RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

terça-feira, 15 de março de 2016

Um dia Histórico...


puntosinapsis.wordpress.com
Bandeira soviética erguida em Berlin após a ocupação
 pelo Exército Vermelho




“Bem unidos, façamos.
Nesta Luta Final.
Uma terra sem amos!
A Internacional!”
(Hino – A Internacional)




... foi assim que li a primeira manchete de jornal na segunda pela manhã, um dia após os atos contra a... corrupção?
Não tive, à bem da verdade, muita paciência de acompanhar com a minuciosidade necessária os tais atos contra a corrupção(?), como fizemos, neste picadeiro, em 2015, bem como as ruas fervilhando em 2013.
Primeiro, porque já imaginávamos que as imagens seriam as mesmas ou semelhantes. Volta da Ditadura, Camisas da CBF no discurso de “Abaixo a Corrupção”, faixas com “Fica Cunha” e o escambal.
Os grupos que chamaram o ato (VemPraRua, Brasil Livre, Revoltados On Line) chegaram a divulgar suas bandeiras: “FICA CUNHA” entre elas.
Neste particular, o espantoso (se não conhecêssemos nossa Imprensa): antes, durante e depois deste festejo hipócrita contra a corrupção, pequenas (quase ausentes) manifestações sobre o “réu” Eduardo Cunha e consultas sobre a agenda do processo de impeachment ao “Presidente da Câmara” Eduardo Cunha.
Apenas este trivial elemento já nos é suficiente para afirmar: se realmente tivemos 2 milhões de pessoas (número bem aquém dos votos que a oposição amealhou em 2014) nas ruas, dia 13 de março, temos duas milhões de pessoas já carimbadas com um “#SouHipócrita” na cara. Que me desculpem os frequentadores deste picadeiro de terra batida que lá se exaltaram.
– Se fosse apenas esse o problema... (Palhaço)
– É vero, Strovézio, é vero!
Como dissemos: já falamos por aqui sobre panelas batendo, camisas da CBF, imprensa e palavras de ordem seletivas e coisa e tal. Os vídeos e fotos destes atos também circularam aos montes.
Soma-se a este espetáculo fascista e hipócrita, discursos de Candidato a Presidente Bolsonaro com um “se eu for eleito, todos os cidadãos de bem (sic!) terão direito à usar arma” ou a Tucanalha de Ponta (Aécio, Alckmin e cia) sendo expulsa e achincalhada na Av. Paulista (e o cumplicioso silencio da mídia nativa e suas 9 famílias).
Ainda assim, constatamos coisas do tipo “Aécio Presidente, que roube, mas faça alguma coisa pelo Brasil”:

– Ops! Eleitora de Adhemar de Barros e Paulo Maluf, uau! Rouba mas faz! (Strovézio)

Ou, então: “Se o ser humano ele não tem como entrar na sociedade por uma questão mental, injeção letal” (Revista Brasileiros – TV! Brasileiros)

– Vigi... e esse aí era Professor de Educação Física, kkkkkk (Strovézio)
– Ele optou por se apresentar “Educador Físico”, Strovézio... Daí é fácil entender, né?


O resto, é hipocrisia.
Mas, tive que ler nos jornais na segunda pela manhã: “Um dia histórico”. E realmente fiquei pensando se somos tão poucos assim neste picadeiro de terra batida e lona furada de circo que esperamos por um dia histórico.
Um dia histórico, em que não tenhamos mais ricos que ficam mais ricos à custa de pobres que ficam mais pobres. Como as 62 famílias que detém a riqueza equivalente da metade da população mundial.
Um dia histórico, em que ir as ruas seja para festejar o fim da tirania do Capital sobre a vida humana e o meio ambiente.
Um dia histórico, em que as Mineradoras sejam expulsas do país e que toda a riqueza mineral e natural seja verdadeiramente patrimônio de seu povo e da humanidade. E, portanto, um dia histórico em que as Mineradoras tenham que devolver tudo o que tiraram – seja lá como for – da vida.
Um dia histórico, em que o trabalho não seja mais a síntese de “liberdade de vender-me a um patrão que paga o que acredita que vale minha força de trabalho” e, portanto, continue sendo explorado em minha vida e humanidade.
Um dia histórico, será aquele em que Reforma Agrária e Consolidação das Terras Indígenas passem a ser cotidiano, não mais fruto de conflitos e enfrentamento desigual ao avanço do agronegócio.
Vai ser aquele dia histórico quando a moradia, a comida, a festa, o descanso, a arte e a cultura, a saúde e a educação forem, de fato, um direito, não mais um privilégio.
Vai ser, e vai ser pra dedéu, um dia histórico, quando Igrejas, seja lá que “Assembleia dos Ateus Crentes no Espírito Invisível de Puskas”, deixarem de ser isentas de taxações. Oras! Possuem Redes e Meios de Comunicação, elegem legisladores e até executivos... me poupem...
E os meios de Comunicação? Quando deixarem de pertencer a menos de uma dúzia de famílias e suas caixas pretas forem reveladas e, mais ainda, serem realmente democratizadas, será um dia histórico.
Legalização do Aborto? Legalização da Maconha? Até para este picadeiro que precisa aprender mais sobre isso, será um dia histórico... tanto quando testemunharmos o fim da militarização da Segurança Pública.
Quando mulheres não mais serem vítimas do machismo ao lado e nas ruas...
Quando negros e negras não tiverem mais que suportar a sujeira do racismo entranhado em quase todas as formas de relações humanas e sociais...
Quando não mais tivermos que sequer discutir se pessoas do mesmo sexo, transgêneros e tals tem ou não tem o direito de serem livremente, amarem livremente, viverem livremente, criar filhos livremente...
... Será um dia histórico.

– E acho que neste tema tu nem colocou tudo (Strovézio).
– Não duvido... muito ainda que aprender.

Um dia histórico...
Sem crimes e criminosos seletivos! Sem cultura vulgarizada e superficial. Sem uma educação rala e adestradora... Sem domínio e exploração do homem pelo homem, pelo capital.
Esse dia, para nós aqui, chama-se Comunismo!

Mas, acho até que este circo sequer consegue descrever o que seria, verdadeiramente, um Dia Histórico.
Quem sabe nosso público nos ajuda um pouco mais.

Se a bandeira de meu país é verde e amarela, não é vermelha e se meu coração é vermelho e não irá amarelar, isso é apenas uma parte, quase mero jogo de palavras.
O mais importante é a bandeira de luta. E luta se faz lutando, não indo pra rua protestar num dia de domingo.
Nela, a Luta, à luz do Hino da Internacional Comunista, valho-me de seu chamamento:


“De pé, ó vítimas da fome!
 De pé, famélicos da terra!
 Da ideia, a chama já consome
 a crosta bruta que a soterra!
 Cortai o mal pelo fundo!
 De pé, de pé, não mais senhores!
 Se nada somos neste mundo!
 Sejamos tudo, oh, produtores!”

Venham Todos!

Venham Todas!

quarta-feira, 9 de março de 2016

E lá vai Naná Vasconcelos...


“Meu amor por você chegou ao fim
É tudo que tenho a dizer
Também não precisa sair assim
Espere o dia amanhecer”
(Itamar Assumpção / Naná Vasconcelos)

Quem conhecia sabe o que ele representa pra música brasileira. Quem não conhecia, e é uma pena acreditar que há, no Brasil, muitos que não o conheciam...
– Inclusive músicos... (Strovézio)
– É, Strovézio... inclusive músicos. E, se não o conhecia, lamentamos.

Bom... Naná tocou com tanta gente que nem dá pra escrever aqui. De tanta coisa que escutei dele, San Vicente (uma canção que escutei pela primeira vez com MPB4), com Milton Nascimento, é expressão do que ele ainda tinha por fazer.


Naná Vasconcelos foi, digamos assim, um dos tantos músicos que, aos poucos, fez com que eu me sentisse recebido em terras pernambucanas, quando pra lá me pirulitei em 1993. Nem imaginava que ser expulso de uma Instituição de Ensino Superior seria tão bom pra minha vida inteira, inclusive musicalmente.
Por lá, um rockeiro paulistano foi se transmutando musicalmente e, depois de muitos anos morando, estudando, trabalhando, militando naquelas terras, aprendi a abraçar os recantos mais fantásticos da música e que este circo de lona furada e terra batida irá, este ano, ajudar a difundir.
Das coisas que dele eu assisti, sempre ficará a imagem (e o coração batendo em ritmo de Maracatu de Baque Virado), quando junto com a Orquestra Sinfônica de Recife e centenas de garotos e garotas com suas alfaias, ritmavam a música clássica na abertura do Carnaval Pernambucano de 2007, em pleno Marco Zero de Recife.
O Carnaval Pernambucano perdeu seu grande maestro de abertura...

Por hora, em algum lugar, para a espiritualidade de cada um que curtia Naná Vasconcelos – inclusive a minha, um ateu que reconhece que “tem alguma coisa invisível por aí” – uma coisa parece-nos certa: vai ter uma batucada arretada, seja lá onde for. Até não precisava sair assim... Podia esperar o dia amanhecer...
Mas...

Afinal, Lá vai Naná Vasconcelos.
Lá vai um Nego Veio.
E como tal

“Vestiu camisa vermelha
Lenço amarelado no dorso
Problema pra ele é besteira
Que ele deixou na maré
E agora nego só quer dançar
Ele quer dançar pra ver
Muita paz no seu coração”

Viva Naná Vasconcelos!
Vida Longa!

Venham Todos!
Venham Todas!

terça-feira, 8 de março de 2016

Ainda um machista...


“É preciso auto-disciplina interior,
maturidade intelectual,
seriedade moral,
senso de dignidade e de responsabilidade,
todo um renascimento interior
do proletariado.
com homens preguiçosos, levianos,
egoístas, irrefletidos e indiferentes
não se pode realizar o socialismo”.
(Rosa Luxemburgo)


Era de se esperar. Começamos o dia 8 de março com notícias na TV, notas e homenagens nas redes, palavras várias às mulheres próximas da gente. Por nós ou por outros.
E vi mensagens revolucionárias, que vem neste dia um Dia Internacional de Classe que se expressa e conduz, também, a luta da Mulher Internacional.
Mas vi aquelas que, ainda que aos olhos de um homem, parecem-me não serem suficientes. Algo como “Não quero bombons e flores, quero respeito!” ou “Dia do Homem levar sua mulher a um bom restaurante!”.
Não nego, claro, o direito de a Mulher ser respeitada. Não é isso que está em xeque. Mas, se o respeito, no lugar de bombons, flores e jantares, não alterar todas as formas de exploração da humanidade – que se expressa também em bombons, flores e jantareis – será, de fato, respeito?
Pois bom.
Por essas e pelo que já vinha pensando esses dias, penso que ainda me sinto um machista.

http://www.com.ufv.br/caixapreta/wp-content/uploads/2015/12/
Charge-para-parte-3-620x264.jpg

Ainda me sinto um machista...
Ainda não sei o que é sofrer de violência, em casa ou socialmente. Não sei o que significa um tapa na cara, um soco no olho, uma cotovelada, uma rasteira, um empurrão. Não sei o que é escutar “vadia!”, “gostosa”, “Vem aqui, vem!” e ter se seguir em silêncio.
Ainda me sinto um machista...
Pois não sei verdadeiramente o que é receber menos pelo mesmo trabalho desempenhado por outro no mesmo local de trabalho, na mesma função.
Aliás, quanto a isso, me sinto um machista branco também...
Ainda me sinto um machista...
Pois não sei nem de perto o que é se sentir-me assediado... moral, sexual, psicologicamente. Não tenho ideia do que significa ser visto pelo corpo que tem e ser usado, por isso, para conquistar espaços melhores de vida e carreira profissional.
Ainda me sinto por demais machista...
Pois ainda não tenho terceiro, quarto turno de trabalho. O meu turno sou eu quem organiza.
Machista, machista, machista...
Porque acho que, por questionar, criticar, denunciar, ojerizar o machismo dos outros, já me é suficiente para achar que ainda não sou machista. Algo como “ainda me reconheço no que denuncio”
Sou machista, porque ainda acho que as Mulheres que lutam são diferentes das mulheres que tem medo de lutar e só reconheço as primeiras. Ou porque acho que aquelas são tanto quanto os que sempre foram... os homens.

http://assediosexualnotrabalho.blogspot.com.br/2014/04/
assedio-sexual-no-trabalho.html

Sou machista porque ainda vivo em uma sociedade em que vejo mulheres lutando por emancipação política, não por emancipação humana... e acho que isso já está bom.
Porque acho “du canário” as mulheres socialistas.
Porque não entendo NA PELE que 8 de março existe por causa das mulheres socialistas (ainda que os livros neguem), que lutavam pela superação do capitalismo.
Porque elas ainda apanham, morrem, são assediadas, são exploradas.
A minha única, humilde e singela redenção: procuro o machismo dentro de mim todos os dias... todos os dias...
Encontro-o e enfrento-o.
Encontro-o e também me amedronto diante dele, não acreditando que ele ainda está ali.
Encontro-o e me surpreendo.
No medo e na surpresa, enfrento-o novamente.
...
Enquanto procuro-o dentro de mim, percebo uma sociedade à minha volta.
Uma sociedade que ainda precisa criar Leis para defender o que a Emancipação Humana tem como princípio. É o “de onde partimos” transformado em “o que podemos ter”... e não é pra todo mundo.
Humildemente eu reconheço... Por mais que este picadeiro de terra batida e lona furada de circo atue determinantemente contra toda e qualquer opressão e injustiça contra qualquer pessoa e, em particular, contra a Mulher, em qualquer tempo e lugar no mundo (isso é de Che), ainda assim, reconheço: ainda sou machista.
Evolui!
Muito a caminhar.

Viva 8 de março!
Vivem 8 de março... todos os dias!

Organización Fraternal Negra Hondureña OFRANEH

Nossa homenagem e Berta Cáceres, líder indígena hondurenha, assassinada no último dia 5 de março... ameaçada a anos por Militares, Policiais e Paramilitares... Uma mulher enfrentando O estado e seus capachos. Era quase 8 de março...
Berta Cáceres Vive!
E por ela, busco, também, o machismo que há dentro de mim...

Venham, à frente, Todas!
Venham Todos!

domingo, 6 de março de 2016

Alethéia, to kathéna échei tous...



            “Uma das maiores burlas dos nossos tempos
terá sido o prestígio da imprensa;
           Atrás do jornal, não vemos os escritores,
           compondo a sós o seu artigo.
           Vemos as massas que o vão ler e que,
           por compartilhar dessa ilusão,
           o repetirão como se fosse o próprio oráculo”
(Joaquim Nabuco).



            Este não é um texto em defesa de ninguém.
            Este não é um texto em defesa de um governo e seu projeto.
            Este não é um texto em defesa tal ou qual partido político. Claro, é um texto político.

            Este é um texto construído com angústia, preocupação e lamento de um circo de terra batida e lona furada. Portanto, pequeno, com pouco alcance, pouca influência.
            Mas temos nosso público e nossos poucos artistas. Tá bom pra gente.
            Já faz um tempo em que dizemos que “tem coisa errada aí” e bastante perigosa. Religião misturada com Estado, Lei antiterrorismo, a Cultura sendo encarcerada, a imprensa fazendo acordo com o protecionismo do Capital, a lama, as crianças, os negros... tudo dando sinais, o tempo todo.
            E, para fins destas reflexões, não é apenas o que está óbvio, ou seja, a seletividade jurídica e jornalística que, à bem da verdade, existe desde antes de quando ainda preocupava-me apenas com “será que amanhã será um grande dia de futebol na rua?”.
Afinal de contas, o que tem de falcatrua PESADA nos governos de São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro (só para não ter que desenhar o mapa do país), do DEM, PSDB, PMDB (não vai caber, também, as siglas) e não vemos nem Imprensa voraz e nem Justiça verdadeira avançando significativamente, como diria o velho ditado, “não tá no gibi”.
            Ou seja, por enquanto, apenas o óbvio: nós temos uma mídia seletiva, que tem partido, que sabe o que quer e o que não quer e age, em nome de um perigoso e frágil conceito e prática de “Liberdade de Imprensa”, em favor disso. E o Sistema Judiciário brasileiro como parceiro... e o contrário.
            Como disse, apenas o óbvio.
            Então, o que nós, neste picadeiro de terra batida, estamos vendo?
            A relação mídia e justiça... não apenas de parceria, mas quase umbilical (ou talvez, no final das contas, sempre foi).
            Penso que não precisamos detalhar muito os segredos desta relação, ao mesmo tempo que me parecem em permanente estado de obscura-ação.


            Pois bom...
            Dizem “da verdade”, em tempos hoje, que “cada uma tem a sua”. Assim sendo (se assim fosse), “Alethéia, to kathéna échei tous” * é a expressão de alguma verdade.
            A questão é que essa verdade, numa sociedade burguesa, movida pelo Capital, por interesses de consumo e riqueza (e, de riqueza, já falamos aqui), destruição ambiental e o escambal, no final ao cabo, tenta na verdade... que não é a mesma verdade... estabelecer a fronteira entre razão e religiosidade. Entre o que se quer aqui, e a redenção quando não mais estiver por aqui.
            Nesta expressão, portanto, está a manifestação de se construir uma imagem dos novos (e ainda atuais) proprietários de uma Cultura Alethéia... de uma Arte Alethéia... de uma Educação Alethéia. Portanto, também uma noção capital e proprietária de uma Política e uma Justiça Alethéia. Juntinhas. Cúmplices e mútuo-celebrativas.
            Não é, portanto, uma relação de troca. É uma relação de sobrevivência.
            Mesmo que seja apenas uma especulação, mas também acreditando que podemos fazer boas provocações ou, pelo menos, ajustar as perguntas, o que temos nesta relação é quase que uma “Síndrome do Tostines”. A Justiça está sempre presente e forte porque a Mídia está fortalecendo a instituição ou a Mídia está sempre a vontade porque orienta politicamente a Justiça?
            Ou seja. Se Tostines vendia mais ou não por estar sempre fresquinho, o fato era que a Propaganda era a mediadora da marca. Não o quanto vendia, nem o quanto estava fresquinho.
Assim o é com o que assistimos com o nome de Alethéia. Ela, a Verdade, é a propaganda. E a propaganda sempre esconde o conteúdo do que se vende, informando outra coisa, que não o produto. E o fantástico é que isto está na própria apelidada Alethéia... uma caminho da verdade. A que pretendo provar.
            O que a Verdade esconde aqui?


            O Ministro Marco Aurélio Melo (insuspeitosíssimo conservador da ordem em nome da justiça no STF) nos deu a resposta: “Amanhã constroem um paredão na Praça dos Três Poderes”.
            Mas atenção: os “paredões” já estão funcionando em nossa terra brasilis... De postes a linchamentos pela aparência, de Candelária ao Cabula na essência.
                Sacaram a Alethéia? 
            O resto é o que todo mundo está vendo. Ainda que com entendimentos e leituras diferentes e divergentes.

            Venham Todos!
            Venham Todas!

* Tradução do “google tradutor”: “Verdade, cada um tem a sua”, em grego



terça-feira, 1 de março de 2016

A Capoeira é de quem?

Tela Jogo de Capoeira, de Johann Moritz Rugendas (1802-1858)



“o homem que diz ‘dou’ não dá/
porque quem dá mesmo não diz/
O homem que diz ‘sou’ não é/
porque quem é mesmo é ‘não sou’/
O homem que diz ‘tô’ não tá/
porque ninguém tá quanto quer/
vai-vai-vai-vai-não vou”
(Canto de Ossanha – Badem e Vinícius)



            Ok...
            Vamos entrar numa seara que, possivelmente, não conhecemos muito. Não em sua raiz, em sua vivência concreta, em sua arte, suas cantigas, seu jogo e por aí vai.
            A Capoeira...
            Lembro, ainda em tempos de minha adolescência (ainda em São Paulo), que Capoeira tinha vários “sinônimos sociais” e todos eles se reduziam a “não faça capoeira, é coisa (de) marginal”. Claro, anos 80. Muitos dos Direitos pelos quais este picadeiro de terra batida vem se comprometendo, àquela época, eram cercados de preconceitos e pré-conceitos. Não que não estejam ainda hoje... Os dados sobre violência no Brasil são inquestionáveis, por exemplo.
            Negros e (mais ainda) Negras sofrem todos os dias por serem Negros e (mais ainda) Negras.
Mulheres? Também... vítimas de machismo (que nos anos 80 ainda era “quem sustenta esta casa” e por aí vai) e assédios até hoje.
            Pessoas com deficiência? Basta ver as nossas calçadas, transporte, acesso ao emprego... Lembremo-nos do outdoor no Paraná escrito “Pelo fim dos privilégios para deficientes”.
            Ser rockeiro/a, usar cabelo comprido também era e ainda é sinal de “tem alguma coisa errada com esse/a aí”.
            O que dizer do debate em torno da homossexualidade. Perseguidos, violentados, tendo que lutar por direitos simples de união civil estável, por exemplo.
            Sem falar no...
            – Russo! (Palhaço).
            – Fala, Strovézio...
            – A Capoeira... volta pra Capoeira...
            – Ah! Sim... empolgação e indignação, quando junta...
 
carybe capoeira drawings - Recherche Google
            Pois bom.
            Lembro que a primeira vez que pude “entrar” numa roda de capoeira foi a convite do meu grandessíssimo irmão de terras soteropolitanas, Haroldo Júnior. O Menino Pimpão já homenageado por essas terras circenses.
            Ele falava da Roda, onde todos se olhavam, todos cantavam juntos. Ele falava do “jogar com”, pois sem o/a companheiro/a na roda, “tu não joga com ninguém”. Ele falava de como a capoeira entrava em nossos corpos e nos libertava.
            E, naqueles tempos já pernambucanos, no meio da militância no Movimento Estudantil, eu brincava de capoeira... eu jogava capoeira... eu cantava capoeira...
            Não fiz capoeira, muito menos me formei Mestre de Capoeira, este sujeito de notório saber, como já reconheceu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Brasil, em 2008.
            Mas, eis que o Conselho Nacional do Esporte, ligado ao Ministério do Esporte formaliza a Capoeira e outras artes marciais com ESPORTE. Isso... Capoeira é (apenas?) Esporte.
            O ato foi no último dia 16 de fevereiro, No Clube Naval – Rio de Janeiro... Um “Ato Institucional” sobre uma manifestação que tem fronteiras mais largas e mais distantes do que o Esporte.


            Se é verdade que tal ato permite o apoio do Estado (Governo Federal, Ministério do Esporte e tals) à Capoeira, também é verdade que isso se dará pelo caminho da Confederação e as Federações Estaduais de Capoeira e, portanto, para a formação de “capoeras-atletas”. É o início do fim da Capoeira.
            Parece exagero?
            Então vejamos... O Presidente do suspeitíssimo, mafioso, violento, inescrupuloso Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) afirmou quando do ato:
“A capoeira é esporte, tem competições, são atividades importantes para o condicionamento físico. Crianças, adultos e idosos praticam a mesma para diminuir a obesidade e, principalmente, são atividades que têm federações e confederação. Já tinha aprovação do Conselho, mas ainda não havia a publicação do Ministério do Esporte de uma resolução a esse respeito”. Sem esquecer que, para esta entidade escrota, Capoeira é atividade física... e ponto.
           
            – Ajuda aqui, Strovézio...
            – Diz aí.
            – Na declaração do Ad Eterno presidente do CONFEF (blah!), tem jogo?
            – Tem não...
            – Tem ginga, mandinga?
            – Nadinha...
            – Tem cultura?
            – Na-na-ni-na-não!...

            Pois é... Esporte... competição... condicionamento físico... combate a obesidade... É a isso que o Sr. Máfia do CONFEF considera importante acerca da Capoeira? É a isso que ele reduz esta manifestação da cultura corporal?
            Explicando:
            Foi em um 7 de fevereiro (quase no mesmo dia, portanto) que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN, em parecer assinado pela antropóloga Maria Paula Fernandes Adinofi, já nos alertava:
            “Popularizada como prática esportiva, o ensino da capoeira passou a ser disputado pelos profissionais de educação física que, através de normas do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF), instituíram a exclusividade do ensino de qualquer modalidade esportiva ou atividade física em escolas, universidades e academias por graduados na área. Esta deslegitimação secular dos velhos mestres que nunca frequentaram os bancos da universidade em prol de agentes estranhos ao universo mental, à cultura, às tradições, à ‘mandinga, manha e malícia’ da capoeira (conforme sua definição por Mestre Pastinha) constitui-se em usurpação de um saber popular, desenvolvido e mantido à revelia do Estado e da sociedade letrada”
            O texto completo está em:

            Nosso picadeiro de terra batida não tem dúvidas.
            Nós, reiteramos, reconhecemos nosso limite de não ser capoeira. Mas, ousamos dizer o que ela não (apenas) é.
            Vemos, com o aval do Ministério do Esporte/Governo Federal, o movimento claro de uma instituição privada, que se entende (não para este espaço) como “representante” da Educação Física brasileira querer ser PROPRIETÁRIA de uma manifestação histórica e que vai além, muito além do que a Educação Física acumula enquanto conhecimento.
            Esperamos que os Capoeiristas e seus Mestres compreendam o “canto da sereia” que é este movimento institucional e, o quanto antes, possam reverter essa situação...
            Um passo para este “recaminho” está em um movimento interessante, organizado por Conselhos, Fóruns, Institutos e Associações voltados à Capoeira, à Cultura, ao Patrimônio. Convidamos a todos/as a dar um pulinho lá e contribuir com esse movimento.

            Do contrário, a Capoeira voltará aos porões do navio negreiro de nossa sociedade. Padecerá de banzo e de frio... como a ladainha do navio negreiro:

            “Que navio é esse
que chegou agora
É o navio negreiro
com os escravos de Angola
Acorrentados no porão do navio
Muitos morreram de banzo e de frio”
(O Navio Negreiro – Abadá Capoeira)


            Venham Todos!

            Venham Todas!