RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

domingo, 8 de novembro de 2009

Conversas ao pé de ouvido de Rudá...

“Todo mundo teve infância/

Maomé já foi criança/

Arquimedes, Buda, Galileu/

e também você e eu.”

(Saiba – Adriana Partimpim)


            Salve! Salve! Pequeno Rudá!

            Seja bem-vindo nosso Pequeno Grande Deus do Amor! Assim é seu nome.

            Ao sabermos de sua chegada (e, em tempos de avanços tecnológicos, essas notícias voam, voam), ficamos todos muito felizes, pois seus pais são amigos de longa, longa data. Mais do que amigos, são jovens lutadores do povo e, como tal, nos dão uma lição ensinada pelo Comandante Che Guevara há muitos anos: um grande revolucionário é movido por um grande sentimento de amor. Rudá, Deus do Amor, filhos de nossos Lutadores Janine e Antônio. Aí vem um grande líder.

            Chegaste em 03 de outubro de 2009, data que para este brincante paulipernamcandense (um dia explico esse palavrão) é uma das mais inspiradoras. É realmente uma data que, na história da humanidade, testemunhou fatos de toda grandeza, local ou mundial, particular ou geral. É tanta coisa, tantos fatos, tantas lições em um 03 de outubro, que até fica difícil comentar. Mas, papo ao pé de ouvido não pode deixar de acontecer e aqui vamos nós.

            Você nasceu em um dia o qual este país elegeu 04 presidentes pelo voto direto e universal e um pelo congresso em tempos de ditadura militar (e este presidente aniversariava também nesta data). Vale aqui menos os nomes e mais o fato de pensarmos na liderança, o seu sentido e o seu significado para a construção de uma sociedade e de um país. Presidentes devem ser líderes, devem conduzir seu povo na direção da consolidação de sua soberania e liberdade... não foi, de longe, o caso dos últimos eleitos nesta data (não apenas eles) e, por essas e outras, não quero sujar a ainda pequena história do Universal Circo Crítico colocando seus nomes aqui. Não nesta minha homenagem à sua chegada. De qualquer maneira, gostaria de deixar a primeira lição: seja, porque sabemos que será, um líder! Um líder do povo, pelo povo, para o povo e, sobretudo, COM o povo!

            E isso, realmente, se faz com luta e também temos lições de luta neste 03 de outubro, da qual gostaria de lembrar uma das mais importantes da história da humanidade, a luta contra o apartheid na África do Sul. Uma personagem importante nesta luta chama-se Nadine Gordimer, escritora sul-africana e ativista contra este regime que só serviu para testemunhar a ignorância do homem contra si mesmo. Quando, em 03 de outubro de 1991, ela recebeu o Nobel de Literatura, mais tarde declarou que o dia em que se sentira mais orgulhosa na sua vida, não fora quando recebeu o Nobel, mas quando, em 1986, testemunhara num julgamento, para salvar as vidas de 22 membros da ANC, acusados de traição. Ela era branca, filha de brancos, afrincânderes, que defendiam a supremacia branca sobre os negros e lutou contra isso, com suas obras e seu compromisso com a humanidade.

            O dia 03 de outubro nos deu uma “tuia” de grandes nomes, aqui e longe.

            Por exemplo, lá pelos idos de 1897, nasceu Louis Aragon, poeta e escritor comunista que, em 1957 recebeu o Prêmio Lênin da Paz. Alguns brasileiros também o ganharam: Jorge Amado, Oscar Niemeyer e Eliza Branco Batista (uma comunista brasileira que, num Desfile Militar de 07 de setembro em pleno governo Dutra, abriu uma faixa com os dizeres Os soldados, nossos filhos, não irão para a Coréia”, numa alusão a vontade do governo brasileiro de mandar seu exército na Guerra dos EUA contra a Coréia, nos anos 50), além de nomes como Fidel Castro, Pablo Neruda e Bertold Brecht. Talvez mais do que a bela obra de Louis Aragon, o reconhecimento de seu trabalho, principalmente as novelas e literaturas, na construção de uma juventude avançada e internacionalista, característica imprescindível da difícil arte de ser lutador do povo. A história deste prêmio, que reconheceu tantas pessoas importantes na história da humanidade, é a segunda lição que gostaria de deixar: lutar pela paz é lutar (com o amor do seu nome) contra todas as formas de exploração do homem pelo homem.

            Mas meu pequeno Rudá, veja só quanta gente BA-CA-NA nasceu em 03 de outubro e vou ficar, por hora, só na música, que é algo que tenho muito significativo na minha vida: Orlando Silva (um dos mais perfeitos cantores populares brasileiros), Zé Ramalho (cantor comprometido com seu povo e sua cultura, que não tem medo de cantar “bandeiras”) e Adriana Calcanhoto (que tem um trabalho que, espero, tu irás gostar muito no codinome de Adriana Partimpim). Ah! E também tem o Stevie Ra Vaughan... Sabe como é, né? Sou rockeiro e não dá para deixar de mencionar um dos maiores guitarristas do mundo, mesmo que ele já não esteja entre nós... Assim, espero que a arte, a música, o teatro, a pintura, a literatura, o conto... tudo isso esteja presente em sua vida, pequeno Rudá.

            Mas, também temos algumas “manchas” neste dia. Não culpa deste dia, mas, ainda, responsabilidade das ambições privadas humanas... Em 1942, a Alemanha de Hitler lança o foguete V-2, arma mortífera e secreta, antecedente a tecnologia espacial e em 1952, os britânicos explodem sua primeira bomba atômica, na Austrália. E por isso, aliás, contra isso, pequeno Rudá, que continuamos a ser lutadores do povo! Para lutarmos contra aqueles que querem apenas destruir-nos.

            Outros tantos nasceram e morreram, outros fatos na história, tantos 03 de outubro lhe homenageam ou deixam lições.

            Foi em 03 de outubro de 1968 (ano que todos os jovens deste país deveriam estudar com afinco e seriedade) que estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo da USP e os da Universidade Mackenzie entraram em confronto, naquilo que foi conhecido como a Batalha da Maria Antonia (uma rua de São Paulo). Nesta, os estudantes da USP se mobilizavam contra a ditadura e os da Mackenzie eram pró-militares. Tombou um jovem estudante de ensino médio (na época, era secundarista)...

            Mas a história da ditadura no Brasil, em que pese a perda, tem a sua luz: E essa data, Rudá, é realmente importante: Foi em 03 de outubro de 1913 que nasceu Hiram de Lima Pereira, jornalista potiguar (de Caicó), ator, poeta, militante e dirigente do Partido Comunista Brasileiro, Deputado Estadual cassado no RN (numa das maiores votações de um membro do PCB na história do Partido), militante nos anos de chumbo no Brasil e que tombou nos porões do DOI-CODI e, principalmente, meu avô! E, neste dia (ainda que não mais no exato dia de seu nascimento), quero extender um abraço carinho a ti e seus pais, abraço este que, tenho certeza, toda a família Pereira (filhas, netos/as, bisnetos/as e os que a ela se juntaram) quer dar. Descrever como seria cada abraço, cada carinho dos/as artistas, trabalhadores/as, atletas, militantes de nossa família para celebrar este 03 de outubro é algo praticamente impossível. Mas absoluto em nossos corações e história.

            A, assim, deixo-te de presente, pequenas palavras de Maria Célia, esposa de Hiram. Nossa vó que também era artista completa:


“Ama, com fervor/

E terás desta vida a razão/

Pois, só o amor/

Tem essência, tem luz/

Tem fascinação”

(Falando ao Coração)


            Assim é seu dia, Rudá!

            E por isso o saudamos...


            Vida Longa a Rudá!


            Venham Todos!

Venham Todas!


Vida Longa


Marcelo “Russo” Ferreira

quinta-feira, 5 de novembro de 2009



“O carimbó nunca morre,/

 quem canta o carimbo sou eu”

(Mestre Verequete)


E lá vai Mestre Verequete.

Lá vai Augusto Gomes Rodrigues, a alma, o corpo, a voz, a roupa, o ritmo, a vida do Carimbó, esse ritmo ímpar e plural, particular e universal da expressão mais rica da cultura paraense.

Não posso falar de Mestre Verequete... Não vivi intensamente sua obra.

Sobre sua partida, apenas uma razoável cobertura dos jornais locais, passou em branco nos nossos noticiários fundantes deste país. Mais uma vez o silêncio desta mídia suja, branca, elitizada.

Talvez porque fosse Mestre Verequete (não nossa mídia tupiniquim) nos deixasse como lições simples e necessárias a humildade e o respeito ao povo.

O Universal Circo Crítico presta sua mais absoluta humilde e popular homenagem ao Mestre dos Mestres do Carimbo:


“Ogum Balailê, pelejar, pelejar/

Ogum, Ogum, tatára com Deus/

Guerreiro Ogum tatára com Deus/

Papai Ogum, tatára com Deus/

Ogum, Ogum.


Chama Verequete, ê, ê, ê, ê./

Chama Verequete, ô, ô, ô, ô./

Chama Verequete, ruuum./

Chama Verequete, Oh! Verê!

Oi! Chama Verequete, Oh! Verê!”


Venham Todos!

Venham Todas!


Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

domingo, 1 de novembro de 2009

Silêncio...


“Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas fico calado,

faz de conta que sou mudo”

Meu País

(Orlando Tejo / Gilvan Chaves / Livardo Alves)

Silêncio... “estado de quem se cala / privação de falar / taciturnidade (arte de falar pouco)”, segundo o Aurélio... Assim passou o Universal Circo Crítico nas últimas semanas.

Não foi falta de assunto, como diria Oswaldo Montenegro em “Mudar Dói!” (mas não mudar dói muito). Foi apenas silêncio. Penso que, de um jeito ou de outro, mais ou menos (tempo absolutamente relativo em se tratando de silêncio), sozinho ou não, todos tem seus momentos de silêncio. Tive o meu.

Mas, ainda assim, e inspirado na voz de Zé Ramalho, na real, concreta e bela “Meu País”, meu silêncio, e consequentemente o silêncio do Universal Circo Crítico foi apenas de palavras ditas. Mas, sempre vendo tudo, fazendo de conta que somos mudos... mas. também somos mundo.

O silêncio recebeu Mariana no último dia 13 de outubro, a pequena já lutadora do povo, sobrinha de nosso grande Bruno (Brunão), nosso capoeirista humanizador e também lutador do povo que hoje se encontra lá pelas bandas de SC. Nossa pequena Mariana chegou entre nós com muita luta e assim seguirá sua vida, cercada de pessoas que a amam.

Nasceu também Rudá, mais um filho de lutadores do povo (Janine e Antônio) e que chegou com a melhor expressão daquilo que os une, pais e filho: a luta com amor! Em 03 de outubro, chegou Rudá, deus do Amor! Aliás, que dia especial para chegar o pequeno Rudá, vocês nem imaginam...

O silêncio também desvendou a ciência, a docência, a pesquisa... Ah! desvendou também seus olhares. Diferentes, divergentes, antagônicos olhares. E nós continuamos a defender que nem a ciência, nem a docência, nem a pesquisa e todas as ações e reações correlatas, direta ou indiretamente, não neutras. Ainda que digam que sejam neutros pesquisando, nunca o serão. E, ainda que não na sua superação de fronteiras, desvendou-se a ciência (e falo, neste momento, da Universidade Pública e das Entidades Científicas da Educação Física, onde circulo), comprometida com a manutenção do estado da arte de produtores (homens e mulheres) e seus produtos (resultado de seu trabalho) e continuaremos, infelizmente, testemunhando aqueles que formarão homens e mulheres para a subserviência. Eu não farei parte deste grupo.

O silêncio também angustiou. A América Latina, nossos “hermanos” continuam a nos dar lições de democracia e respeito à sua história. Bolívia, Argentina, Paraguai e, mais recentemente, o Uruguai vem abrindo seus podres porões da ditadura, os financiamentos dos EUA (e ainda mantém a Escola de Formação Militar que baseou a formação dos ditadores latinos), a prisão e condenação dos assassinos e torturadores. Nada disso mexeu um centímetro, uma grama, um mililitro sequer da paz e serenidade de seus estados, e o Estado Brasileiro continua guardando os cofres da ditadura a sete chaves. Na única (pseudo)demonstração de ir à fundo das atrocidades daqueles anos de chumbo (a busca de covas no Araguaia), é justamente as Forças Armadas que estão à frente. A soberania do povo brasileiro se fortaleceria imensuravelmente a partir do momento em que ela dominasse sua história... presente, passada e futura.

O silêncio me fez, mais uma vez, enojar diante de nossa mídia e de nosso jornalismo. Por que 7 mil pés de laranja, se foram 3 mil pés...? E eu não disse “só” 3 mil pés. Mas, porque aumentar? Aliás, 0,25% do total de pés de laranja da Cutrale. E por que assentir à farsa dos equipamentos danificados, se foram todos retirados da oficina da própria Cutrale e espalhados pelo pátio para dar a dimensão de dano provocado pelos Sem Terra? O tal do jeitinho brasileiro para recuperar a oficina, repleta de sucata, ás custas dos Movimentos Sociais ou, em última instância, do Estado? Por que não explicar, na notícia, o que significa 1,2 milhões de pés de laranja? Como assim “produtivo”, se é produção para exportação, apenas? Esse silêncio midiático não é justo, não é honesto e não é ético... Mas um Estado que permite que apenas seis grupos controlam toda a comunicação de um país, nada mais respondido.

Durante meu silêncio, minhas pequenas potiguares primas atletas ganharam medalhas. Illaninha pegou um bronze em Ginástica de Solo em Recife e Dinahzinha ganhou ouro e prata nos Estados Unidos (um tal de “Disney Martial Arts Festival” – nome repleto de contradições), em uma competição de Kung Fu. E, claro, as reflexões referentes a Rio 2016 (Olimpíadas ou Jogos Olímpicos?), que já fazem parte de minhas reflexões científicas, acadêmicas, docentes e políticas, passaram a compor as minhas reflexões familiares.

Durante o silêncio, prevaleceu o preceito de Orlando Tejo, Gilvan Chaves e Livardo Alves, em “meu país” que só uma voz de um cabra como Zé Ramalho pra gravá-la e publicizá-la, em detrimento do lixo artístico-musical que constantemente é lançado em nossos ouvidos.

“Um país que perdeu a identidade / Sepultou o idioma português / Aprendeu a falar pornofonês / Aderindo a global vulgaridade / Um país que não tem capacidade /
De saber o que pensa e o que diz / E não pode esconder a cicatriz / De um povo de bem, que vive mal / Pode ser o país do carnaval / Mas não é com certeza o meu país (...) Um país que dizima sua flora / Festejando o avanço do deserto / Pois não salva o riacho descoberto / Que no leito precário estertora / Um país que cantou e hoje chora /
Pelo bico do último concriz / Que florestas destrói pela raiz / E o grileiro de porre entrega o chão / Pode ser que ainda seja uma nação / Mas não é com certeza o meu país”

Tô vendo tudo...

Venham Todos!

Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Argentina chora...

"Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza(Meu passado retrocede quando o teu avança) /
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido(O arco das alianças penetrou no meu ninho) /
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas(Com todo seu colorido passeou por minhas veias) /
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino(E até a dura corrente que ata nossos destinos) /
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.
(É como um diamante valioso que ilumina minha alma serena)"
(Violeta Parra)

Domingo, dia 04 de outubro de 2009.
Esta data ficará na alma e na memória do povo latino-americano, assim como tantas outras datas que, na história deste povo ímpar na luta mundial por justiça e paz, se fizeram presentes de maneira permanente e eterna.
Neste 04 de outubro, nossos hermanos latinos, o povo argentino, homens e mulheres de um país sempre cantado e decantado em terras brasilis, sobretudo na mídia esportiva e política, por seu futebol rivalmente estabelecido em nosso país e pelas constantes perseguições burguesas e conservadoras de nossos analistas políticos.
Há tempos aprendi a descartar profundamente essa relação absurda que temos com nossos/as companheiros/as e camaradas latinos/as, numa explícita postura fazer com que o Brasil “dê às costas” à América Latina. À bem da verdade, postura pseudo-soberana aprofundada pelo sociólogo-presidente que, sem memória, pedia que não o lembrassem de suas outras vidas.
De certa maneira, aprendi a ver o povo argentino, paraguaio, uruguaio, boliviano, venezuelano, equatoriano, peruano, chileno para além do que aquela “caixinha de fazer doido” (como se referia mainha à televisão) nos ensinou, ou pelo menos assim tentou. Aprendi isso principalmente com minha relação de aprendiz e ensinante com o MST e, também, escutando Mercedes Sosa.
A Argentina chora e precisamos aprender com o choro deste povo o real significado de sua história e de sua voz. Assim como devemos aprender a não esconder nossa história debaixo de tapetes morais de taberna. Assim nos ensinou a Argentina, como também o Chile. Essa lição, o Brasil, com sua grandiosidade, não conseguiu aprender.
A Argentina chora a perda de sua voz mais bela, mais real, mais profunda. Deixa-nos Mercedes Sosa, deixa-nos sua bela voz, fica, para nós, a sempre bandeira do povo latino: somos um só, latino, povo latino.
A voz de Mercedes Sosa, em que pese nossa pífia indústria cultural (permitam-me a redundância) ocupa a história dos lutadores brasileiros, numa justa identificação deste com o sangue da América Latina. A despeito do lixo cultural que entra em nossos lares cotidianamente, essa fantástica mulher cantou versos de Violeta Parra (compositora chilena sempre comprometida com o povo sofrido de seu país), Silvio Rodrigues, Joan Baez (que cantou melhor do que ninguém “Don’t Cry for me Argentina!”), Lion Gieco, além de nossos grandes nomes brasileiros, como Chico Buarque e Milton Nascimento.
O Universal Circo Crítico presta sua pequena homenagem a voz dos peregrinos, à voz dos pobres, à voz dos lutadores e lutadoras do povo.
Gracias a La Vida!
Gracias à Mercedes Sosa!

“Só peço a Deus /que a dor não me seja indiferente/ que a seca morte não me encontre / vazia e só sem ter feito o suficiente.
Só peço a Deus / que o injusto não me seja indiferente / que não me esbofeteiem a outra bochecha /Depois que uma garra me arranhou essa sorte
Só peço a Deus / que a guerra não me seja indiferente / É um monstro grande e esmaga / Toda pobre inocência da gente
Só peço a Deus / que o engano não me seja indiferente / Se um traidor pode mais que uns quantos, / que esses não esqueçam facilmente
Só peço a Deus /que o futuro não me seja indiferente, / Desiludido está o que tem que marchar / para viver uma cultura diferente”.
(Sole Le Pido a Dios – Leon Gieco)
Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa à Mercedes!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lições de um tempo que já passou... Um dia de aniversário...

“Feliz Aniversário/
Envelheço na cidade”

(Ira)


São realmente inúmeras as passagens que temos em nossa memória, principalmente quando nos aproximamos ou já adentramos aos novos caminhos daquilo que coloquialmente convencionou-se a ser apelidado como “os entas” (40, 50, 60...). Aliás, foi assim que inaugurei a seção de “Lições de um tempo que já passou”, neste Circo. Inaugura-o falando de uma passagem vivida em idos 3 anos de idade, o pequeno “palhacinho”. O interessante daquela passagem foi a manifestações de amigos ao longo da vida, dizendo que conheciam aquela Rua, aquela “vilinha”... Se o mundo é pequeno, imaginem a Vilinha...
Pelo terceiro ano seguido, passo um 22 de setembro por essas bandas virtuais (a primeira celebração brogueira de meu aniversário foi, na verdade, no saudoso ArcaMundo) e acabei, hoje, por ficar recordando, logo quando estava acordando, as histórias de meus 22’s de setembro’s, talvez não os 40 (não tenho a mínima idéia do que aconteceu no meus primeiros três aniversários, apenas a impressão de que algumas cenas que ficaram em minha memória diziam respeito a eles), mas uma parte significativa deles: criança, adolescente, jovem, adulto... alguns com uma energia palpitando imensuravelmente, outros desafiando-me insistentemente.
Passei alguns aniversários em silêncio. Coisas da vida, a internet ainda não fazia parte de nosso cotidiano; Orkut, então, nem pensar!!!
Particularmente, recordo de um 22 de setembro de lições, mais do que de festa (festa, tipo festa mesmo). Lições que puderam ser celebradas por dias antes e dias depois daquele 22 de setembro, razoavelmente recente.
Passei, em um determinada época de meus ares pernambucanos, um período um tanto quanto recluso. Acho, sinceramente, que todos merecem seus períodos de recluso, e merecem, também, tê-lo no tempo e espaço que acharem necessário. Foi, à bem da verdade, um período interessantemente produtivo, nas minha viagens científicas e musicais, amadurecendo meu trabalho docente (Ah! Que saudades do Projeto Nossa Escola!), a minha luta e seus devidos e necessários aprendizados. Enfim, uma reclusão que não se tratou propriamente de sumir do mapa, mas de algumas coisas e pessoas importantes não estarem tão próximas, mais por meu protagonismo.
Era ainda a virada do ano (ou seja, nove meses antes deste particular 22 de setembro) e estávamos celebrando mais um Natal, mais um aniversário do querido Ardigam “Bucho de Zebra” (como meus amigos da época do Movimento Estudantil chamavam painho), e a vinda de parentes do Rio de Janeiro para aqueles dias. O particular daquele ano? O difícil caminho de reaproximação, após alguns anos de silêncio recíproco. Meses depois, em um final de semana de agosto, em um Dia dos Pais, um livro de presente e, finalmente, o 22 de setembro.
Um dia de certa tranqüilidade, aulas no mestrado, dia de estudos e uma passada na casa de (já reaproximado) painho e Glauce, pois esta havia dito “venha almoçar aqui em casa hoje, visse?”.
Por lá, naquele jeito único, característico de painho, um livro: Chatô! O Feliz Aniversário expresso mais do que na obra literária, expresso mais do que no presentear, ato contínuo e contraditório de consumo e do compartilhar. O Feliz Aniversário em todos os seus pequenos atos, que implicava em dizer, sem pronunciar necessariamente essas palavras, “estamos bem e felizes de novo!”. Palavras nunca ditas, mas eternamente expressadas.
... e ainda não cortei o cabelo, a única coisa que ele queria...

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!


Marcelo “Russo” Ferreira


P.S.: Hoje é aniversário de minha jovem irmã, filha de Glauce. Exatos 10 anos de diferença. Ela está em Angola, longe, longe... Feliz Aniversário, Silvinha.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Carta a um amigo - Belém, 08 de setembro de 2009

“Meu caro amigo me perdoe por favor,
Se não lhe faço uma visita...”
(Chico Buarque).

Olá, velho/a amigo/a
Como sempre, espero que esta que agora chega em suas mãos o/a encontre em paz e harmonia, sem nunca perder, claro, a indignação e a esperança, par necessário à vida e à luta por um mundo melhor.
Da última vez que te escrevi, pedia-lhe “desculpas” por tanto tempo sumido. E cá estou de novo, sete meses depois, tendo que pedir-lhe, num tom mais “nordestes” que releve essa nova demora. Os caminhos foram muitos, o trabalho também... Mas nada que concretamente justifique essa ausência. Foi “farrapage”, reconheço... Mas minha memória e carinho por nossa amizade, ah! essa nunca farrapa (percebeste como estou mais para Pernambuco do que para o Pará... mas continuo, firme, forte e feliz por essas terras nortistas).
Da última vez que escrevi para ti, falava que as coisas estavam se ajeitando, mas prometia comentar mais sobre o assunto em uma próxima carta. É, parece-me que, mesmo distante, essa é a “uma próxima carta”.
Os amigos da terra, de lutas candangas, estão se fortalecendo cada vez mais. Organizando-nos em Movimentos Sociais (caso do Movimento Nacional Contra a Regulamentação do Profissional de Educação Física – MNCR, não sei se já comentei isso contigo) ou sempre nos aproximando de outros históricos Movimentos, como o MST (que, aqui no Pará, ainda que não seja exceção país afora, enfrenta só barra pesada), construindo trabalhos com os nossos alunos na Universidade. Já nos “inxirimos” até em organizar um Seminário Interativo, dá pra tu? Neste próximo semestre tem mais.
Que mais? Música, ainda que não esteja compondo, voltou a “compor” (sacou? Compondo, compor... rss) a minha vida. Mais violão, mais música em casa, e uma parada maneira com um grande amigo, um trabalho acústico, bacaninha. Em breve, estaremos fazendo sucesso, espere só p’ra ver. É como Saltimbancos: já estão o Jumento e o Cachorro, só faltam a Galinha e a Gata. “Dórme a cidade / Résta um coração / Misterioso / Fáz-se uma ilusão...”
A minha casa está se arrumando também. Espero, mas espero mesmo, dar de presente à Kaia, Hércules e à mandona – com eles – da Janis Joplin mais um espaço por aqui. Já coloquei um muro na frente de casa, prontinho para receber um portão. Quando isso acontecer, a molecada – meus cães, assim os chamo – poderá ficar mais pela garagem, que, cá p’ra nós, por minha casa ser nascente, é bem mais fresco durante o dia. Depois, com calma, a cozinha, o quarto novo, a transferência do meu escritório para o quarto velho, a ampliação da garagem – mais espaço para a molecada – o quintal com grama, piso no lugar do cimento... Acho até que pode demorar um pouquinho. Mas quem é que está com pressa? Oxi! É meu lado baiano rss.
Na Universidade, as coisas também vão acontecendo, no ritmo e, já era hora, no enfrentamento conceitual necessário. Diga-me, caro/a amigo/a: o que pensas sobre a ciência? Essas semanas que se passaram, em uma lista de discussão que participo na internet (uma sala de bate-papo “sem” tempo real, vamos dizer), um professor daqui destas bandas poetizava “A ‘ciência é neutra’! Isso é papo furado!”. Se puderes visitar, acho que vais gostar do que ele escreveu:
http://www.mncrbelem.blogspot.com/. Também andamos debatendo isso dentro da sala de aula, principalmente na disciplina à qual sou titular (Prática de Ensino). Mas, diz aí. O que pensas sobre a ciência?
Ah! Mas teve uma coisa bacana, tu vais até estranhar, mas é da contradição e da dialética mesmo. Estou com uma dupla de orientação de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – são seis orientações, 01 co-orientação e umas “ajudinha aí, professor!” a mais – que me colocou numa prova de fogo instigante. Ela (a dupla) diverge de minha base conceitual e a orientação continuou mesmo assim. Por que é bacana? Oras, porque estou fortalecendo a minha defesa de “capacidade de autonomia intelectual” com meus alunos, sobre o que estudam, o que escrevem, contra o que escrevem e isso é fan-tás-ti-co! na formação de jovens universitários, sempre acostumados a receberem os conteúdos como verdades-verdadeiras, imutáveis e inquestionáveis. E, agora, fortalece-se essa capacidade de discordar e, mais ainda, de argumentar teoricamente com seu próprio ponto de vista. Tá certo, tenho uma “perda” do ponto de vista conceitual, mas é assim mesmo, vou aprimorando minha capacidade de argumentação e convencimento, também. Mas, ainda assim, inigualável alegria de provar a meus alunos, por eles mesmoa, que sim, eles podem ser... ser... égua! Ser donos de seu pensamento! Isso é revolucionário, não acha?
Mas me conte: soltaste sua vontade em escrever muitas coisas, sem parar? E as sementes que disseste que levaste do Fórum Social Mundial, estão crescendo? Lembro que comentaste também, na resposta da minha última carta, que irias montar um blog. “A soma das coisas”, se não me engano. E então? Como está esta conta? E a poesia de luta? A indignação poética? Conte-me tudo, ok? Demorei para responder-te, mas não a tempo e velocidade para nossa amizade.
No mais, caro amigo/a: Hércules, Kaia e Janis Joplin vão bem, e o muro subiu um pouquinho. Bom para eles e para os vizinhos, que viviam levando susto, principalmente do Hércules.
Continuo cantando, brincando, lutando (que a luta é necessária) e acreditando, como sempre.
Espero vê-lo/a em breve. Ando com saudades de vocês.
Forte abraço
Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira


P.S.: isso é apenas uma carta. Ajuda para retomar o espaço do Universal Circo Crítico, mas não é, acredito, algo que valha a pena ser plagiado.

Deu na Carta Capital... Anos de Chumbo...

"A semana
No Chile não tem conversa: a história manda prender torturadores.
No Brasil, uma parcela minoritária das Forças Armadas e da opinião pública consegue, de tempos em tempos, o menor indício de avivamento do debate em torno da responsabilização legal dos envolvidos nas torturas, desaparições e assassinatos cometidos por representantes do Estado, durante a ditadura que vigorou no País entre 1964 e 1985. No Chile, a história se desenrola de outra maneira.
Na quarta-feira 2, a Justiça chilena expediu a ordem de prisão de 131 ex-militares e policiais envolvidos em ilegalidades de natureza semelhante, na maior ofensiva até aqui registrada contra aqueles que participaram da repressão promovida pelo regime do general Pinochet. No total, aproximadamente 500 ex-militares são objeto de investigação e poderão ter o mesmo destino dos 131.
Algumas dessas violações aos direitos humanos foram cometidas em casos envolvendo a colaboração dos regimes de exceção que vigoraram, na década de 1970, em vários países da América do Sul, empreitada batizada por seus partícipes de Operação Condor. Como se sabe, a repressão chilena, a essa altura dispôs da decisiva colaboração de militares brasileiros para levar adiante os seus crimes."
(Carta Capital - nº 562 - 09 de setembro de 2009 - pg 24)

Vire e volta, o tema toma corpo.
O que é intrigante (e a matéria de Carta Capital é perfeita nessa análise – e nem é tão grande assim) é que ainda vivemos no mundo da parcela minoritária ditando o ritmo.
Não convence mais a idéia de que seria um perigo à soberania do país abrir os arquivos, colocar no banco dos réus os responsáveis pelas atrocidades cometidas contra muitos brasileiros e brasileiras nos anos de chumbo nada brandos da ditadura militar deste país. E devemos fazê-lo, inclusive, pelo bem da história do País, pela memória, pela soberania deste povo.
Como exemplo, basta verificarmos que nossa juventude hoje sequer consegue diferenciar o que foi o movimento “Diretas Já”de 1984 do que aconteceu em 1992, com os chamados (sempre desconfiei deste elogio da imprensa nativa, principalmente Veja, Folha, Isto É etc.) “Catas Pintadas”. Afinal, como a juventude engole Fernando Collor de Melo não apenas ser Senador, mas inclusive ocupar a Academia Alagoana de Letras?
Ainda temos muito o que registrar...
Venham Todos!
Venham Todas!
Vida Longa!
Marcelo "Russo" Ferreira