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domingo, 16 de junho de 2013

Da Arquibancada, vendo ditaduras...






" Pelos campos a fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição:
De morrer pela pátria e viver sem razão
"
(Geraldo Vandré)



Quando pequeno, pequeno mesmo (ainda vivia a imagem de meu avô me colocando no colo e brincando de “serra-serra-serrador / serra a barba do vovô”), essa música de “reabertura” do nosso espetáculo em terra batida e lona furada já ecoava em meus ouvidos.
É impressionante lembra-me que, entre as canções que aprendia quando criança (“Lenga-la-enga, laduxa-laduê” por exemplo), eu, desde pequeno, gostava de colocar o pequeno “compact-disco” do Geraldo Vandré com “Pra não dizer que não falei das flores” e seu forte refrão. O Lado “B” deste pequeno LP era “Fica mal com Deus”.
A canção foi uma das primeiras que aprendi a tocar no violão... Isso é mais forte ainda em minha lembrança.
Mas, à bem da verdade, não vivenciava os tempos escuros da Ditadura Militar. Apenas quando já adolescente eu passava a compreender algumas cenas: o vô que nunca mais voltou, as conversas silenciosas da família (mãe, pai, tias e vó, principalmente), as reuniões que painho tinha à noite (e em algumas até me levou, lembro até uma em que o Belchior estava participando), os dias que painho não voltada p’ra casa porque estava “retido” e por aí vai...
Bom...
Este humilde picadeiro (em que pese seu silêncio recente) já vinha falando: A Copa e os Jogos Olímpicos vem, com seus interesses privados, violentar nossa soberania e nosso país. Aliás, pessoas muito mais qualificadas e informadas do este andante apresentador já se manifestaram sobre este tema nos últimos anos.
Mas, não vi muita gente escrevendo “não vamos torcer na Copa!” ou algo assim... Ainda não convenci muita gente a não torcer pela seleção brasileira nos Torneios em pauta.
Mas, esse retorno envereda por outros temas que confirma a tese acima.
As Eleições recentes, por exemplo, já confirmavam o confirmável: os interesses e necessidades do povo nunca mais estarão amplamente representados em suas disputas, apenas os interesses privados. Aliás, os grandes interesses privados, pois são os que fornecem os grandes investimentos em campanhas (alguns, aliás, em todos/as os/as candidatos).
A mídia, ah! essa mídia estúpida, parcialíssima e interessada precisa entrar em falência... Precisamos falir a Veja, a Globo, a Folha...
Mas, nestes tempos de muito trabalho, estudos, organizando forças, honrando-se com a aproximação efetivada com Lutadores/as do Povo aqui no PA (científica e academicamente), os acontecimentos não esperaram (e nem deveria) nós levantarmos a lona novamente...
Estávamos atônitos com os acontecimentos Brasil afora. A violência dos aparatos militares estaduais (sobretudo em São Paulo e Rio, mas não menos violentos em outras capitais e cidades brasileiras) que, em nossa mídia, demonstraram a estúpida tentativa de estabelecer fronteiras entre “civilizados” e “não civilizados”. Pareceu-me que, assim como inúmeras vezes testemunhei em Marchas do MST e da Via Campesina, o aparato militar estava com dentes travados e olhares em riste, sedentos pela violência e lamentando suas balas serem de borracha.
Há opiniões distintas sobre os fatos destes últimos dias em torno das lutas pelo não aumento das passagens. Algumas que as criticam (e são poucos) tenho até concordância. Mas, não creio que há qualquer dúvida sobre a desproporcional ação do Estado Brasileiro (em suas expressões estaduais) às manifestações nas ruas.
Mas, a pergunta que não quer calar: quando fecharem as ruas para festejar vitórias da seleção brasileira (que não me representa), vai ter um policial armado para cada cinco torcedores?
Claro que não!

O Universal Circo Crítico não voltou! Nunca fomos embora...

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Da arquibancada e o fim dos direitos...




            Tempos destes fiquei imaginando o Universal Circo Crítico “adaptado” aos Megaeventos esportivos no (literalmente “no”) Brasil nos próximos anos: Copa do Mundo, Copa das Confederações, Jogos Militares, Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
            Essa “imaginação” foi se construindo no sentido de tentar entender porque ainda constatamos tantas atrocidades ao povo brasileiro (com algumas concessões, como o caso do Acarajé em Salvador – e, por favor, que nossos artistas soteropolitanos possam desmascarar o que nosso picadeiro ainda não “sacou”) em nome da Copa e dos Jogos Olímpicos e seus penduricalhos.
            Pensei que poderíamos ter uma Lona bonita, verde a amarela (nada de Lona Vermelha), sem furos e/ou rasgados. Nosso Picadeiro, com inúmeras luzes, limpo, com um chão de mármore (e a calça branca do nosso apresentador não sujaria mais com a poeira do chão de terra batida de hoje) e cercado de um colorido imenso e mais espaçoso também.
            Ah! E teria ar-condicionado. Rir dos nossos palhaços ou maravilhar-se de nossos mágicos e trapezistas com o suor escorrendo o tempo todo (afinal, estamos no PA) não rola.
            Não teríamos mais pessoas andando p’ra cima e p’ra baixo com suas cestas penduradas no pescoço, vendendo pipoca, groselha, puxa-puxa e quebradinha. Não, agora teríamos na entrada do Circo Lanchonetes com renome e... qualidade e lanches de verdade.
            Arquibancada de madeira? As cadeiras de plástico mais perto do palco para idosos ou pessoas com deficiência ou para aqueles/as que acompanham seus filhos mais de perto, pois querem ver tudo de pertinho??? Nem pensar. Cadeiras numeradas e bem confortáveis (até gosto da ideia) e que podem ser compradas na internet (já não gosto mais).
            Os artistas? Os melhores... preferencialmente bonitos, ricos, ídolos e heróis do trapézio, mágica, “domação” ou adestração de animais e por aí vai. Preferencialmente, até o apresentador deverá dominar mais de três línguas. E a principal não será o nosso português brasileiro.
            Ah, e o nosso público? Seleto, “esclarecido” (ai!), crítico (de uma banda só)... Só teríamos gente chique. Possivelmente branca apenas, mais possivelmente rica e inquestionavelmente estrangeira.
            Mais ainda. Todos/as, artistas e público, teriam sempre uma opinião sobre as coisas, não apenas sobre nosso espetáculo. Mas nunca precisaríamos dizer que “é nossa opção política”, pois não precisamos dizer que tomamos partido. Apenas tomamos, mas não assumimos isso. Seríamos freqüentadores do Millenium, leitores assinantes da Veja e ligados no BBB13.
            (...)
            Tudo isso para dizermos o óbvio que a cena que dedicamos neste “Da arquibancada” está dizendo.
            Não modificaremos um centímetro sequer, um artista sequer, uma cor sequer de nosso Circo, de nossa Lona e de nosso Picadeiro.
            Como os inúmeros circos pequenos mundo afora, com a qual nós compartilhamos nossas alegrias, nossa luta diária e o lugar que estamos nesta luta, mais uma vez nosso Picadeiro e nossa Lona Furada de Circo vem compor e engrandecer o grito das famílias removidas nas capitas da Copa e na sede dos Jogos Olímpicos, dos que lutam para manter intacto patrimônios ambientais, culturais e históricos, dos que lutam pela democratização de muitas bandeiras, dentre elas o Espetáculo Esportivo (por que não?).
            Mais ainda, estamos ao lado daqueles que se indignam com a chacota da elite, com o desdém da Imprensa Brasileira, com a mediocridade da nossa elite dirigente e política que tudo destrói em nome do capital e que se expressa, dentre outras formas, pelo sorriso irônico da jornalista deste vídeo...
            E só para ratificar: minha certeza em não torcer para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo está tão grande que irei entender às equipes nacionais que participarão dos Jogos Olímpicos e que também se beneficiam dos desmandos da elite esportiva dirigente deste país, praticamente representando-os...
            ... mas isso é pano para outras Arquibancadas!



            Venham Todos!
            Venham Todas!

            Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

sábado, 1 de dezembro de 2012

Da Arquibancada: pessimistas...



Pessimista na análise
Otimista na ação
(Síntese do Pensamento
 de Antônio Gramsci)

            Acho que é uma síntese muito “sintética” a nossa citação do importante e marxiano pensador e educador italiano do século passado. Mas, foi nessa expressão que imediatamente remeti minhas reflexões quando vi o comercial da Brahma há algumas semanas.
            Assisti uma, duas, três vezes e fiquei me perguntando: “Sério mesmo?”...
            Talvez, apenas talvez, se eu fosse um Zeca Pagodinho da vida (que se remete à palavra “Brahma” quando quer pedir uma cerveja), eu sinceramente deixaria de beber desta marca. Mas, cá p’ra nós, Skol, Antarctica, Skin e por aí vai, se fossem, se conseguissem ser patrocinadoras oficiais da seleção brasileira (nunca nos esqueçamos: não é a representação – de fato, para si – do povo brasileiro;é um time privado), fariam a mesma coisa, igualzinho. Até porque, não é a Brahma que fez o comercial e, sim, uma empresa de Propaganda e Marketing (ou algo assim), a Agência África (nome curioso, se levarmos em consideração que a última Copa foi na África do Sul e aquele país – e seu povo – ficou com uma dívida de 1,2 Bilhão de Dólares p’ra pagar).
            O mais espantoso, absurdo, até ofensivo é, após a palavra “Pessimistas!”, como que os (nos) chamando para escutar bem o que o comercial tem a dizer, a imagem de Ronaldo Lázaro (o “Ronaldinho Fenômeno”) reproduzindo o “I Want You!”, com as cores verde e amarela (24 segundos do vídeo)!
Essa imagem que foi fortemente usada pelos USA para convocar soldados para a I Guerra Mundial... décadas depois, exportaram a imagem, que passou a ser usada como manifestação da “maior democracia do mundo”...
– Calma, palhaços. segurem a gargalhada...
– kkkkkkkkkk....Não dá, caríssimo apresentador!!!! Kkkkkkk
– Ok, prossigamos, pois o assunto é sério (segurando a risada que os palhaços contagiaram...).
Também se tratou de uma imagem que novamente retratou o nacionalismo norte-americano após os (pseudo)atentados de 11 de setembro de 2001...
Daí por diante, a imagem que é feita do povo brasileiro (aliás, desde o início do comercial): Brasil país do Futebol! Brasil país da Festa!
Aeroportos lotados, sim, de torcedores (e a imagem de um sambista – tipo gafieira, parece-me) e uma moça – mas que só mostra o corpo... é uma mulher brasileira sem rosto).
Imaginar como teremos engarrafamentos nas ruas... de trios elétricos... mais festa!
Praias e cidades (com mais imagens de mulheres)... essa não entendi, desculpem-me.

Parece-me simples: todo movimento privado em torno desta marca denominada “Copa do Mundo 2014” quer, no final das contas, jogar no lixo os riquíssimos elementos culturais de nosso país, de nosso povo... de nosso Circo e, para tanto, não teme o uso de esforços (sem muito esforço) que, literalmente, pasteurizam a imagem do Brasil no tripé Futebol-cerveja-mulher.
Cada vez mais pretendo torcer menos pela seleção brasileira...
Alguém mais?

            Venham Todos!
            Venham Todas!

            Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Da Arquibancada: Paralímpicos, paraolímpicos e outras histórias...





Refletir sobre o esporte
 para além das configurações
 táticas e técnicas
que lhes são próprias
e tendo o mesmo
como expressão singular
para pensarmos fenômenos
mais gerais da sociedade
(do Camarada Blogueiro
Wellington  Araújo
esportemrede.blogspot.com)



            De quatro em quatro anos, acontece... um espetáculo, transmitido ao vivo aos quatro cantos do mundo
– Redondo e, portanto, não tem canto!!! (diz o nosso palhaço)
– ok, meu artista preferido... deix’eu continuar...
De quatro em quatro anos, a Mídia Esportiva (até a mais “especializada”... economicamente, claro) mistura Jogos Olímpicos com Olimpíadas e repete a mesma baboseira sobre a Bandeira Olímpica (que ela representa os cinco continentes, aff!).
De quatro em quatro anos, também, escutamos às vésperas dos Jogos Olímpicos (portanto, durante as Olimpíadas) que “O Brasil esse ano vai bombar e tem a seguinte capacidade de medalhas!”... Só esquece de considerar que mais de 200 outros países também estão preparando seus atletas, nas modalidades esportivas mais particulares e de suas especialidades.
Daí, as competições conhecem os/as outros/as atletas, as medalhas não saem, começam a comparar o Brasil com outros países: 
– Como assim, ficarmos atrás de Jamaica, Irã, Cuba – égua do imperialismo – Nova Zelândia e quase colado com Etiópia e Belarus???). Ah! Em 2008 ficamos atrás da Etiópia, Quênia e de Belarus... Ufa! Ultrapassamos!!!
E, claro, se manifestam nossa mídia tupiniquim (que, vez em sempre, se veste de Partido Político – mas não admite) e os parlamentares surfistas que querem destinar recursos públicos com suas fotos do lado, anunciando: “A escola e as aulas de Educação Física, as quadras deterioradas, a falta de material são culpados! Vamos fazer mais quadras, material de qualidade para que possamos, nas aulas de Educação Física, formar os nossos atletas e ganharmos mais medalhas”.
O CONFEF (eca! Palavrão no picadeiro!!!!) aproveita o vácuo: “Precisamos de profissionais de Educação Física devidamente registrados no Sistema... (não vou falar de novo)!!!”.
E por cerca de 10 dias, com mais ou menos tempo em reportagens, a depender do interesse midiático e do poder público, o tema vai se seguindo. Envolve COI, COB, até a CBF e a FIFA (é muito palavrão) entram no meio...
Eis que começam os Jogos Paraolímpicos... Jogos Paralímpicos... e não entendo mais nada (claro que entendo, só tô provocando).
Primeiro, num abuso de gramática impressionante, começam a chamar os Jogos Paraolímpicos ou Paraolimpíadas de Jogos Paralímpicos ou Paralimpíadas (sem o “o”), só para adequarem o termo brasileiro as ditames das línguas estrangeiras. Tem um texto legal em http://esportemrede.blogspot.com.br/2012/09/paralimpico-haja-bobagem-e-submissao.html
Segundo, que o Brasil começa a desbancar medalhas atrás de medalhas. Em 2012 fica em sétimo (entre 165 país participantes e 63 “medalhados”), junta 43 medalhas (à frente de Etiópia, Quênia e Belarus!!!) e uma tuia de perguntas saltam aos olhos:
Por que a Record, que comprou os direitos de transmissão... não transmitiu?
E relaxa! Nenhuma outra emissora de TV aberta do país – que adoram discursos de inclusão – iriam transmitir também... Nadica de nada!!! A manifesta postura hipócrita de nossos meios de comunicação que acabam por ratificar que o Esporte Moderno que lhes interessa é o de pessoas SEM qualquer mínima deficiência.
Assistir os Jogos ParaOlímpicos ainda revelava a falta de conhecimento de narradores e comentaristas. Não conheciam os atletas, não falavam de suas marcas para chegarem aos Jogos ParaOlímpicos, não diziam “quem é quem” das competições, não chegavam nem perto da mesma qualidade de informações que davam durante os Jogos Olímpicos, poucos dias antes.
E as quadras, as escolas públicas, a Educação Física, os professores (PROFESSORES!!!!), material didático-esportivo? Não são piores para as crianças com deficiência?
Nadica de nada de novo, nenhuma matéria que explicasse porque a mesma estrutura de Escola Publica, Aulas de Educação Física, acessibilidade aos espaços das práticas corporais etc. que impede a formação de atletas olímpicos não impede a formação de atletas paraOlímpicos.

E o apoio, como será? 


É assim o Esporte no Brasil, na mídia esportiva, na nossa Imprensa Tupiniquim (mesmo em tempos de “Partido Político Golpista” enrustido).
Quem quiser contribuir com o debate, nossa Lona Rasgada sempre está a disposição.

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

PS: apenas para registrar: nossa enquete sobre os MegaEventos no Brasil é pública e democrática. O Universal Circo Crítico se posiciona contra. Quem pensa o contrário, não deixe de se manifestar, certo? Por isso, também, nosso Circo é Universal.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Da Arquibancada... Trabalho Escravo?





“O trabalho enobrece o homem”
(Max Weber)
... é?

            Foi realmente incrível.
            Ronaldo (o que chamam de Fenômeno – tá! jogava um bocado!) e Bebeto dizendo que estavam se doando, doando o seu tempo em pleno lançamento do Programa de Inscrição de Voluntários do Mundial de 2014 (mas que também envolve a Copa das Confederações).

            Um espetáculo a parte no lançamento do Programa, na Bahia. Dentre ilustres presentes, o governador da Bahia, Jaques Vagner, que apertou o cerco contra Professores do Estado durante os mais de cem dias de greve. Usou o recurso mais escuso, e que, enquanto estratégia de conflito e confronto, compara-se à tortura (ele foi perseguido na Ditadura Militar). A tortura serve, dentre outros, para com o uso da força, tirar o que sequer de sua vítima. Inclusive fazê-lo desistir de resistir e aceitar o que o seu opressor lhe propõe (“fale onde estão seus amigos e lhe dou proteção!”). Os professores baianos foram ao limite, até não agüentarem mais... uma tortura.
Sobre o lançamento do tal programa, lamentamos mesmo, duas coisas pontuais: a divulgação superficial, sem reflexões, sem até a mera manifestação de dúvida sobre o custo benefício de ser voluntário em um evento cujo protagonista principal (a FIFA) lucrou, em 2011, 68 milhões de dólares. Segundo, a dificuldade de encontrar na mídia tupiniquim e na rede (artigos, blogs etc.) reflexões mais sérias. Até mesmo o site da UNE (ah! Que saudade da UNE lutadora!) apóia, divulga e nada traz de posicionamento sobre esse programa.
Assim que tornou-se público, iniciamos essa escrita. Como nosso picadeiro, nossa lona não é tão assim cheia de tecnologias, não deu nem tempo de comentarmos esse degradante espetáculo que os Megaeventos esportivos (a Copa, aqui) já vem despertando em nossos artistas e publico. No mesmo dia que se iniciou a inscrição, o site interrompeu, pois as inscrições foram numerosas. Ou seja, a FIFA, o Comitê da Copa (presidida pelo voluntário Ronaldo), a CBF já atingiram seu objetivo: já tem mão de obra suficiente para manter os lucros.
Mas um terceiro lamento é mais gritante: o Estado Brasileiro (Governo Federal, Ministérios do Esporte e do Trabalho) aceitarem isso... Mas, como aceitaram? A-ha! Lei Geral da Copa.
Seria interessante que a Copa antecipasse a convocação de voluntários:
– Quem quer ser voluntário nas desapropriações?????
– Quem quer ser voluntário nas intimações às famílias que terão que deixar suas casas para facilitarmos o acesso aos Estádios?????


Mas, o mais, de verdade, inquietante é o blá-blá-blá arrogante da FIFA, Comitê Organizador, CPF etc. de acreditar que é a Copa de 2014 que ensinará ao Brasil o que é ser voluntário, a tal “cultura do voluntariado”. Como se não tivéssemos (incluindo, aí, os bem-intencionados, tá?) trabalhadores, estudantes, militantes de Movimentos Sociais que já não agem sem pensar em lucros para si o tempo todo.
Mas, apesar da mão-de-obra gratuita já estar garantida para a Copa das Confederações e Copa do Mundo 2014 (certamente, para os Jogos Olímpicos de 2016), ainda assim, ousamos afirmar: ser voluntário na Copa é aceitar o aprofundamento da legitimação do trabalho escravo, aqui e acolá (tivemos um acolá recente, na África do Sul, última sede da Copa e que amargou uma dívida ao país – e a seu povo – de 1,2 bilhão de dólares).
O Voluntário da Copa, à bem da verdade, não se compara ao trabalhador que vende sua força de trabalho em troca de um salário aviltante mas que sustenta sua casa, sua família, seus filhos. As condições impostas pela FIFA para qualquer cidadão voluntariar-se é: (i) pague seus deslocamentos até os locais de entrevista/seleção, treinamento e trabalho (só o deslocamento no local de trabalho será garantido); (ii) se responsabilize pela estadia no local de trabalho e; (iii) aceite a possibilidade de trabalhar mais de 10 horas por dia (mesmo que por 20 dias, pelo menos).
Nas fazendas do Maranhão e sul do Pará, os trabalhadores recrutados para de deslocarem de suas famílias, comunidades atrás de emprego, são obrigados a pagar pelo deslocamento (trem, ônibus, caminhão).
Nas fazendas do Maranhão e sul do Pará, a manutenção da estadia também é custeada pelo trabalhador (que pagam valores exorbitantes, como será exorbitante o custo de vida nas cidades sedes da Copa) – tá, os voluntários da Copa terão o lanche.
Nas fazendas do Maranhão e sul do Pará, quem decide o turno de trabalho diário é quem contrata, não o trabalhador.
Mas, reconhecemos: o Brasil não inventou isso... o único “mais ou menos” alento!
Sabemos que é ousadia, e talvez nem tenhamos tanto eco assim em nossas reflexões... Mas que faz sentido, faz.
Voluntário na Copa é escravo de luxo. E a “cultura do voluntariado” que querem estimular no nosso país é a naturalização da exploração altruísta alheia.

E cabe mais reflexão.

Todos e Todas!
Não vão à Copa!
Não vão aos Jogos Olímpicos!

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira