burguês dado sobre a solidariedade e à coletividade, não basta cada um fazer sua parte, se não a compreenderem no todo.
Reconheço que parece "pensamento crítico" demais para uma pequena fábula, mas é também a partir delas que os valores vão se constituindo. E, no final da Fábula da Galina Vermelha, vem a pérola. Aliás, as pérolas:
1. Que é preciso tomar lugar (portanto, é o seu antagônico) de "toda essa papagaiada pseudo-socialista, que insiste em assombrar nosso país e condená-lo à eterna miséria". Ops! Então, não existe miséria no nosso país... Aliás, país do eixo central capitalista nenhum tem miséria? Ela, a miséria, é privilégio de países "pseudo-socialistas"? Hum... é, talvez o seja. Cuba é um país pobre, não importa o embargo econômico de 50 anos a aquela pequena ilhazinha no meio da América Central. Que, por sinal, já enfrentou furacões, mas, diferente dos EUA, cuidou de seu povo.
2. Semelhança com Sem Terra, Sem Teto e, depois, uma série de pejorativos desnecessários.
E, neste ponto, resgato o início deste artigo: o confronto entre Sem Terras e os Jagunços ("Seguranças") em Fazenda de propriedade do grupo Oportunity, de Daniel Dantas. E, pasmemos, o INCRA não pode fazer vistoria naquela área, porque assim determinou o STF.
Vivemos num mundo em que, cada vez mais e mais profundamente, homens e mulheres são incoerentes em seus valores. Homens e mulheres falam sobre valores de toda ordem, inclusive a ordem. Defendem direitos, falam sobre justiça, falam de democracia. Mas, não vemos a crítica ao fato de um dos maiores ladrões de colarinho branco da história deste país, Daniel Dantas, andar sob o carinho e atenção de justiça. É esse o patrimônio que o Estado brasileiro defende.

Venham Todos!
Venham Todas!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira

P.S.: em tempo, na manhã de 27 de abril, recebi um e-mail de uma professora da UEPA sobre o assunto. Em seu conteúdo, consta que o repórter da TV Liberal, afiliada da TV Globo, Victor Haor, depôs ao delegado de Polícia de Interior do Estado do Pará. Em seu depoimento, negou que os profissionais do jornalismo tenham sido usados como escudo humano pelos sem-terra, bem como desmentiu a versão – propagada pela Liberal, Globo e Cia. – de que teriam ficado em cárcere privado.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Universal Circo Crítico... a justiça I...

Essa semana, testemunhamos o bate-boca entre o Ministro Joaquim Cardoso e o Presidente do STF, Gilmar Mendes. Creio que, p’ra não errar na conta, metade deste país queria estar na pele (ou talvez ficassem satisfeitos em estar no plenário, assistindo) do Ministro Joaquim Cardoso, só para experimentar a sensação de apontar o dedo na cara de Gilmar Mendes e “dizer-lhe uma tuia de verdades”.
Quem não respirou em frente à TV e disse “Boa, Joaquim!” quando o mesmo falou ao Presidente Supremo do Supremo (não é redundância): “você não está falando com os seus capangas do MT!”... Foi a melhor.
Ficarmos impressionados com a postura de "panos quentes" da mídia, claro que ninguém ficou. Em outras circunstâncias, possivelmente o jornalismo tupiniquim iria fazer pequena e substancial matéria sobre “a que se refere Joaquim Barbosa a falar sobre ‘capangas’ de Gilmar Mendes?”.
Ficarmos impressionados com a nota de oito dos onze juízes do STF, também não dá, né? Afinal, era óbvio que um silêncio sairia muito mal à opinião pública sobre este lado da democracia brasileira, assim como ninguém, nenhum dos oito juízes (nem mesmo o conhecido voraz da Lei do mais forte, Marco Aurélio) queriam, á revelia do bate-boca entre os pretensos ministros, sair mal na foto.
Afinal, não há como negar: o Ministro Joaquim Barbosa falou o que a população brasileira, em maioria p’ra lá de significativa, pensa de Gilmar Mendes. Como este tem argumentos para falar que aquele “não tem moral”? Seria, no fim ao cabo, uma expressão de racismo ás escondidas?
Nem grande mídia (essa conhecida por sua máscara de jornalismo verdade... a que lhe interessa, claro), nem o STF. Apenas os órgãos e movimentos respeitáveis e compromissados com os reais interesses da classe trabalhadora (ainda que, possivelmente neste caso particular em questão, muitos oportunistas de carreira opinem a favor das falas do Ministro Joaquim Barbosa) que buscam manter acesa a atenção pública ao que representa nossos dirigentes e, neste, a figura policialesca e carcomida do Presidente do STF.
Na atenção ao que ainda se procura veicular sobre o fato, sintetizo o que recebi por e-mail e que acho que, no mínimo, vale pelo registro. O que a mídia, se interessada na verdade (como sempre se auto-afirma) faria?
1. Investigaria o "assassinato" de Andréa Paula Pedroso Wonsoski, jornalista que denunciou o seu irmão, Chico Mendes, por compra de votos em Diamantino, no Mato Grosso, assim como a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2000, quando era advogado-geral da União e em 2004, quando já era ministro do Supremo Tribunal Federal;
2. Investigaria as “suspeitas” relações com o Grupo Bertin, condenado em novembro de 2007 por formação de cartel;
3. Investigaria os contratos sem licitação que o Instituto Brasiliense de Direito Público (da qual Gilmar Mendes é acionista) recebeu durante o governo de Fernando Henrique Cardoso;
4. Tornaria pública a coincidência de mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão (Chico Mendes, não aquele que tombou no Acre) ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância;
5. Alexandre Garcia, Joelmir Beting, Marcos Nascimento e outros “comentariam” a afirmação de Daniel Dantas, de que só o preocupavam as primeiras instâncias da justiça, já que no STF ele teria "facilidades";
6. Resgataria, na fala do Ministro Joaquim Barbosa de que está se destruindo a imagem do judiciário brasileiro pelo seu atual presidente, o segundo habeas corpus (dois hábeas corpus???) concedido espuriamente a Daniel Dantas, logo após a apresentação de um vídeo que documentava uma tentativa de suborno a um policial federal (ai! Que flagrante público!);
7. E o grampo? Nada até agora? Quer dizer... nada que a mídia não queira inculcar no imaginário popular;
8. Lembraria a população que assiste seus telejornalismos que, quando Advogado-Geral da União, depois de derrotado no Judiciário na questão da demarcação das terras indígenas, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem as decisões judiciais;
9. Revelaria (e explicaria) as relações de Gilmar Mendes com o site Consultor Jurídico e as relações entre a empresa de consultoria Dublê, de propriedade de Márcio Chaer, com a BrT.

Fica o registro.

Venham Todos!
Venham Todas!
Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

domingo, 29 de março de 2009

O Universal Circo Crítico... Discurso de Formatura...

Prezados membros da mesa, boa noite.

Meus caros alunos, hoje Professores/as Licenciados/as em Educação Física da Faculdade de Educação Física do Campus Castanhal da Universidade Federal do Pará.

Minhas Saudações.

Hoje, vivemos este momento ímpar, que não é nem início nem final, é mais um passo na vida, espero que longa, de vocês. Não importa se o passo é p’ra frente, para os lados ou ate mesmo para trás, não importa, contanto que saiam do lugar em que estão, como bem profetizava musicalmente o saudoso Chico Science, músico pernambucano e precursor do Movimento Mangue Beat: “um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar!”.

Sinto-me mais do que honrado em vivenciar este tempo e espaço nesta reta final de um pequeno tempo de um longo processo. Confesso que realmente é estranho, diferente, algo incompreensível ser patrono de uma turma com a qual sequer pude conhecer o seu principal homenageado. Obrigado pelo presente que vocês me deram. Mas este não é meu dia.

Hoje é 27 de março! E é um dia importante para estes que aqui estão, tanto quanto outros 27 de março na vida de homens e mulheres. E é sobre isso que gostaria de falar a vocês: o 27 de março!

Outros tantos e muitos 27 de março marcaram a vida da humanidade. Reis e Rainhas, Duques e Duquesas, Presidentes e políticos, Santos e Pecadores, Atores e Atrizes, Escritores e Escritoras, Músicos e suas canções, Escultores e pintores e suas obras, Militares da Taberna e Revolucionários/Lutadores do Povo (Ah! Os Lutadores do Povo!). Profissionais e não-profissionais de todas as áreas, de todos os olhares e lugares nasceram, viveram fatos importantes ou morreram em um 27 de março. Também os Plebeus, escravos e miseráveis, andarilhos, pobres, negros, índios, homens e mulheres com suas famílias, seus jovens e velhos – cujos nomes não aparecem em nossas consultas em livros ou na internet – pessoas que fazem de suas raízes, de seu lar e de sua terra apenas uma lembrança, pois tiveram que fugir ou estão fugindo da guerra, da fome, do frio, da seca e do desemprego, em busca de esperança e vida, e encontrando, muitas vezes, aquilo que acreditavam ter deixado para traz, por onde passam, também nascem e morrem em um 27 de março.

Em um 27 de março de 1814, o povo Creek, índios norte-americanos, foram expulsos de suas terras, de suas raízes, de seus rituais e de sua relação com a natureza pelas forças militares dos EUA, sob o comando de um certo General Andrew Jackson. O Líder dos Creek’s não tem seu nome nos livros escolares americanos.
Aliás, foi em um também 27 de março de 1966 (um século e meio depois deste fato) que o ator Marlon Brando recusou um Oscar de melhor ator no filme “O poderoso chefão” justamente por discordar do tratamento dado a outra etnia, os índios Sioux, pelo cinema, TV e pelo próprio País. Marlon Brando também fez teatro e, talvez coincidência, hoje é o Dia Mundial do Teatro.

Foi em um 27 de março de 1965 (ainda não completávamos o primeiro ano do período de “branda” agressão do estado brasileiro aos direitos de livre expressão no Brasil – brandos anos de chumbos, segundo a Folha de São Paulo) que foi inaugurada a Ponte Internacional da Amizade entre Brasil e Paraguai, uma estranha contradição, inclusive aos nossos ouvidos e olhos da Educação Física, quase que educados a valorizar as rivalidades esportivas em detrimento da amizade.

Foi em um 27 de março de 1945 que a Argentina concedeu apoio formal à Acta de Chapultepec (México), que, em poucas palavras, determinava que a agressão perpetrada contra qualquer Estado americano seria considerada como dirigida contra todos os signatários, uma pequena e institucional manifestação de assistência recíproca e solidariedade entre as Américas do Norte, Central e Latina, quebrada pelo Imperialismo Norte-americano na Cuba Revolucionária de 1958 e seguida por uma série de barbaridades militares e sociais.

Há 31 anos, em 27 de março de 1978, um país africano de língua portuguesa vivencia livremente o “Carnaval da Vitória”, festa em que o povo angolano celebra a sua independência após a queda, em 1974, da ditadura Salazarista de Portugal. Foi a Revolução dos Cravos neste país europeu, cantada e decantada magnífica e maravilhosamente por José Saramago em Levantado do Chão! O Carnaval Angolano foi reprimido durante o violento período de colônia portuguesa até a Independência daquele país, em 11 de novembro de 1975, quando, sob a liderança de Agostinho Neto, primeiro presidente eleito da República Popular de Angola, volta às ruas com seus batuques e suas máscaras naquele longínquo 1978. Injusto não lembrar também das palavras do poeta Agostinho Neto, falando contra seu algoz em “A Renúncia Impossível – a negação”, da qual destaco o seguinte trecho:

“Não contem comigo
para vos servir as refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de algodão e café
não contem com amas
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao vosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias noturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender milho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral
Não contem comigo
Renuncio-me
Eu atingi o Zero”
.

Por falar em Povo que Luta, foi na passagem de meados de 27 de março de 1964 que o médico argentino-cubano Ernesto Guevara, o Chê, discursava na sede da ONU. O bravo revolucionário sentenciava naquela oportunidade:
“Entendemos claramente e afirmamos com toda sinceridade que, no momento atual, a única solução correta para os problemas da humanidade é a suspensão total da exploração dos países dependentes por parte dos países capitalistas desenvolvidos”. Naquele ano, os EUA embargava Cuba a tal ponto que – posso estar exagerando, mas vale a alegoria – se existisse um único charuto cubano em um navio de carga de qualquer outro país a caminho dos Estados Unidos, este não recebia nenhum produto que lá existisse, reafirmando o que até hoje dizem ao mundo: “ou estão conosco, ou estão contra nós”... mesmo que seja apenas um charuto.

Em um 27 de março de 1960 nascia um personagem da música brasileira, do rock nacional, que se tornaria (e se tornou) nossa maior expressão de juventude, e, em que pese o silêncio dos poderosos meios de comunicação, resistiu bravamente aos auditórios que antecipavam a Síndrome do Fantástico aos domingos. Em Índios, Renato Russo versava em alguns trechos:

“Quem me dera, ao menos uma vez,
Ter de volta todo o ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.
(...)
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.
(...)Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.
(...)Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer
(...)Que o mais simples fosse visto como o mais importante
(...)Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês –
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.
(...)Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.
(...)Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente”
.
Hoje é 27 de março, Dia do Circo e do artista circense. Que data maravilhosa!
Neste dia, em um longínquo 1897, nascia o Abelardo Pinto, o Palhaço Piolim, artista circense e palhaço homenageado por poetas e escritores, na Semana de Arte Moderna em 1922 (quando Piolim tinha apenas 25 anos) por Tarsila do Amaral, Mario e Oswald de Andrade, Anita Malfatti e outros escritores como o maior artista popular do Brasil. Não sou um conhecedor da Obra de Mário de Andrade, mas continuarei garimpando o que um Poeta Modernista teria escrito acerca de seu encantamento à arte do Circo de Piolim. Ele era o “Rei dos Palhaços”. E, se hoje é, também, o Dia do Circo, em homenagem ao Rei dos Palhaços, nada como um trecho da Declaração do Riso da Terra, como se fosse um presente deste dia, um dia especial do Universal Circo Crítico:
Palhaços do mundo. Uni-vos!!!
“(...)nós, Palhaços do mundo, não podemos deixar de dizer aos homens e mulheres do nosso tempo, de qualquer credo, de qualquer país: cultivemos o riso! Cultivemos o riso contra as armas que destroem a vida. O Riso que resiste ao ódio, à fome e as injustiças do mundo. Cultivemos o riso. Mas não o riso que descrimine o outro pela sua cor, religião, etnia, gostos e costumes. cultivemos o riso para celebrar as nossas diferenças. um riso que seja como a própria vida: Múltiplo, diverso, generoso. Enquanto rirmos, estamos em PAZ. – João Pessoa/PB, 2 de dezembro de 2001”.
Caros professores e professoras de Educação Física que aqui estão no exercício de registrar na história desta Faculdade que estão em seu mais absoluto e inalienável direito de trabalhar nesta área de infinitas possibilidades e linguagens. Vocês deixam a Universidade, mas continuam sendo convidados e convocados a não deixá-la. Ainda há muito o que fazer nela. Ainda precisamos, voltando ao legado de Che, pintá-la “de preto, de povo, de operário, de camponês” e essa tarefa é muito grande para nós, professores e professoras, funcionários e estudantes que ainda manter-se-ão vinculados a ela. Tão grande que não podemos fazê-la sozinhos. Ou resolvemos todos juntos, ou fica sem resolver e essa Universidade, a Universidade Brasileira, local de sistematização e organização do conhecimento produzido pela humanidade continuará branca, elitista, patronalista e latifundiária.

À guiza da conclusão, gostaria de deixar lições. Lições que essas palavras e tudo o que pensei ao formulá-las me conduziu:

Por tudo o que falei até aqui, espero que este 27 de março seja o dia, o verdadeiro dia em que suas lutas sejam lutas coletivas. Aliás, não seria luta se não fosse coletiva. E que possamos, de verdade, aprender o quanto o sorriso pode ser revolucionário, o sorriso de bucho cheio e de conhecimentos universais, esse sim, um riso verdadeiro.
Por tudo o que falei até aqui, caros quase ex-alunos e ex-alunas, desejo que este 27 de março seja o dia em que decidimos olhar para o lado e ver lutadores e trabalhadores, não clientes e consumidores e, como tais, sujeitos que lutam por liberdade e vida digna.
Por tudo o que falei até aqui, caros amigos e amigas de profissão, que seja o dia 27 de março aquele em que aprendemos a necessidade de experimentar todos os dias o real valor da solidariedade. O mundo precisa disso mais do que da caridade, esta, cega e descompromissada com as necessárias transformações sociais.
Por tudo o que falei até aqui, caros companheiros e companheiras de profissão, que vocês procurem o zero de Agostinho Neto, até percebermos que, verdadeiramente, vencemos a negação. A negação da justiça, da verdade (essa, sempre será revolucionária), da superação da coisificação do homem, da solidariedade em detrimento da exploração.

Por tudo o que falei até aqui, faço agora serem verbalizadas as minhas palavras de saudação à celebração de vocês, publicada no Universal Circo Crítico em dezembro do ano passado, por conta das notícias virtuais que circulavam das festas de vocês, neste momento de conclusão do curso:

Celebrar! Camaradas!!!
Celebrar...!
A celebração é, com certeza, a mais digna manifestação popular, com a qual a burguesia ainda não conseguiu descobrir seus efeitos na luta do povo, na luta contra o poder que, nada mais é que a luta da memória contra o esquecimento.
Celebrar! Camaradas!
Celebrar...!
Celebrar todas as pequenas descobertas de um povo! Todas as grandes descobertas das pequenas vitórias! Celebrar, também, que conhecemos profundamente nossos inimigos e que, portanto, sabemos como enfrentá-los. E os enfrentamos!
Celebrar! Camaradas!
Celebrar...!
Celebrar os/as amigos/as como companheiros/as de luta! Companheiros/as de vida, de alegrias, de chegadas e partidas. Celebrar as amizades mais profundas, sinceras e particulares. Celebrar até aquelas que, aos nossos olhos desatentos, parecem perdidas. Mas a descobrimos e, assim, são tão preciosas. Pois continuaram cultivando-se em nossa esperança por dias melhores, por um mundo melhor, diferente, divergente, antagônico deste que enfrentamos.
Celebrar! Camaradas!
Celebrar...!
E que a cada celebração, possamos lembrar de nossa luta, de todos os dias, de todos os/as camaradas de luta e de todos os lutadores e lutadoras do povo!
Celebrar! Camaradas!
Celebrar...!
E é preciso, porque a luta nos impõe assim, celebrarmos os que tombaram lutando, pois são (e verdadeiramente são, não foram) capazes de enfrentar de frente as adversidades da luta e das nossas armas ante aquelas que nos oprimem e, por isso, tombaram... não pelas adversidades, mas pela certeza da vitória, não importa a que tempo.
Celebrar! Camaradas!
Celebrar!
Assim como celebramos o nosso futuro, que este, pertence ao povo!
E não poderemos parar de celebrar, nem disfarçar nossa celebração, porque nossa luta não é disfarçada!
Celebremos com nossos filhos e filhas!
Celebremos com nossos pais, mães, avôs, avós, tios e tias, primos e primas!
Celebremos com nossos amores! Com nossos amigos e amigas! Pertos e distantes! Pouco distantes ou muito distantes!
Celebrar! Camaradas!
Celebrar...!
E eis de, em breve, como nunca se viu na história da humanidade, celebrarmos nossa triunfante vitória, a vitória do povo, a vitória dos trabalhadores, a vitória da revolução...
Celebrar! Camaradas!
Celebrar...!
Esse é o nosso maior presente! Esse é nosso maior desafio! Esse é nosso maior compromisso...
Celebrar! Camaradas!
Celebrar...!


Hoje é 27 de março!
Hoje é o dia de vocês!
Vida Longa ao 27 de março!
Vida Longa à turma Paulo César Santos Chaves
Vida Longa!

Venham Todos!
Venham Todas!

Marcelo “Russo” Ferreira


PS.: Esse discurso foi feito exclusivamente para os formandos 2008.2, da Faculdade de Educação Física – Campus Castanhal – Universidade Federal do Pará.

domingo, 22 de março de 2009

O Universal Circo Crítico... Asas de papel...

Era o ano de 1997.
Eu já estava formado, morava em pensão no bairro do Hipódromo, em Recife e já trabalhava no Fantástico Projeto Nossa Escola, como professor de Educação Física. Tinha, naquela época, uma frente de trabalho sempre intensa (e pouco dinheiro): Universidade – como professor convidado em uma disciplina do curso de Educação Física – as minhas primeiras e mais concretas aproximações com o MST, muitos estudos (preparando-me para a seleção de mestrado – não rolou...), meu segundo Estágio de Vivência em Assentamentos, enfim, não somente aquele, mas aqueles anos foram interessantes: pouco dinheiro (algumas vezes, nada) e muita “vida nesta coisa”.
Era um período em que eu escrevia muitas, muitas cartas: Eram cartas para São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará, Paraíba, Bahia, Minas Gerais, Piauí... acho que o Brasil inteiro. Não saia caro, pois já conhecia o procedimento de “carta social” dos correios.
Uma destas cartas que iam e vinham se transformou em música. Lembro o quanto curti escrever aquela letra. Na verdade, assim que recebi a carta da Mariana, vi a letra, senti a batida da música, ouvi a melodia no meio daquelas linhas. A carta (como todas as cartas desta amiga de longe, mas que nunca mais soube notícias) tenho até hoje, assim como a letra nunca se perdeu. Não era uma relação de amor, mas uma bela relação de amizade que via um amor nesta relação, aquela que dedicamos a nossos amigos e amigas do coração.
E, na letra, está o que ela escreveu, assim como a minha resposta.
Apresento “Asas de Papel”:

“O.k.! Começamos... / Será que temos que pensar / em não começarmos? / O.k.! Já fizemos... / Será que temos que pensar / em não sairmos na rua, na chuva? / Podemos nos molhar / e lavar o mundo / Podemos só olhar pela janela / E os dez minutos que perdemos / na tarde de sexta-feira / Não voamos, mas viajamos / e nossos pensamentos / não foram a lugares racionais / Enfraqueceram-se os limites / Quais limites?
A meta que vivemos / Não sei quais são os dez, / os dez que nos separam / P’ra onde nós miramos? / Se o amor que cultivamos / vai muito mais além de nós... / ... silêncio!
O.k.! Viajamos... / E o afã que já vivi outrora / faz-se agora no ‘som-litário’ da minha voz / Eu sei que não nos vemos, / mas em asas de papel / voam nossas notícias / Perdi meus documentos / Mas, e daí? / Não sou um número, / pois vivo minha história / Por aí, até lamento / Mas, não me acostumo / Eu resisto, pois queremos mudar... / Pois não?
Será que mudaremos para um outro Mundo? / E o que aprenderemos p’ra esse Mundo?
Agora eu vou p’ra escola / levar minha lição de casa que meu professor passou...”.


Venham Todos! Venham Todas!
Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

segunda-feira, 16 de março de 2009

O Universal Circo Crítico... Dia do Consumidor...

"Um dia um excelente pescador estava voltando de mais um dia de pesca com o seu barco lotado de peixes (como de costume) e um amigo disse:
– Fulano, você é o melhor pescador destas redondezas, e porque não pesca o dia inteiro? Sempre sai de casa bem cedo e volta 10 horas da manhã e passa o dia sem fazer mais nada. Por que não pesca o dia todo, iria pescar muito mais peixe, poderia contratar empregados para te ajudar, poderia virar um grande empresário, com vários barcos, vários funcionários, e blá blá blá...
E o pescador pergunta para ele:
– Mas para quê você quer que eu faça isso tudo, ou construa isso tudo??
E o amigo responde:
– Oras, para ter muito mais dinheiro e ter uma vida tranquila.
Daí o pescador conclui:
– Mas é exatamente o que eu já tenho hoje, uma vida tranquila...."


Essa pequena história, enviada por uma amiga muito especial, meio que nos leva a refletir sobre o dia de ontem – 15 de março, que, diferente de outros anos, ganhou um pouco mais de destaque público, ainda que tímido.
Uma rápida pesquisa sobre “de quem foi a idéia” do dia do consumidor, nos leva a um discurso do então Presidente dos EUA, John Kennedy (em 15 de março de 1962) que, em síntese, defendia o direito do consumidor ser escutado... Estranho isso. Bom, ou seja, existe o Dia Mundial do Consumidor.
No Brasil, dois marcos, parecem-me, levaram esta data ganhar espaço (como disse, ainda que tímido): a instituição do Código de Defesa do Consumidor (veja que interessante: num 11 de setembro... em 1990) e a oficialização da data, pela Lei Federal nº 10.504, de 08 de julho de 2002.
Dados históricos a parte, fiquei pensando em algumas coisas sobre o dia, sobre o consumidor, sobre o consumo.
Primeiro: não existe o Dia do Cidadão. Procurei, pesquisei, google, wikipédia, acheaqui. Até em sítios virtuais de vendas (americanas, sony, submarino) eu procurei. Não tem. E se tiver, foi mais fácil encontrar informações sobre o dia do Consumidor. E, de cara, a primeira e mais fiel impressão de que fomos levados a nos sentirmos mais como consumidores do que como cidadãos.
Tudo bem que exista do Dia do Professor, o Dia do Motorista, o Dia do Aviador. Mas, todos eles e os demais (o índio, o negro, o ribeirinho) são, em síntese, consumidores. Essas e outras datas, inclusive, fazem de todos nós MAIS consumidores. Dia dos professores – compram-se presentes! Dia das Crianças – compram-se presentes! Dia da Páscoa – compram-se presentes! Natal, Dia da Mulher, Dia dos namorados e assim seguimos a sina de todos os Dias de Alguma Coisa: seguimos comprando.
E, neste sábado último, durante minha aula da Universidade, eu e meus alunos, quase todos no último ano de curso superior, assistimos a um vídeo interessantemente didático, sobre a origem das coisas, ou a história do consumismo, além de pesquisar uma coisa aqui, outra ali (não era a primeira vez que eu assistia). Cheguei a algumas pequenas, mas importantes, informações:
1. Consumimos o dobro do que se consumia a 50 anos atrás;
2. Nós já consumimos cerca 33% dos recursos naturais exterminados nas últimas três décadas;
3. Vivemos um tempo em que 5% da população mundial consome 30 % dos recursos naturais do planeta. Se o mundo consumisse igual aos EUA, precisaríamos de cinco planetas;
4. O Dia Mundial do Consumidor não reflete sobre aqueles que não tem nada para garantir sua posição de consumidor ou consumidora. Se não são consumidores, não têm valor;
5. O consumo nos levará a uma escassez de matéria prima que já produz legiões inteiras de andarilhos, constituindo inúmeros ambientes a um nível de erosão do eco sistema tão grande que obriga a essas legiões de nômades, cerca de 200 mil pessoas por dia, a se deslocam de suas raízes para um lugar que certamente não conhecem. E certamente continuarão a passar necessidades. Se juntarmos esse número ao de pessoas que fogem de suas casas, sua terra, sua gente por conta da guerra, esse número chegará a cerca de 500 mil pessoas/dia (ou mais). Essas legiões se transformam em pessoas que dão graças a Deus por conseguirem ser explorados... se chegarem em algum lugar.
Ah! É muito difícil levarmos nossas mentes e corações neste Dia do Consumidor a lugares tão longínquos assim? Então pensemos; por que raios o som da TV sempre aumenta “sozinho” na hora do comercial? Podem reparar, aumenta sim!
Pois bem... por essas e muitas, mas muitas outras, aquele e-mail, recebido por uma pessoa querida, diz muita coisa.
Eu espero que, neste dia que se passou, tenhamos enfrentado o consumo.
Que, neste Dia do Consum(idor)o, tenhamos olhado para as pessoas nos olhos, falado com elas, as escutado. Que tenhamos escutado nossas músicas preferidas, cantado nossas músicas. Quem sabe escrevermos músicas, poemas, crônicas, poesias novas e cantado e declamado gratuitamente. Que possamos ter dado muitos e muitos abraços, de graça, o tempo todo. Que possamos ter sorrido, desde aquele sorriso bobo, de canto da boca, tipo “saudade gostosa de sentir” da pessoa que se ama e, talvez, esteja longe até escancaradas e ensurdecedoras risadas, daquelas que quase tiram o fôlego. Que neste dia tenhamos olhado para frente, para o futuro e para o presente.
Talvez mais do que tudo isso, que neste dia e todos os dias que virão, possamos realmente compreender o que significa lutar pela vida, pela humanidade. E, oxalá, percebamos que a luta por uma vida melhor, não é uma luta individual e, muito menos, uma luta por mais coisas.
Quem sabe, em esse dia chegando e mais gente se vendo como sujeito da história da humanidade, ainda possamos fazer deste mundo, um mundo suficiente para que toda a humanidade siga feliz e revolucionariamente forte.
Feliz Todos os Dias de Luta!

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

sábado, 7 de março de 2009

O Universal Circo Crítico... as Mulheres da minha vida...

As mulheres da minha vida ensinaram-me a amar, ainda que não tenha aprendido direito. Sentava sempre no fundo sala, brincava com meus papéis, não prestava atenção nas aulas. Mas, mesmo assim, pacientemente, ensinaram-me a amar.
As mulheres da minha vida ensinaram-me a respeitar, mesmo que, algumas, poucas ou tantas vezes, não lhes desse o devido respeito. Porque eram bonitas, porque eram cheirosas, porque tinham cabelos que brilhavam, porque tinham uma pele macia, demorei a entender como deveria respeitá-las. Mas, ainda assim, respeitaram meu difícil tempo de aprendizagem.
As mulheres da minha vida ensinaram-me a música, as notas, a melodia, o solfejo, ainda que teimasse em escutar outras coisas. Demorei a ver em todas as minhas músicas, em todas as minhas letras, nas poucas que até foram gravadas, em cada nota que faço, em cada dedilhar que experimento, em cada dissonância que descubro os seus melodiosos ensinamentos. Mas, independente disso, elas cantavam em meus ouvidos.
As mulheres da minha vida ensinaram-me a ciência, mesmo que, certas vezes, provocasse explosões. Não foi fácil perceber o quanto as coisas, as matérias, as células, componentes inumeráveis fundiam-se e confundiam-se em algo que ia infinitamente além das simples combustão científica. Ainda assim, arrumavam pacientemente as conseqüências de minhas explosões e retomavam minhas lições.
As mulheres da minha vida ensinaram-me a partilha, ainda que tantos anos buscasse a solidão. Conversei inúmeras vezes comigo mesmo, com meu violão, com as folhas em branco na minha frente, com meu quarto fechado e silencioso, com meus cães, achando que havia aprendido a viver só e, na verdade, compreendia todas as minhas lições de partilha na solidão. E, quase eternamente, esperavam o meu retorno insólito, como se nunca houvesse partido, como se fosse absolutamente certo que a minha solidão era parte de meu aprendizado.
As mulheres da minha vida ensinaram-me o sorriso, ainda que eu acreditasse ver um rosto cerrado em frente ao espelho.
As mulheres da minha vida ensinaram-me tudo, absolutamente tudo sobre a beleza. E não importa, realmente não importa qual critério, qual parâmetro o mundo tente impor sobre o que é belo, elas me ensinaram a profundidade da beleza humana, mesmo quando não a sabiam.
As mulheres da minha vida ensinaram-me sobre as misturas, os sabores, os temperos. Ensinaram-me sobre o olhar, o tocar, os desejos. Ensinaram-me sobre subjetividades, sobre alegrias e sobre tristezas. Ensinaram-me o riso e o choro, o palco e a platéia, a verdade e a mentira.
As mulheres da minha vida ensinaram-me sobre a luta, tanto quanto sobre o medo. Ensinaram-me o quanto são corajosas quando erguem a cabeça e o quanto são fortes quando parece que não o fazem.
As mulheres da minha vida ensinaram, ensinam-me e, é verdade, continuarão a ensinar-me.
Meu único receio é as mulheres da minha vida abandonarem-me, mas de todas as coisas que elas ensinaram-me e que não aprendi direito é que sem elas nada sou. Se não forem mais, nada serei.
Em meio a infinidade de homenagens desta data, desde aquelas “promocionais” de varejo, até aquelas verdadeiras, que reconhece a história de luta das mulheres como parte da história de luta contra as forças opressoras do capital, faço minha pequena homenagem no Universal Circo Crítico que, sem as mulheres, não seria Universal, não seria Circo, não seria Crítico... Não seria.

Venham todas!
Venham todos!

Vida Longa às mulheres da minha vida! Muitas delas, não as conheço!
Vida Longa!


Marcelo “Russo” Ferreira

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Universal Circo Crítico... Conversa ao pé de ouvido de Gabriela...

“Um coração, de mel de melão
De sim e de não
É feito um bichinho no sol de manhã”
(Beto Guedes)
Olá, Gabriela. Pequena “enviada de Deus” ou “Força de Deus”, conforme a origem hebraica do nome Gabriel e a história que os livros nos ensinam sobre a origem de seu nome.
Celebramos sua chegada com bastante alegria. Primeiro, porque tens pais maravilhosos. Confesso que não conheço muito sua mãe, mas o seu pai, o bom e velho Alex (cabra de mil e um apelidos), ah! esse eu conheço de longa data, mesmo reconhecendo que estamos bem distantes (espacialmente falando) a muitos anos. Contamos com alguns encontros, vez por outra. A maior parte deles, em Recife, quando coincidia de lá estarmos. E, aí, a primeira referência para teres orgulho imensurável de seu pai.
Eu te explico: ainda na Faculdade, em Recife, trabalhamos juntos em um projeto de extensão universitária, com vôlei, para crianças, adolescentes e jovens da Comunidade Santo Amaro, que era ao lado da Escola Superior de Educação Física da UPE. Alternávamos final-de-semana um, final-de-semana outro. Em determinadas épocas, optávamos por trabalharmos juntos, porque queríamos desenvolver alguma coisa diferente e coletiva.
Foram dois anos de um belo trabalho e o resultado disso é que nossos alunos da comunidade sempre ficavam atentos às nossas passagens por Recife, para nos reencontrarmos. E isso continuará a acontecer por muitos e muitos anos, com toda certeza.
Para teres uma idéia do quanto nós “aprontamos” por lá, assim que saímos do Projeto (por conta de terminarmos nosso curso superior), a coordenação do projeto tentou implementar novas regras no projeto. Sempre ficamos com a sensação de que nossa presença, e de mais outros tantos companheiros/as de lá, retardavam essas tentativas de mudança, pois sabiam que iríamos impor restrições às mesmas. Mas não contavam que estávamos formando aqueles jovens, não apenas ensinando a jogar vôlei, futsal e basquete. As mudanças, mesmo depois que saímos, não foram implantadas (pelo menos nos primeiros anos após nossa saída), porque aqueles garotos e garotas sabiam tomar posturas coletivas, sabiam identificar verdades e máscaras, sabiam ouvir palavras e escutar entrelinhas.
Mas, neste dia 23 de fevereiro, em plena segunda de carnaval, estarás chegando. O dia seguinte será feriado, e que baita feriado. Penso que é em sua homenagem também.
Mas, como sempre faço em minhas humildes boas-vindas às/aos jovens-pequenas/os lutadoras/es do povo que se somam a nós, busquei mais sobre esse dia p’ra ti, e as lições que possivelmente nos ensinam tantos outros 23 de fevereiro’s. Aliás, foram muitos e muitos importantes 23 de fevereiro’s.
O seu dia é um dia em que, dentre tantas bandeiras e lutas, devemos sempre nos lembrar de enfrentarmos com dignidade e altivez a discriminação, pois é o dia do Surdo-Mudo. É neste dia em que irás seduzir inúmeros corações às sua volta (desde seu nascedouro), pois é o dia da sedução (essas baboseiras que o homem inventa para vendar mais alguma coisa). E, também, é o dia da Paz e da Compreensão Mundial. E, neste particular, a primeira lição: a paz e a compreensão mundial só tem valor real se constituídas num mundo de justiça e igualdade, num mundo em que não hajam exploradores e explorados. Essa, neste dia importante, há de ser nossa grande bandeira.
Interessante a origem de seu nome e a data em que nasceste – a referência cristã – pois, em 1455 a primeira impressão da Bíblia foi realizada, por Johannes Gutemberg. Seu nome verdadeiro era Johannes Gensfleisch e é considerado o criador da tipografia.
É neste dia do ano de 1961, ano em que o império norte-americano rompe com as relações diplomáticas com Cuba (seguido quase que imediatamente pela maior parte dos países latino-americanos), Ernesto Guevara (Che) é nomeado Ministro da Indústria. Segundo historiadores, ao assumir, Che disse aos seus: “Vamos passar cinco anos aqui e depois vamos embora. Dentro de cinco anos ainda estaremos em idade de poder fazer uma guerrilha”. A segunda lição: nunca acredite na possibilidade de que suas tarefas terminaram quando alcanças uma meta. Enquanto não transformares o todo, continues lutando.
Essa mania de os EUA acharem que tudo lhes pertence não é de hoje. A exemplo disso foi, dentre outras, a Batalha de Buena Vista, em 1847. E veja que interessante: as fontes históricas dizem que a batalha aconteceu “no México” e as forças americanas derrotaram as forças mexicanas na região conhecida como Texas, a terra do assassino mundial George W. Bush. A terra do petróleo americano (que não deu conta da voracidade consumista daquele “american way if life”). A terceira lição, querida Gabriela: a soberania de um povo é, talvez, o que ele tem de mais importante. Lute por ela, mesmo que sejam pedras contra canhões.
E para falar só mais uma vez dos EUA, veja se não é irônico, principalmente se considerarmos o fato de, hoje, aquele país é comandado por um Negro. Em 1861, o Presidente dos EUA, Abraham Lincoln, chega secretamente a Washington para assumir a presidência, após ter sofrido um atentado fracassado, em Baltimore. Escondido...
Muitos nasceram em 23 de fevereiro. Da minha parte e particularidade, dão mais sentido a esta data um camarada chamado Bezerra da Silva, um nordestino-carioca, que lançou cerca de 23 trabalhos (entre LP’s e CD’s), quase sempre marcados por sua irreverente maneira e popular linguagem com que descrevia o outro lado da trincheira da guerra civil não declarada, o lado daqueles que mais resistiam e ainda resistem. Nasceram também Aldo Rabelo, Peter Fonda e um piloto de avião que decididamente mudou a história da humanidade: Paul Tibbets, piloto do Enola Gay que lançou a bomba atômica em Hiroshima, em 6 de agosto de 1945. Mais uma lição, não só para ti, mas para todos nós, não concorda? O homem é capaz de construir para a vida o que constrói para o fim dela.
Ah! Tem uma coisa importante, que seus pais não podem esquecer: sua vacina contra a poliomielite. Até porque, foi em 23 de fevereiro de 1954 que o imunologista norte-americano, Jonas E. Salk, apresentou ao mundo a vacina para a pólio.
Somos, cara Gabriela, o único animal que sabe que irá morrer, e acho que é importante falarmos daqueles que se foram em um 23 de fevereiro. Particularmente, dois nomes me saltam aos olhos.
Foi em um 23 de fevereiro que morreu um dos maiores escritores russos de seu tempo, Aleksey Nikolayevich Tolstoy (1945), de vasta obra literária (ainda que não seja um de meus preferidos).
Porém, o mais importante, aquele que tombou em luta (pois sua morte foi consequencia de uma traição) em 1934: Augusto César Sandino, lider revolucionário nicaraguense que deixou um legado político e de luta e foi assassinado por Anastásio Somoza (que tomou por golpe aquele país).
E é lembrando de Sandino que me despeço neste momento, peqena Gabriela, novamente saudando a sua chegada. Que seja, também, a partir de agora, Dia de Gabriela:

“São demônios os que destroem
o poder bravio da humanidade.
Viva Zapata! Viva Sandino!
Viva Zumbi! Antônio Conselheiro!
E todos os panteras Negras
Lampião, sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia...”

(Chico Science e Nação Zumbi)

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa à Gabriela!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira