RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

sábado, 22 de outubro de 2011

O Universal Circo Crítico... Dilemas da Educação...


“(...) Uma das nossas brigas na História (...) é exatamente esta:
fazer tudo o que possamos em favor da eticidade,
sem cair no moralismo hipócrita,
ao gosto reconhecidamente farisaico”
(Paulo Freire – Pedagogia da Autonomia)


            Nestes tempos últimos, andando pelos corredores da Universidade onde trabalho, me chamou a atenção a quantidade de cartazes pregados nas paredes, alguns inclusive dentro de salas de aula.
            Minha primeira reação, incômoda, foi a de que cada vez mais não nos importamos com o que é ou deixa de ser “sujar”... Cartazes, informativos, avisos são sempre úteis, para um ou para outro. Um Congresso aqui, um grupo de estudos e/ou orações ali, uma atividade no Campus puxado por uma das Faculdades que ali estão, divulgação de edital, seleção para bolsa... Sim, sujamos mas são informações (com pesos diferentes a cada olhar) aparentemente importantes. E talvez por isso não nos importamos tanto com a sujeira.
            Chamava a minha atenção, também, que eles eram colocados à revelia. Seus interessados primeiros (quem promove o evento, quem organiza o grupo) pacientemente vão colocando seus cartazes em lugares – à eles – estratégicos, no sentido de fazer chegar ao maior número possível de pessoas a informação que desejo passar, comunicar... vender.
            Mas, um daqueles cartazes se destacou e, claro, foi alvo de algumas conversas de corredor e, mais pontualmente, de uma manifestação minha institucional. Mas isso (a manifestação) importa menos aqui.
            Falo de um Congresso: Congresso Nacional de Aprendizagem, vulgo CONAP. Um Congresso, no âmbito da Universidade, sempre nos leva a compreendê-lo como um evento que irá aglutinar pesquisadores, professores, intelectuais (distantes ou próximos da realidade e prática social) e, ao mesmo tempo, apresentar este universo de “Congresso” a estudantes universitários, alunos em fase de iniciação de pesquisa etc. Aconteceu entre os últimos dias 14 a 16 de outubro, coincidentemente, no feriado do dia do Professor.
            Falo de um Congresso Brasileiro e, como tal, que nos permite imaginar a presença de pessoas – com o perfil acima – de todo o Brasil, de pessoas que, talvez, conheçamos apenas por livros.
            Falo de um Congresso Brasileiro de Aprendizagem, um tema que a história da humanidade sempre registrou, desde o pensamento mais positivista e “comportamentalista” até o mais revolucionário, com compromisso social e popular. Portanto, um tema importante para a humanidade.
            Discutir a aprendizagem (um universo significativamente grande) em nível nacional em um congresso. Isso acontecendo na região nordeste do Norte brasileiro. Ao “pé” do Cartaz, uma importante informação: “O Maior Congresso Universitário do Norte do País”.
            Sim... isso vale a pena divulgar, em que pese as reflexões sobre a possível poluição nas paredes (inclusive de sala de aula) de uma Universidade Pública.
            Se não fosse por alguns detalhes...:
Inicialmente, falando do cartaz, algumas informações são um tanto quanto “relevanteadas” (ou seja, tornadas mais relevantes que outras). Um exemplo são as atrações nacionais (sim, é importante divulgar a parte cultural de um evento desta magnitude): Mulher Melância (assim mesmo, com acento circunflexo) e Bonde do Tigrão são as principais atrações e divulgadas com espaços significativos no cartaz.
Por outro lado, logo abaixo (no cartaz) a programação de “palestrantes” (é nisso que se ocupa o Congresso... palestras). Até conseguimos ler os nomes dos palestrantes mas, para saber qual tema irão abordar, temos que nos aproximar do cartaz... Não apenas eu, no alto dos meus 42 anos (e usando óculos), mas também todos os que eu perguntava, com o cartaz na mão, “qual é o primeiro tema de palestra?”.
Desta programação destaco o empresário, arquiteto e urbanista (fonte Times New Roman 0,5) Herlon Oliveira, que versará sobre “A Tecnologia a Serviço da Construção Civil e da... Preservação do Patrimônio Histórico”... bem abaixo das atrações acima citadas.
Pode ser que eu esteja ficando velho, mais conservador do que revolucionário (aprendiz de lutador do povo é assim, precisa compreender e enfrentar suas incoerências e contradições). Mas segui compreendendo o cartaz.
As fotos? Além, claro, das atrações culturais (sic!) e dos rostos dos palestrantes (cada um no seu devido tamanho e... perfil), fotos o Hotel (de lado, do alto), foto “da galera” (talvez do CONAP anterior) e das inúmeras outras paisagens locais. E outra informação importante: “Certificado de 30 h e Muito mais...” Muito com “M” maiúsculo...
Não satisfeito, vou ao site do evento (tenho que divulgar...): www.portalconap.com.br. Logo de cara, a festa do Bonde do Tigrão: CONAP FANTASY, na qual “o uso de fantasia é obrigatório”. Para além do óbvio que poderíamos aqui apresentar (as fotos, a programação cultural – valei-me! – os links de interatividade etc.), uma enquete:
“Qual será seu estado civil no CONAP?” e as caracterizações: solteiro – sinal verde; enrolado – sinal amarelo; casado – sinal vermelho. Claro, resolvi votar. Bom, até o momento, casado que sou, pelo menos não sou minoria. Mas, quase ¾ dos votantes já anunciam: o sinal está verde.
Bom...
A sujeira dos cartazes diminuiu um pouco na Universidade. Mas eu ainda fiquei pensando sobre a minha atitude de retirar todos os cartazes que encontrei do CONAP e o prefácio de Paulo Freire que colocamos neste artigo.
O Universal Circo Crítico não é, absolutamente, contra a liberdade de expressão, de organização, de pensamento científico e coisa e tal. Entendemos que temos projetos de homem/mulher, sociedade, mundo e Circo antagônicos deste CONAP. Mas, mais do que isso (e, talvez, por isso mesmo) estamos em trincheiras opostas.
Um congresso assim não pode se alcunhar de “Aprendizagem” e, muito menos de “Congresso Universitário”... Pode ser o “maior outra coisa”...
Mas, precisávamos dividir isso aqui, neste picadeiro...
Fica nossa palavra de ordem: Por uma Educação (que envolve aprendizagem) Popular, Nacional, Unitária e Revolucionária!
Viva (ainda que não exista... ainda) O Congresso Brasileiro dos Lutadores do Povo, a qual este picadeiro será sempre signatário.

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

domingo, 9 de outubro de 2011

Hasta la vitória siempre...!


            



Ernesto Guevara...
Comandante Che Guevara... 
Che!





                Nossos jovens universitários, em tempos atuais, não o conhecem... é verdade, me espanto, pois são jovens no alto de seus 18, 19, 20 anos que se (me) perguntam: “quem é Che?”
                Mas, não são todos... jovens do campo, dos movimentos sociais campesinos, conhecem Che, sabem de sua história e até o sentido de palavras de ordem que resgatam sua memória e lições: “Che! Zumbi! Antônio Conselheiro! Na Luta por Justiça! Nós somos Companheiros!”.
                Em tempos de fortalecimento da Revolução Cubana, quando era Ministro da Indústria, Che não tinha uma vida social e/ou cultural muito intensa. Mas, quando procurava um cinema com sua companheira Aleida, enfrentava um pequeno problema: os encarregados do guichê não queriam cobrar-lhe o ingresso. Ao que Che respondia: “Mas, rapaz, se isso aqui não é seu, mas do povo, por que não quer cobrar o meu ingresso?”.
                Lições como esta, pequena, deveria ser princípio moral e ético de nossos líderes...
Em 8 de outubro de 1967, erneste Che Guevara era capturado e, no dia seguinte, tombava em La Higuera (Bolívia)... de olhos abertos, olhando para seus algozes e dizendo: “morreu o homem! Eternizou-se a Idéia! Demos mais força à luta por liberdade!”.
O Universal Circo Crítico sempre seguirá os passos de Che!
E que nossos jovens compreendam o real significado de palavras como Liberdade, Justiça, Liderança e Esperança!
Vida Longa ao Comandante Che!


Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

P.S.: Nossa homenagem a uma grande lutadora do povo, da educação e da educação física que tem, em 08 de outubro, a data de celebrarmos sua chegada. Feliz Dia de Che, Professora Celi Taffarel!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Conversa ao pé de ouvido de Gabriel...


Salve, salve, pequeno Gabriel.
            Nosso mais novo pequeno lutador do povo, filho dos jovens Carla e Igor, que este Circo, seus artistas, seu público, conheceu nas andanças do Assentamento João Batista, aqui mesmo em Castanhal.
            Não é a primeira vez que saudamos um Gabriel... Mas cada Gabriel é um Gabriel. Tivemos até o Pedro Gabriel, que chegou ali, na curva da virada de 2010 para 2011. E, como tu, também um pequeno lutador do povo.
            Todo mundo sabe que Gabriel lembra aquele camaradinha (ninguém sabe se lourinho, branquinho de olhos azuis ou o contrário, mas que chamam de anjo) que avisou Maria, mãe de Jesus, que ia ser mãe... E todo professor sabe que o Gabriel da sala é sempre um dos mais espoletas... Como professor, nada contra, desde que sempre tenhamos as espoletagens a disposição do trabalho coletivo e da construção de novos conhecimentos. Isso, nós aprendemos a fazer todos os dias.
            Mas, veja só, né Pequeno Grande Gabriel... chegaste em 11 de setembro, uma data que, há 10 anos, silenciou toda a história da humanidade, como se só existisse um único fato em 11 de setembro. E, para um bom pequeno lutador do povo que és, nos destes um grande, enorme desafio. Saudá-lo no que há de mais expressivo e importante para a sua chegada. E, talvez, seja uma das saudações mais importantes de todas as conversas ao pé de ouvido que já tivemos até hoje. Não que as anteriores não tenham sido, cada qual à sua maneira, importantes. Mas este 11 de setembro de 2011 é, verdadeiramente, um desafio... Esperamos, artistas e sempre aprendizes, dar conta dele.
            Na história da humanidade, mas em função de interesses que estão “acima” de nós, e que enfrentamos todos, absolutamente todos os dias, há um 11 de setembro recente, que, é fato, comoveu-nos, mas se transformou, dia após dia, em um segundo 1º de abril – o tal dia da mentira.
            Um chanceler americano, lá pela década de 30, dizia sobre o que é a verdade e o que é a mentira: A verdade, é aquilo que você quer que as pessoas acreditem. Se você sabe que se trata de uma mentira, mas que não pode ser revelada como tal, conte-a, como se fosse verdade, o tempo todo, ao ponto de até você acreditar que é uma verdade.
            Assim fizeram com os chamados “atentados às Torres Gêmeas de Nova York”. Fizeram o mundo inteiro acreditar que foi Osama Bin Laden o terrorista idealizador destes atentados, que os dois aviões foram seqüestrados, que o passaporte do terrorista suicida caiu nas ruas de N. York e que os prédios ruíram por causa dos aviões... em menos de meia hora após o impacto, verticalmente... Estas e muitas outras mentiras sobre este “atentado” (sempre entre aspas) perduram a dez anos.
            O terrorismo deste fato não foi menor, por exemplo, do que a edição do Ato Institucional número 5 (AI-5) de 1969, editado pelo governo militar (terrorista) brasileiro, responsável pela “legalização” das prisões, torturas e mortes inicadas em 1964 e que seguiram até o os anos 1980.
            Nem o primeiro, nem o segundo foram realizados por heróis. Os dois foram construídos pelo próprio Estado/Governo de seus povos. Os EUA, na insana busca pela legitimação mundial á sua política bélica (idêntica a aquela que orientou a CIA nos anos de chumbo da América Latina, a partir dos anos 60 do século passado). O Governo Militar brasileiro (que, lamentavelmente, renasce nas expressões mais vis de nossa sociedade, hoje, como a imprensa), na tentativa de proteger, na marra, os ideais de quintal do imperialismo americano. Em ambos, os heróis são os que questionaram suas verdades, mentiras tantas vezes repetidas.
            Optamos, apesar das já muitas palavras até aqui, pequeno Gabriel, lembrar de um grande líder, um personagem da história Latino-americana que conseguiu colocar o 11 de setembro duas vezes, em uma única manifestação, na história da humanidade.
            Em 11 de setembro de 1973, o Palácio de La Moneda – sede do Governo Chileno – foi duramente bombardeada por um Golpe Militar, dirigido pelo general e depois ditador Augusto Pinochet e, em 11 de setembro deste mesmo 1973, o Presidente do Chile, democraticamente eleito e sustentado por seu povo, Salvador Allende, era assassinado neste bombardeio. Um presidente assassinado dentro do Palácio do Governo, em seu próprio país.
            Durante o governo de Pinochet, cerca de 30 pessoas foram presas, torturadas e assassinadas... algumas nem nesta ordem, necessariamente. Outros destes, dopados e lançados por aviões e helicópteros no Oceano Pacífico. Dopados, para que morressem afogados.
            Seu povo não apenas resistiu, lutou bravamente, mas deu-nos, assim como outros países latinos (a despeito do Brasil sequer conseguir aprovar um Programa de Direitos Humanos e andar as turras para construir uma “Comissão da Verdade”) uma lição histórica. Prenderam e condenaram seus torturadores e não tiveram sua democracia ameaçada.
            Diferente de tantas conversas que nossos artistas tem com os pequenos lutadores do povo que recebemos, assim como você, neste dia, apenas uma lição parece bastar: o dia 11 de setembro é o dia da verdade, Pequeno Gabriel. E a verdade é revolucionária... assim como você.
            Vida Longa ao Pequeno Gabriel!

            Venham Todos!
            Venham Todas!

            Vida Longa!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Em um 22 de setembro



“O sertão vai virar mar...”
(Antônio Conselheiro)

Já nos manifestamos em tempos anteriores, aliás, desde os bons tempos do Arca Mundo, sobre o 22 de setembro. Normalmente, falávamos do “dia mais feliz de painho e mainha”, brincadeira para falar de nosso dia.
Aos 42 (e acho que já em anos anteriores), celebramos cada vez mais, tanto quanto cada vez mais contidamente, nossos aniversários. Mas, como a história desta lona de circo, de seus artistas que sempre passam por aqui com suas peripécias e malabarismo, com suas poesias, com suas histórias e, claro, nosso sempre estimado público, acabamos sempre pensando em um 22 de setembro diferente de outros.
Nestes tempos de dúvida sobre as relações sociais, sobre o quanto nosso mundo agüenta este consumo desenfreado e vertical, linear (e não se fala muito dos perigos disso)... em tempos em que as Guerras em nome da democracia que, à bem da verdade, é a última vontade de seus generais (que nunca vão ao front) se espalham mundo afora... em tempos de luta contra a desesperança enfrentada nas ruas da Grécia, Irlanda, Espanha, Itália, Inglaterra e os países do Norte da África (nem todos apresentados na nossa mídia tupiniquim, por serem mais difíceis de serem defendidas, haja vista o explícito interesse comercial, e não a defesa de seu povo) e, aqui perto de nós, no Chile, com os bravos estudantes que lutam contra a privatização completa do Ensino Público... em tempos que, cada vez mais, nosso intelectuais críticos ficam em suas confortáveis posições de intelectuais, chamando de infantis, imbecis e ingênuos aqueles que estão, dia-a-dia, na luta cotidiana, pensei em um personagem que, exatamente num 22 de setembro, tombou lutando.
Lembrei-me de Antonio Vicente Mendes Maciel, o histórico líder do Arraial de Canudos, no nordeste baiano que reuniu milhares de sertanejos famintos e desesperançosos e, o que a história sempre deixa de registrar, esquecidos por sua nação, à época, uma República recém investida ao Estado Brasileiro. Eram, aqueles milhares de sertanejos, esquecidos, oprimidos e sem esperança, assim como são os “rebeldes” na Síria, na Líbia, no Egito, na Costa do Marfin. E, cada caso e povo ao seu tempo, buscaram a esperança e a defenderam até o último homem que, no que nos reportamos agora, tombou em Canudos.
Melhor do que muitos, em tempos atuais, Antônio Conselheiro foi um estudioso: das línguas (aprendeu latim, português e francês), professor, um grande amigo dos pobres de sua região (Ceará), pais das próprias irmãs. Caixeiro, escrivão, quase advogado (o que se chamava, à época, “solicitador”)... Também foi um pouco ilusionário, errante de suas próprias convicções e certezas. No fim destas andanças, enfrentou quatro expedições militares do governo brasileiro, tombando, junto com seu povo, na quarta expedição... em um 22 de setembro. Canudos ainda resistiria até 05 de outubro de 1897.
De comum aos tempos de hoje, a união conservadora entre a Igreja, o Latifúndio e a Imprensa, com o Estado sempre a disposição de seus interesses. Há mais de cem anos atrás, era a mesma coisa.
Em 22 de setembro de 2011, me inspira estar firme, forte em minhas convicções e ainda aprendiz delas.
Me inspiram meus amigos, muitos amigos aqui, perto, mais ou menos perto, longe, muito longe na distância física, mas fruto de minhas andanças e amizades sempre preservadas, sempre pertos em meu caminho, convicção e esperança.
Me inspira, ainda que na contradição, minha família que, assim como meus amigos, estão perto e longe. Minha família presente, minha família que já não está entre nós, meu velho e grande avô Hiram de Lima Pereira, mais um “filho de Canudos” que tombou lutando.
Me inspira Tábita... minha esposa, companheira, amiga e, assim como eu, também aprendiz de lutadora do povo.
E muito disso devo à história de Antônio Conselheiro...

“Viva Zapata!/
Viva Sandino!/
Viva Zumbi!/
Antônio Conselheiro!/
Todos os panteras negras/
Lampião, sua imagem e semelhança/
Eu tenho certeza,
eles também cantaram um dia”
(Chico Science – Monólogo ao pé de ouvido)

Por todos os lutadores e lutadoras do Povo, que tombaram e continuam a tombar na luta contra a opressão, o capitalismo, o imperialismo, o latifúndio...
Viva, para todos nós, o 22 de setembro!
Dia de Antônio Conselheiro!

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Conversas ao pé de ouvido de Fernanda Helena...




“Quando o verde dos teus "óio"/
Se "espaiar" na prantação/
Eu te asseguro não chore não, viu/
Que eu vortarei, viu/
meu coração”
(Asa Branca – Luiz Gonzaga)

Salve, Salve, nossa Pequena Fernanda Helena, de nome composto, uma pronúncia forte, firme: Fernanda Helena. Daquelas pronuncias que, quando fizeres suas pequenas traquinagens (e espero que faça), escutará com a altivez que, paradoxalmente, lhe dará ate orgulho: “Fernanda Helena, vem já p’ra cá!”... “Vou levar uma bronca da mamãe, mas que meu nome é bonito, é...!” irás pensar.
            Nossos artistas e público não conhecem seu pai, mas, conhece sua mãe. Val é a expressão de uma figura decidida e coerente e, não menos, isso nos ajudar a conhecer-te também e, desta maneira, ousar algumas palavras ao seu “pé de ouvido”... Sim, estás certa: pé não tem ouvido e ouvido não tem pé...
            Fernanda e Helena. A primeira de origem teotônica (germânica), de um tempo em que este povo (os teutônicos) eram donos de uma parte significativa da Europa. Povo culto nas artes, culturas, ciências e comércio. Mas também de uma história complexa entre Estado e Igreja... Papo p’ra outra hora. Já Helena tem origem grega. Lembra a história de “Helena de Tróia” (a mulher mais bela do mundo), né?
            Mas, importante aqui, é vermos em seu nome amor, responsabilidade, serenidade, perspicácia e confiança sintetizam a Luz e Ousadia que estão presentes em seu nome: se tomarmos a expressão de um dos maiores nomes que a história da humanidade já conheceu (mas, por motivos evidentes, pouco aparece nos livros), Wladimir Lenin (“a ousadia é o que dá sentido à vida”), estás com algo a mais para dar sentido a sua vida, além da ousadia, pois ousará sempre para ti e para os outros. Nada mal para quem está começando.
            Já que estás chegando por esta bandas pela primeira vez, vamos logo anunciando que sempre procuramos cumprir com a mais humilde tarefa dos artistas do povo, aprendizes de lutadores como sempre nos entendemos: nossas lições.
            O Mundo, a história da humanidade, suas tensões e conquistas de milênios sempre nos dão lições importantes, ainda que a humanidade teime e não aprender muito com elas. É como pensar as coisas pequenas de nossa casa, de nosso dia-a-dia e aquelas pequenas “chamadas” que nossos pais, avós e tios ou tias sempre nos dão e, quando insistimos e dá errado, escutamos: “eu te avisei!”. Claro, nem sempre eles estão certos. Se sempre estivessem, de onde sairiam então outros tantos “mais velhos e experientes” que fazem tanto mal ao seu povo?
            A humanidade, pequena Fernanda Helena... a humanidade, quando não tira suas lições, padece de repetir sua sina de, de tempos em tempos, recriar suas crises. Em tempos atuais, EUA e Europa que o digam... Mas, as nossas lições são mais humildes, são mais para “tentar aprender, ensinando”... Mas são grandes, em nossa luta por um tempo e mundo melhor para você que chega e os outros que já chegaram e também foram por nós saudados.
Já que estamos falando de ousadia, pequena Fernanda Helena, falemos de um 2 de agosto de um longínquo 216 a.C. Nestes tempos que antecederam o nascimento de um dos maiores revolucionários da história da humanidade (Jesus Cristo, sim, um grande revolucionário) acontecia a Batalha de Canas, uma verdadeira obra-prima de tática de guerra segundo alguns estudiosos. Em terras brasileiras, seria como a saga de Antonio Conselheiro em Canudos. Daí, Fernanda, nossa primeira lição: a ousadia sempre requer prudência, senão se transforma em teimosia e, assim, nada se compreende. Vencer uma batalha não significa vencer uma guerra ou vencer sempre.
02 de agosto, no século passado, colocou frente a frente, em anos diferentes, o paradoxo de um conflito movido pelo poder (que sempre move pessoas, para o lado certo ou para o lado errado): foi em um 02 de agosto, em 1934 que Adolf Hitler ascendeu ao cargo de “führer” na Alemanha. Onze anos depois, em 1945, as grandes potências aliadas, vencedoras da 2ª Grande Guerra Mundial determinavam os termos da rendição da mesma Alemanha, derrotada. 35 anos depois, o Iraque invade o Kuwait e mais uma guerra se inicia. Estes dois conflitos não existe mais, por si. Mas deixaram rastros de intolerância e de ânsia pelo poder que se eternizam e formam fortes raízes em todos os quatro cantos deste mundo... poder e força, pequena Fernanda Helena: palavras que a humanidade aprendeu a combinar muito mal e que, esperamos, saibas entende-las, compreende-as, exercita-as com ousadia e luz, como seu nome o é. O poder e a força podem ser bem combinadas... nos ensine isso, certo?
Assim como você, sempre nascem pessoas em um 02 de agosto. Todo tempo, em todos os lugares do mundo. Outros partem, também. A gente escolhe, sempre, pelas lições:
Foi em um 02 de agosto de 1924 que nascia James Baldowin, um escritor americano, mas de formação profundamente francesa, negro e que ficou conhecido, em sua obra também, por ser um ativo defensor da minoria negra e gay... Isso nos idos dos anos 1960. Hoje, negros e homossexuais continuam perseguidos, amedrontados, mortos por serem negros e homossexuais. Imaginemos isso a 50 anos atrás, hein? Foi em 1979 que ele disse sobre sua terra natal e a França: “Os brancos se dizem perplexos com o holocausto na Alemanha. Não podiam se imaginar capazes de tão grande barbaridade. Duvido, porém, que os negros tivessem essa reação de espanto, pelo menos no mesmo grau. Também aqui, pátria dos direitos humanos, existe racismo. Em Paris há um bairro negro que se parece muito a um gueto nova-iorquino. Os franceses tinham certeza de que não eram racistas, depois veio a Indochina e a Argélia e aí descobriram então que também tinham seus negros”. O preconceito sempre baterá à sua porta, Pequena Fernanda Helena. Só a deixe entrar para ela deixar de existir.
A história de Luta do povo latino-americano, em tempos de ditadura (anos 60 a 80 do século passado) tiveram sua importante passagem em um 02 de agosto. Foi em 1942 que nasceu Isabel Allende. Ela era sobrinha de segundo grau de Salvador Allende, presidente chileno assassinado em 11 de setembro (que nunca aparece nos nossos livros escolares como expressão do terrorismo contra uma nação) de 1973. Sua obra mais marcante (na vida deste pequeno aprendiz de lutador do povo) foi “A Casa dos Espíritos” que, um ano depois de escrita, foi para o cinema, numa bela obra que nos ajuda a compreender como funciona uma ditadura... para nunca mais a querer novamente. O cinema nos proporciona inúmeros aprendizados, Fernanda e esperamos que não seja diferente para ti.
Mas é de outra arte que também vive o 02 de agosto e, neste particular, com honra pernambucana (a terra-coração deste que te fala ao ouvido). Foi em 1944 que Recife nos deu Naná Vasconcelos, um dos maiores percussionistas de nosso país, do tambor de alfaia (do Maracatu) ao Berimbau. E esta lição é das melhores e mais importantes: FAÇA MUUUUUUITO BARULHO, Fernanda. Escuta, ouça, descubra, explore os sons magníficos que o mundo ainda nos proporciona e crie sua música, seu batuque, sua dança... A humanidade sem música e dança, não é humanidade.
E por falar em musica, terminamos esta nossa pequena aventura (que ainda nos proporcionaria muito mais viagens) com a lembrança também musical, mas de partida... e que foi nossa provocação no início de nossas palavras. Afinal, foi em um 02 de agosto, em 1989, que perdíamos a presença do Rei do Baião. Mais rei do que muitos reis e rainhas que por aí se intitularam como tal, em nossa música. Um cantador de seu povo, de sua sina, de seu sofrimento e de sua alegria. É verdade que, do ponto de vista político, se bandeava com certo perfil coronelista, dos tempos de outrora. Mas não representou isso em sua música. Quando pintar o primeiro namorado, daqueles assim que tu tiver uma queda, um chamego bem particular, celebre com um forrozinho pé-de-serra, que vale a pena.

Seja Bem Vinda, Pequena Helena Fernanda!
Seja Bem Vinda!
Vida Longa a Fernanda Helena!
Venham todos!
Venham Todas!
Vida Longa!


Marcelo "Russo" Ferreira