RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

domingo, 1 de novembro de 2009

Silêncio...


“Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas fico calado,

faz de conta que sou mudo”

Meu País

(Orlando Tejo / Gilvan Chaves / Livardo Alves)

Silêncio... “estado de quem se cala / privação de falar / taciturnidade (arte de falar pouco)”, segundo o Aurélio... Assim passou o Universal Circo Crítico nas últimas semanas.

Não foi falta de assunto, como diria Oswaldo Montenegro em “Mudar Dói!” (mas não mudar dói muito). Foi apenas silêncio. Penso que, de um jeito ou de outro, mais ou menos (tempo absolutamente relativo em se tratando de silêncio), sozinho ou não, todos tem seus momentos de silêncio. Tive o meu.

Mas, ainda assim, e inspirado na voz de Zé Ramalho, na real, concreta e bela “Meu País”, meu silêncio, e consequentemente o silêncio do Universal Circo Crítico foi apenas de palavras ditas. Mas, sempre vendo tudo, fazendo de conta que somos mudos... mas. também somos mundo.

O silêncio recebeu Mariana no último dia 13 de outubro, a pequena já lutadora do povo, sobrinha de nosso grande Bruno (Brunão), nosso capoeirista humanizador e também lutador do povo que hoje se encontra lá pelas bandas de SC. Nossa pequena Mariana chegou entre nós com muita luta e assim seguirá sua vida, cercada de pessoas que a amam.

Nasceu também Rudá, mais um filho de lutadores do povo (Janine e Antônio) e que chegou com a melhor expressão daquilo que os une, pais e filho: a luta com amor! Em 03 de outubro, chegou Rudá, deus do Amor! Aliás, que dia especial para chegar o pequeno Rudá, vocês nem imaginam...

O silêncio também desvendou a ciência, a docência, a pesquisa... Ah! desvendou também seus olhares. Diferentes, divergentes, antagônicos olhares. E nós continuamos a defender que nem a ciência, nem a docência, nem a pesquisa e todas as ações e reações correlatas, direta ou indiretamente, não neutras. Ainda que digam que sejam neutros pesquisando, nunca o serão. E, ainda que não na sua superação de fronteiras, desvendou-se a ciência (e falo, neste momento, da Universidade Pública e das Entidades Científicas da Educação Física, onde circulo), comprometida com a manutenção do estado da arte de produtores (homens e mulheres) e seus produtos (resultado de seu trabalho) e continuaremos, infelizmente, testemunhando aqueles que formarão homens e mulheres para a subserviência. Eu não farei parte deste grupo.

O silêncio também angustiou. A América Latina, nossos “hermanos” continuam a nos dar lições de democracia e respeito à sua história. Bolívia, Argentina, Paraguai e, mais recentemente, o Uruguai vem abrindo seus podres porões da ditadura, os financiamentos dos EUA (e ainda mantém a Escola de Formação Militar que baseou a formação dos ditadores latinos), a prisão e condenação dos assassinos e torturadores. Nada disso mexeu um centímetro, uma grama, um mililitro sequer da paz e serenidade de seus estados, e o Estado Brasileiro continua guardando os cofres da ditadura a sete chaves. Na única (pseudo)demonstração de ir à fundo das atrocidades daqueles anos de chumbo (a busca de covas no Araguaia), é justamente as Forças Armadas que estão à frente. A soberania do povo brasileiro se fortaleceria imensuravelmente a partir do momento em que ela dominasse sua história... presente, passada e futura.

O silêncio me fez, mais uma vez, enojar diante de nossa mídia e de nosso jornalismo. Por que 7 mil pés de laranja, se foram 3 mil pés...? E eu não disse “só” 3 mil pés. Mas, porque aumentar? Aliás, 0,25% do total de pés de laranja da Cutrale. E por que assentir à farsa dos equipamentos danificados, se foram todos retirados da oficina da própria Cutrale e espalhados pelo pátio para dar a dimensão de dano provocado pelos Sem Terra? O tal do jeitinho brasileiro para recuperar a oficina, repleta de sucata, ás custas dos Movimentos Sociais ou, em última instância, do Estado? Por que não explicar, na notícia, o que significa 1,2 milhões de pés de laranja? Como assim “produtivo”, se é produção para exportação, apenas? Esse silêncio midiático não é justo, não é honesto e não é ético... Mas um Estado que permite que apenas seis grupos controlam toda a comunicação de um país, nada mais respondido.

Durante meu silêncio, minhas pequenas potiguares primas atletas ganharam medalhas. Illaninha pegou um bronze em Ginástica de Solo em Recife e Dinahzinha ganhou ouro e prata nos Estados Unidos (um tal de “Disney Martial Arts Festival” – nome repleto de contradições), em uma competição de Kung Fu. E, claro, as reflexões referentes a Rio 2016 (Olimpíadas ou Jogos Olímpicos?), que já fazem parte de minhas reflexões científicas, acadêmicas, docentes e políticas, passaram a compor as minhas reflexões familiares.

Durante o silêncio, prevaleceu o preceito de Orlando Tejo, Gilvan Chaves e Livardo Alves, em “meu país” que só uma voz de um cabra como Zé Ramalho pra gravá-la e publicizá-la, em detrimento do lixo artístico-musical que constantemente é lançado em nossos ouvidos.

“Um país que perdeu a identidade / Sepultou o idioma português / Aprendeu a falar pornofonês / Aderindo a global vulgaridade / Um país que não tem capacidade /
De saber o que pensa e o que diz / E não pode esconder a cicatriz / De um povo de bem, que vive mal / Pode ser o país do carnaval / Mas não é com certeza o meu país (...) Um país que dizima sua flora / Festejando o avanço do deserto / Pois não salva o riacho descoberto / Que no leito precário estertora / Um país que cantou e hoje chora /
Pelo bico do último concriz / Que florestas destrói pela raiz / E o grileiro de porre entrega o chão / Pode ser que ainda seja uma nação / Mas não é com certeza o meu país”

Tô vendo tudo...

Venham Todos!

Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

12 comentários:

  1. "Thábyta"01 novembro, 2009

    O teu silêncio foi percebido e assim como ele a saudades de ótimas leituras!!! Bom vê-lo novamente... E que assim continue por muito tempo!!!

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  2. O Silêncio faz destas, né Tabita? Ajuda para refletirmos mais pacientemente e nos faz perceber que poderíamos ter falado mais...
    Sempre feliz por sua visita ao Universal Circo Crítico

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  3. O silêncio pode ser uma resposta irritante, impura e amoral. Não podemos escutar realmente o silêncio? O que dizer quando não temos o que dizer no vazio hemético do desconhecido.

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  4. É verdade, Daniel... Nossa mídia, como citei no texto, é um exemplo do silêncio em sua forma irritante e amoral. Mas, cá p'ra nós, sempre temos o que dizer, não concorda?
    Obrigado pela visita... espero que se repita sempre...

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  5. Em um mundo cada vez mais amargurado pelos estreitos limites do pensamento, quão necessário é uma atividade de contemplação silenciosa! Agir a partir do silêncio, penso que é fundamental para uma ação realmente significativa. A exemplo disso temos seu texto...Agradecida por mais este. Bjo.

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  6. Oi menino, "...não haveria sons, se não houvesse o silêncio..." , tirei de uma música q meus neurônios se recusam a lembrar a fonte e a letra completa...rs

    Gosto do silêncio, por isso preciso estar em um lugar onde eu possa escolher entre ele e os sons. Entre estar sozinha (não confundir com solitária...rs) ou rodeada de pessoas.

    Geralmente, quem tem medo do silêncio ou do estar sozinho/a, é alguém não tão acostumado com a sua própria companhia.

    bjs e seja bem vindo menino

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  7. Estava procurando palavras e encontrei o teu silêncio.
    :-)

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Olá, Marcelo. Na verdade, este silêncio da mídia sempre me irritou e angustiou. Falar apenas o que interessa aos grupos e classes dominantes é muito angustiante, não esclarecer que tal terra é do governo e está nas mãos de um capital privado que não produz alimentos...
    Não esclarecer que a reforma agrária luta contra a fome "em grandes plantações", como dizia Vandré...
    Esta fumaça oportunista das informações da mídia sempre me angustiou.

    Muvabreijos

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  10. Camila, Vejuse, Heliene, Joanna... que bom ver vocês por aqui.
    Acho que posso tentar sintetizar esse diálogo com vocês: o silêncio também é revolucionário! Principalmente por conta do que fazemos com ele.
    Vida Longa!

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  11. Carlos Magno04 novembro, 2009

    Parla Marcelo!!!!
    Que silêncio...

    Como disse o Lenine...

    Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
    O que não pode ser dito, afinal
    Ser um homem em busca de mais, de mais...
    Afinal, como estrelas que brilham em paz, em paz...

    Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
    Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
    Como um deus e amanheço mortal

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  12. Grande Lenine...
    Grande Carlinhos...
    Valeu o apreço...
    Vida Longa

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O Universal Circo Crítico abre seu picadeiro e agradece tê-lo/a em nosso público.
Espero que aprecie o espetáculo, livre, popular, revolucionário, brincante...! E grato fico pelo seu comentário...
Ah! Não se esqueça de assinar, ok?
Vida Longa!
Marcelo "Russo" Ferreira