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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ensino Médio – Parte II: A Educação Física...

desenho retirado de www3.fe.usp.br





“A Educação Física cuida do corpo...
 ... e mente”
 (João Paulo Medina).





De início, destacamos...
A passagem acima, título de livro lançado em 1983, pelo professor João Paulo Medina, fez parte de um importante momento da Educação Física, no sentido de a colocar em xeque sobre sua razão de ser na Escola e, também, na Formação Superior. Destes tempos (inclusive antes), muita coisa boa e ruim foi construída. Mas, inquestionavelmente, fez da Educação Física uma área de profundas raízes teóricas e metodológicas, de amplo debate em diferentes campos de conhecimento e que estão em disputa até hoje.
Não compartilhamos dos princípios filosóficos de Medina, mas reconhecemos seu papel pioneiro para a área.

Mas vamos ao ponto...
Tão logo anunciou-se a publicização (com posterior “recuo do recuo”) da MP do Ensino Médio, parecia que voltávamos no tempo: as áreas da Filosofia, Sociologia, Artes e Educação Física logo foram colocadas em xeque... quase xeque-mate.
No particular da Educação Física, as entidades institucionais rapidamente se manifestaram... do pior ao que temos de melhor.
Para entender esta reflexão, retomemos a matéria sobre a Educação Física que veiculou na imprensa televisiva.
No JN veiculado após a assinatura e publicação da MP, a primeira expressão de “critica” à mesma, destacando justamente a Educação Física. Aliás, matérias repetidas em outras edições do jornalismo global.



         Destaque: aos 2:12 minutos do vídeo – o assunto “Educação Física já tinha caducado na matéria... em incríveis 2 minutos – quem defende integralmente a MP é um representante de uma Fundação do UNIBANCO... Sacou?
É claro que, ao assistir a matéria, a angústia nos tomou conta. Porque ao invés de mais do que justificar, explicar porque a Educação Física ser uma disciplina imprescindível no Ensino Médio, abriu precedente para justamente deixa-la em segundo plano... como disciplina. Afinal, as cenas apresentadas mais reforçam a pergunta “por que Educação Física?” do que a esclarecem... venhamos e convenhamos.

Mas, vamos às entidades...
O Conselho Federal de Educação Física já havia lançado uma “nota de repúdio” sobre a tal MP do Ensino Médio. Desta nota, destacamos:

“O CONFEF considera um contrassenso que no momento em que inúmeras pesquisas apontam o crescimento da obesidade e do sedentarismo infanto-juvenil, e sabendo que a atividade física é a medida mais eficaz para evitar esse mal, o Governo Federal proponha a retirada da Educação Física do Ensino Médio. Sobretudo por se tratar do país que acabou de atravessar a década de megaeventos esportivos, sediando recentemente os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, onde ficou clara a importância da atividade física na manutenção da saúde e da formação cidadã”.

Ou seja, um catatau de nada, vinculando “lé com cré” e ares de “pesquisas”.
– Pelo menos não disseram “pesquisas científicas”... (Strovézio).
– A incompetência de alguns setores se demonstra pela capacidade de investigação, Strovézio... neste caso, tá tudo “serto”.


Primeiro tiro no pé:
O CONFEF já se aproxima da “maioridade”... está perto de seus 18 anos de existência. E neste tempo, esta temática de “atividade física para combater o sedentarismo e a obesidade” sempre se fez presente. Inclusive na Escola.
Precisaria explicar porque os níveis de sedentarismo e obesidade continuam crescendo, mesmo a Educação Física sendo obrigatória... até a assinatura da tal MP pelo governo capacho de marionete temer.

Segundo tiro no pé:
Justificar a Educação Física na Escola (e no Ensino Médio) pelo fato de termos sediados Megaeventos Esportivos é o ápice da aparência, pois dá a entender que (i) é na escola que os atletas de ponta se formam (e não é) e (ii) que a Educação Física se justifica apenas pela “prática esportiva”. Assim, abre precedente para a opção (da escola ou dos alunos, como defende a MP) de querer ou não praticar esporte (qual modalidade for, mas sabemos que se limita às suas expressões de “os quatro fantásticos”: handebol, futebol, voleibol e basquetebol) e, pior ainda, coloca a nossa disciplina vinculada a eventos.

– Como diria Eduardo Galeano, “evento, é vento”... (Strovézio).
– Bem isso, Strovézio...

Terceiro tiro no pé:
Formação Cidadã (em que pese um debate de fundo necessário, mas dispensamos por hora) é importante e tals. Não seríamos contra a formação cidadã. Mas qualquer docente, e nem muito “safo”, vai dizer “ah! Por isso não... a formação cidadã é tarefa de toda a escola”.
E, cá pra nós (sem defender a obra, claro), a MP vai defender uma “formação cidadã” que, afora o fato de ter mexido com a Educação Física, é a mesma que o próprio CONFEF defende: a formação cidadã para o mercado de trabalho. É pouco para quem quer uma verdadeira formação emancipatória humana.
Isso tudo, para não termos que mencionar que o CONFEF sequer se posiciona sobre os acontecimentos políticos recentes no país. Perdeu uma boa oportunidade.

Ainda bem que temos gente séria:
O Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) destaca, em determinado momento, de nota pública:

“[...] No caso da Educação Física, essa medida (a MP) negará aos estudantes a oportunidade de apropriarem-se daqueles saberes que proporcionam a leitura, compreensão e produção das práticas corporais, entendidas como formas de expressão dos grupos sociais. Isso significa a impossibilidade de conhecer, desfrutar e transformar uma parcela do repertório cultural disponível”


a Nota da LEPEL/UFPA sobre a MP destaca, dentre outros:
“A MP que reestrutura o ensino médio é um ataque covarde que rebaixa o ensino médio com a redução e flexibilização de carga horária e de conteúdos, um retrocesso ao pensamento crítico e a carreira docente com superespecialização precoce e a contratação de professores sem formação adequada, através do discurso do notório saber, negando a formação no ensino superior pra desenvolver mão-de-obra cada vez mais barata”.

E a Nota da Executiva dos Estudantes de Educação Física (ExNEEF), portanto, futuros professores em formação:

“Desde os tempos da ditadura militar não se viam retrocessos tão grandes quanto aos que estamos sofrendo neste momento. [...]”
E comenta, também, quando destaca que a partir dos anos 1980, a Educação Física:
“[...] se ressignifica e traz debates importantes que apontam para que o corpo também é político, e que se comunica através da linguagem corporal nas diferentes culturas e momentos históricos (através de práticas corporais como a Capoeira, as lutas, as danças, a ginástica, os jogos, as brincadeiras, os esportes, as atividades circenses etc.), e que neste sentido, a mesma deve ser crítica e contribuir na formação dos diferentes sujeitos do processo educacional. [...] A Educação Física na escola cumpre seu papel pedagógico e não deve ser função da escola a formação de atletas como foi prática de outros períodos históricos”.

É importante destacar: há diferenças (talvez algumas divergências) entre as três últimas entidades aqui postas (CBCE, LEPEL/UFPA e ExNEEF). Mas reconhecemos que o tom e o conteúdo destas, de longe, são infinitamente mais consistentes que a do CONFEF.
Aliás, as três notas, diferente da corporativista (e superficial) nota desta entidade mafiosa, não fica limitada à Educação Física. Faz a leitura do todo, preocupadas, também, com a retirada da Filosofia, Sociologia e Artes do Ensino Médio.
Evidentemente, muito há ainda o que se fazer não só pela Educação Física, nosso chão particular de atuação profissional. Mas as notas em destaque deixam claro, ao nosso pequeno público, que muito já fizemos.
Porém, as surpresas (neste debate, em particular) parece vir de “lugares” estranhos... ainda que não nos deixemos enganar, eis que solta a língua o Fausto Silva:


Pois bom...
À contar com essa nossa imprensa medíocre (principalmente a imprensa esportiva), acostumada a golpes e “maquiagens”, sempre caminhando pelo “superficial” do conhecimento historicamente produzido e sistematizado pela humanidade, não nos surpreende que em pleno domingo, em um programa de auditório – que, há muito, não temos estômago para assistir (e, reconhecemos, até perdemos uma coisa bacana aqui, outra ali) – seu “âncora” largue o verbo...
Este picadeiro de terra batida e lona furada de circo não se ilude. Basta registrar que na manhã seguinte (Bom Dia Brasil) nada sobre este comentário e, novamente, matérias elogiando a tal MP.... E que o temer capacho de marionete do capital até fez questão de ligar para o apresentador, para "esclarecer" a MP... Aguardemos o próximo "Domingão"...

Mero balão de ensaio?
O gato do temer subiu no telhado?
Vem coisa por aí... Muita coisa...

Venham Todos!
Venham Todas!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

1º de Setembro... da farsa à “estupidez”




Não iríamos falar muito hoje. Já o fizemos, e bem (humildemente) em anos anteriores.
Afinal, neste nosso picadeiro de terra batida e lona furada, nossos artistas estão muito além do que este pseudo “Dia do Profissional de Educação Física” tenta representar.
Nossos Palhaços, Strovézio e Cia, saltam, rodopiam, dão “cambalhota” e ensinam tudo isso para os presentes e futuros palhaços destes e de outros circos e não se curvam aos ditames do sistema confef/cref, que defende que este ensinar é prerrogativa da Educação Física.
O Homem Mais Fortemente Apaixonado pela Humanidade do mundo, ensina força e amor em sua Academia de Luta e Ginástica. E não dá a mínima para este sistema.
Nossos Equilibristas da Paciência, experts em biomecânica e filosofia, não privatizam uma vírgula sequer dos conhecimentos construídos (por eles e pela história da humanidade) desta relação de áreas aparentemente tão distintas.
E as Bailarinas da Alegria Arrancada do Futuro? Sintetizam a Dança em suas imensuráveis expressões e as democratizam em arte e ensinamento.


– Russo...

– Diga, minha leve e bailante Bailarina...
– Hoje é o Dia da Bailarina e do Bailarino...




          Isso tudo e um tanto mais para este humilde circo nunca foi uma dúvida. Somos, todos e todas aqui, PROFESSORES e PROFESSORAS. Nosso dia – por seu significado e suas lutas – sempre será o dia 15 de outubro.
Em 1º de setembro, nos permitimos celebrar os aniversários deste dia, alguns, inclusive, bravos/as Lutadores/as do Povo!
Mas, claro, não estamos numa redoma de vidro ideológico. Atento estamos aos movimentos deste dia. E dos muitos movimentos (e caros – como os comerciais de TV e as “pontas” em novelas), um nos chamou a atenção.
De um “renomado” docente de ensino superior da Universidade Federal do Pará (e da Educação Física), em um grupo de professores vinculados aos espaços zapzapianos, a primeira imagem celebrativa:



É... seria exagero comentar o que é uma foto de pessoas brancas – apenas pessoas brancas – com alteres, garrafinha d’água, uma bola e uma “balança”...
– Mas Russo, a balança não fica no chão? Tipo pra gente “subir nela” e conferir o peso? (Strovézio)
– Sim...
– E este novo jeito de se pesar, segurando a balança?
– Pensei em perguntar aos nossos Equilibristas da Paciência...
– TAMBÉM NÃO ENTENDEMOS! (Os Equilibristas)...
– Tá “serto” então... (Strovézio).

Em síntese: uma área que vem se manifestando no campo da produção e sistematização do conhecimento, com avanços científicos de toda ordem, ser resumida a uma imagem que sequer consegue dizer “para além” da representação do senso comum (e da característica do povo brasileiro) já era merecedora de um ensurdecedor “Não tinha foto melhor?”.
Mas a coisa piora:



I – Educador(es) Físico(s)?

Diríamos, sem medo de arriscar, que até os mais sérios professores do campo da Educação Física que estão ao lado da tese que sustenta a existência ou necessidade de uma regulamentação (sob ás rédeas do tal confef/cref) não se identificam com o termo.
Tentar imaginar que concepção de formação profissional está por trás e sustentando esta caracterização do trabalhador/professor de Educação Física, é um exercício doloroso.
É claro que existe uma concepção.
Complicado é ver um docente de ensino superior (que, portanto, a vivencia em sua prática docente) defender esta concepção.
Mas tem mais...

II – “Às vezes somos [...] Babá”...

Estamos aqui, todos nós neste picadeiro, quebrando a cabeça pra localizar em que parte de nossa formação incorporamos os elementos, conteúdos, conhecimentos necessários ao exercício babá-profissional de Educação Física.

– Talvez o nobre docente possa ajudar, Russo... “gestão de cuidados de pequenos”? (Strovézio).
– Talvez, Strovézio...

Claro, nenhuma desqualificação da importância do trabalho de uma Babá. Aliás, muito pelo contrário. É justamente por entendermos que não se trata de trabalho menor, desqualificado, que a manifestação de “as vezes babá” é de uma injúria profissional sem tamanho.
Isso, claro, pra não falar da desqualificação do trabalho docente, central e fundante de nossa área.
Pior é que tem mais...

III – “Pode ser que até não ganhemos muito em dinheiro”.

Típico de uma instituição que defende a área, mas não os seus trabalhadores. Expressão clara de que nem é esta, mesmo, a intenção.
Pior é que, ainda que “não ganhemos muito dinheiro”, os professores vinculados/inscritos no sistema sempre serão cobrados a pagarem suas dívidas para com o conselho, para poderem continuar trabalhando.
Movimento interessante: não lutamos (porque nem lhes cabe) por melhores condições de trabalho e salário, mas continuaremos a cobrar de vocês para que continuem trabalhando sem melhores condições de trabalho e salário...
É o tango-do-brano-maluco!

E, por fim, a coroação...

IV – A morte a língua portuguesa em três míseros parágrafos...

... e por um docente de ensino superior.
Basta um destaque apenas (porque foram mais):

“Mas ganhamos muito quando nossos alunos retribui esse esforço que temos”.

(Obs.: evidentemente, enquanto escrevemos, o word grifa o trecho, indicando o crime gramatical).

– Tá “serto”! (Todo o circo)

Não é só Fora temer!
É Fora CONFEF/CREF!

Venham Todos!

Venham Todas!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Hoje, não me dê "Parabéns!"... por favor...




“A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tenho por consequência a morte
A guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso
Todo o querer-alterar”
(Alberto Caiero/Fernando Pessoa
Poemas Inconjuntos)


                Há alguns anos, nosso Picadeiro de terra batida e lona furada assim registrou o 1º de setembro:
                “Na história da humanidade, o 1º de setembro é marcado pela invasão Hitleriana com tanques de guerra até os dentes pela fronteira polonesa e, desta invasão, o mundo testemunhou um dos períodos mais sangrentos da história moderna: a Segunda Grande Guerra!
                Hoje, como herança geopolítica deste conflito, a ONU ainda tem como membros do Conselho de Segurança os mesmos vencedores daquele conflito, ainda que a realidade política mundial tenha sido alterada profundamente...
                Qualquer semelhança com o que hoje, no Brasil, alguns ousam celebrar com o “Dia do Profissional de Educação Física” não passam tão distante daquele fato de 1939.
                Ainda que não estejamos falando de “Guerra Mundial”, falamos do assalto violento à luta por uma educação de qualidade, por uma formação comprometida com a transformação social, por uma educação física libertadora.
                Por trás desta data, temos a expressão da opressão, da coerção e da coação, ações idênticas as que o movimento nazista (seguido por Mussolini) empregava contra povos judeus, tchecos, poloneses, austríacos e disseminavam pelo oriente e América Latina.
                Não existe (ainda que alguns queiram) mais ou menos opressão, mais ou menos coação, mais ou menos coerção... são todas elas violência. Foi assim na II Grande Guerra, é assim com o Conselho Federal de Educação Física e seus regionais, o Sistema CONFEF/CREF.
                Não defender, no olhar à história da humanidade, os princípios do nazismo é, igualmente, não defender os princípios deste sistema, expressão explícita da coisificação do homem e (da manifestação defesa em colocar) “trabalhador/a contra trabalhador/a”.
                A lição é a mesma: aprendemos com a História, passada e presente, o preço de nossa ilusão, ignorância e, principalmente, de nossas próprias correntes!”

                Naquele não tão distante ano de 2010, mantínhamos a nossa posição de estarmos ao lado da Classe Trabalhadora e dos/as Trabalhadores da Educação Física (PROFESSORES/AS) e, portanto, na trincheira oposta ao Sistema CONFEF/CREF.
                – Dá pra parar com esses termos de baixo calão??? (Palhaço).
                – Perdoe-me, Strovézio... mas para expor minha posição, tenho que citar o inimigo.
                Houve, à época, alguns “protestos”, centrados, precisamente, à minha analogia acerca do 1º de setembro entre o início da Segunda Guerra Mundial e o Dia do Profissional de Educação Física... e, claro, as ofensas a este humilde apresentador.

                De qualquer maneira, mantemos firmes e mais claras ainda nossa posição: nossa luta contra os CONFEF/CREF é nossa luta em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras das práticas corporais, é nossa defesa aos Professores (que somos) e Professoras de Educação Física...
                E não recuaremos... nosso direito a cambalhotas, equilíbrio, lançamento, saltos, força e nossas várias outras práticas corporais continuará.


               Sim... o Dia do Profissional de Educação Física é uma farsa... Nós somos PRO-FES-SO-RES! E celebramos o dia 15 de outubro...
                Venham Todos!
                Venham Todas!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Discurso de Formatura – Turma 2010 – Educação Física/UFPA – Castanhal





            Saudações aos membros da mesa
            Saudações à Professora Mirleide Chaar Bahia, homenageada da turma. Saudações a Ester Corrêa, Oradora penso que com justiça e que em suas palavras soube expressar os desafios que agora, todos/as vocês tem pela frente.
      Minha saudação, claro, especial, aos alunos, agora professores e professoras de Educação Física 2010, seus familiares e amigos presentes. Saúdo, também, todos e todas que por caminhos e descaminhos da vida, não estão presentes aqui mas, com certeza, estão sendo lembrados em seus corações. Em particular, ao coração de nossa querida Ester Pina.
           Fico feliz em ter a oportunidade de gozar, mais uma vez, da honra de ser homenageado por mais uma turma de formandos desta Faculdade que me acolheu em 2008 e vem me colocando inúmeros desafios, tanto dentro, quanto fora dela.
Com cada turma, um caminho diferente nos mesmos lugares, quase as mesmas disciplinas, desafios particulares, a falta de professores em nossa Faculdade, a saída de alguns, a chegada de outros, o retorno aos que estavam em pós-graduação... Creio que a própria oradora da turma pôde sintetizar melhor e com mais realismo a história da Turma 2010. Eu, da minha parte, falarei a vocês, Professores e Professoras de Educação Física, do lugar de onde estou: o de constante aprendiz de Lutador e Lutadora do Povo... Esse, aliás, um termo que lamentavelmente vem sendo de um tempo pra cá achincalhado, desqualificado em diferentes manifestações, algumas até acadêmicas. Claro, não por aqueles que conseguem olhar e compreender as contradições deste nosso mundo, destes nossos tempos.
E isso eu tive o privilégio, mesmo em um tempo curto, de compartilhar com vocês: a franqueza e a fraternidade de debates espinhosos, difíceis, antagônicos inclusive e que me provaram que não apenas vale a pena, mas é necessário continuarmos militantes, combatentes, Lutadores e Lutadoras do Povo, mesmo que sempre aprendizes.
Portanto, ao falar para vocês como professor, falo, também, como aprendiz de nossa história de convivência.
         É comum eu buscar na história da humanidade as lições que aqui valeriam a pena ser, pelo menos, compartilhadas. Não seria diferente com vocês. Mas, há uma particularidade que irei destacar mais ao final de minhas palavras.
         Por enquanto, vamos falar do 11 de abril.
         Tem um cara que nasceu em 11 de abril que, acho, é a cara de vocês. Digo isso, porque lembro a “Banda da 2010”. Lembro do Djan e da Paula (que mudou de curso) tocando nesta banda. E lembro de um som em particular que se cantarolava mais ou menos assim:

            “Eu tava triste, tristinho / Mais sem graça que a top-model magrela / Na passarela / ... / Por isso hoje eu acordei / Com uma vontade danada / De mandar flores ao delegado / De bater na porta do vizinho / E desejar bom dia / De beijar o português / Da padaria”

         Zeca Baleiro é um cara que nasceu em 11 de abril e não apenas isso, foi a primeira música tocada pela saudosa Banda da 2010 aqui na UFPA. Pelo menos que eu tenha testemunhado.
A música se fez presente nesta Turma. Tocamos juntos nas atividades do CONCENO em 2010, testemunhei o som da Banda em uma recepção de calouros da 2011 quando eu falava o bom e velho mantra “Toca Raul!”. Tocamos no alojamento do CONCENO em Macapá (Ranielle e Denison mandando ver) e acho que o Bar Acadêmico deste mesmo evento, com “Que país e esse?” chamado por vocês que lá estavam, manifestava a música nas veias desta Turma. Que ela continue acompanhando-os adiante.
          Mas, há mais na história desta data que, agora, também lhes pertence e, ao mesmo tempo, não lhes pertence mais. Porque a história não pertence apenas a aqueles que a contam e é entendida como oficial. Fizemos o possível para entendermos e vivenciarmos isso ao longo da nossa relação acadêmica.
Quero contar a história de 11 de abril voltando ao tempo e, claro, dividir com vocês as lições que, acredito, possam ser tiradas dela. E histórias que, se um dia lhes foram contadas – e quase sempre não as são – foram incompletas.
11 de abril de 2002... Venezuela... Talvez quisesse falar aqui do dia 13 de abril, mas é o dia 11 que, inquestionavelmente, nossas lições deste ato são importantes. Nesta data, a imprensa privada, os grandes ricos daquele país (e de fora) e o apoio intenso dos Estados Unidos perpetraram um Golpe de Estado, tirando Chavez da presidência em assalto. Para aqueles céticos, que escutam minhas palavras com o olhar enviesado de crítica ao militante, é preciso lembrar: Hugo Chavez era um presidente eleito pelo povo, que conduzia seu governo para atender as necessidades e anseios de seu povo e fora vítima de um Golpe Civil, Midiático e Pouco Militar (desconsiderando a presença norte-americana). Foram dias, semanas que antecederam o Golpe, transmitidos com imagens retorcidas, invertidas, alteradas com o único objetivo de formar uma opinião homogênea, nacional e internacionalmente, sobre o que acontecia na Venezuela e, portanto, legitimar o golpe contra o seu presidente Hugo Chavez. E está acontecendo de novo...
Mas o que ninguém imaginava era o retorno de Chavez, dois dias depois, nos braços do povo. Aprendemos com a volta de Hugo Chavez ao Palácio de Miraflores a soberania. Não houve perseguição... Não houve censura... E a lição de soberania, meus caros professores e professoras de Educação Física, nós falamos em sala de aula, quando refletíamos sobre o Estado Soberano.

Hugo Chaves! Presente!
 Um povo organizado e soberano não se curva aos interesses do capital. O que vimos em 2002 na Venezuela foi o representante do povo levado de volta a seu lugar pelos braços do povo, desmentindo e desmascarando a mídia, o capital e o imperialismo norte-americano. Vimos um pouco disso ano passado, aqui no Brasil, mas nossa Imprensa conseguiu se reorganizar mais rapidamente do que naqueles tempos.
O Povo, senhoras e senhores... e vocês, como professores e professoras que agora já são, tem o compromisso com essa lição: não aceitem e não permitam que seus alunos, na escola ou fora dela, acreditem e aceitem tudo sem questionar, sem buscar mais, não apenas informações, mas conhecimento. E conhecimento, senhoras e senhoras, pode ser revolucionário. Nas mãos de Lutadores e Lutadoras do Povo, certamente é revolucionário.
Houve um 11 de abril bem distante em nossa história. E bem triste também... aqui no Brasil, daqui a alguns dias, temos a “celebração” do Dia do Índio. Em nossas escolas, principalmente, esta data é marcada pelas manifestações mais superficiais, em sua grande maioria, cheia de simbologia exótica e alegórica. É uma data marcada por lei e tals... Mas, gostaria que vocês jamais se esquecessem deste 11 de abril, não apenas por estarem oficialmente se formando... Mas que celebrassem também o “Dia da Nação Charrua e da Identidade Indígena” ("Día de la Nación Charrúa y de la Identidad Indígena"). É o Dia do Índio uruguaio, uma data nova, do ponto de vista legal, naquele país (de 2009). Mas, diferente de nossas terras brasilis, ainda que tarde, reconhecida. Chama-se “Dia da Nação Churrua”, porque em 11 de abril de 1831, o Povo Churrua foi massacrado em Salsipuedes. Um etnocídio, meus amigos e minhas amigas, que nossos livros de história não contam. Como eu disse, uma história triste e que não se limita apenas a essa data e a esse massacre, pois as consequências pontuais a este povo o seguiu por mais dois anos, pelo menos...

Últimos índios Churruas, aprisionados e sendo levados para a França... como atração de circo...

É preciso lembrar: um povo sem história é um povo sem memória... Um povo sem memória é um povo sem esperança. Essa é a simples lição da Nação Churrua... Nação Churrua, Presente!
Quero convidá-los a um outro 11 de abril, também distante, em 1856 e para um lugar também um pouco mais distante. Falo da Costa Rica, país da América Central. Celebrem este dia, também pelo povo de Costa Rica. Celebrem essa data em nome de Juan Santamaria, jovem costarriquenho. Aquele país enfrentava um conflito bélico contra a Nicarágua (com apoio dos Estados Unidos – de novo o imperialismo) que, naqueles tempos tinha como presidente William Walker... um norte-americano, que queria conquistar e escravizar a América Central. Hoje, meus camaradas, na Costa Rica, é o “Dia de los Héroes”, o Dia dos Heróis... Esse jovem costa-riquenho avançou contra as tropas inimigas, com uma tocha em mãos, na histórica Batalha de Rivas”.

Estátua de Juan Santamaria
 Não é fácil ser Herói, camaradas... Parece-me, inclusive, que em tempos em que até o alienante espaço de realities-show chamam seus participantes de “heróis”, em que nos aproximamos de eventos que formam “novos” heróis no esporte (por mais alienados que sejam), falta-nos a capacidade de dizer quem é Herói verdadeiramente... Eu me arriscaria aqui, mesmo com o risco de parecer clichê, de parecer ousado demais, de convidá-los a serem heróis. Precisamos reescrever esse conceito, olhando para a história dos verdadeiros Lutadores e Lutadoras do Povo.
Mas, afinal, quem eles são?
Aqui no Brasil, teríamos muitos exemplos de heróis, de Lutadores e Lutadoras do Povo. Hoje, 11 de abril, completamos exatos 50 anos da eleição, no Congresso Nacional, de Humberto Castelo Branco... o Primeiro presidente da Ditadura Civil-Militar brasileira, que durou 21 anos. É importante que percebamos o que foi este período e porque essa data é importante, inclusive, para vocês. Vocês estão se tornando Professores e Professoras de Educação Física no ano em que lembramos dos 50 anos do Golpe Civil-Militar em nosso país. Não é apenas o 11 de abril... São 50 anos...
Falamos agora a pouco de música... Durante 21 anos, não podíamos cantar livremente.
Falamos agora a pouco de povos indígenas... Sim, eles também foram quase que exterminados durante 21 anos... Eles não podiam ser livres, como aprenderam a ser...
Falamos agora a pouco de Jovens, de Heróis... Eles não morreram de overdose, mas não estão entre nós. Durante 21 anos seus sonhos, suas lutas foram silenciadas...
Para mim, particularmente, não é um tema fácil... Sempre que falo sobre ele com meus/minhas companheiros/companheiras de luta e estrada, inclusive aqui, entre vocês, falo de um tempo que não vivi com a consciência do que não vivi nestes tempos. Não vivi um avô... não vivi uma educação de verdade e formadora da liberdade... Vivi o medo alheio sem entende-lo, inclusive dentre de minha casa...
Agora, tenho a impressão que precisamos esperar 50 anos, 50 longos anos para saber cada vez mais o que foi 1964. Do que acontecia antes e do que aconteceu depois.
Mas é possível celebrarmos, com vocês, essa data. Sim, celebrar! Vocês, aqui em Castanhal, estão recebendo seus diplomas, de professores e professoras de Educação Física. E o que faz um Professor ou uma Professora de Educação Física, em país que ainda não aprendeu a contar e reconhecer sua própria história?
Voltemos às lições anteriores: um povo sem memória é um povo sem história e um povo sem história é um povo sem esperança.
Vivemos tempos difíceis, meus e minhas camaradas... Tempos em que, talvez mais do que nunca, precisamos ficar atentos. Tempos em que mais do que nunca a juventude precisa ter esperança.
Vocês agora se formam... há um legado de vida da Turma 2010, como há um legado das turmas anteriores e das que virão. Mas ainda temos muito que fazer nesta Universidade. Já disse a todos e todas que pude cumprimentar em suas formaturas e continuarei a dizer durante as próximas: precisamos pintar essa Universidade de negro, de índio, de camponês, de trabalhador, de mulher... Precisamos pintar essa Universidade de Revolucionária. Eram as palavras de Che Guevara após a Revolução Cubana de 1959 quando ia às Universidades em Cuba. Precisamos fazer isso desde o momento que pretendemos entrar nesta Universidade até o momento em que a ela retornarmos. E ainda que não acreditem nestas palavras de um comunista, ateu, revolucionário, pelo menos olhem para esta Universidade... Olhemos para essa Universidade e vejamos, aqui, neste Ato de Formatura, se está faltando alguém... Quem deveria estar aqui, quem esteve presente nesta jornada de pouco mais de quatro anos com vocês e não está aqui...
Eu olho para vocês, eu vejo vocês, seus familiares e amigos aqui presentes e, sim, eu vejo todos aqueles que mencionei aqui presentes. Mulheres, Trabalhadores, representantes indígenas, negros, pobres financeiramente, representantes da terra, da floresta, das águas amazônicas... Mas, ao mesmo tempo, não os vejo. Precisamos olhar para nossa Universidade e compreender que ela não é feita apenas de alunos e professores... Espero ainda pelo dia em que verei na UFPA, aqui em Castanhal, um técnico-administrativo, um trabalhador ou trabalhadora da limpeza e manutenção, da biblioteca, do transporte neste Ato, homenageados com nome de turma, como patronos, paraninfos... e entende-los como não apenas importantes, mas essenciais à nossa formação...
Realmente ainda temos muito que fazer por aqui e, por isso mesmo, e à guisa de minhas conclusões, gostaria de refazer o convite já feito em sala, acrescentado de um que vocês precisam, inicialmente, procurá-lo dentro de vocês.
Primeiro: voltem à esta casa. Voltem à esta Universidade... Até podemos ficar em trincheiras opostas, e isso faz parte da Universidade Pública brasileira. Mas voltem a esta casa... Essa formatura não pode ser ponto final na formação de vocês.
Mas há um segundo convite, sempre feito e sempre a faze-lo: convido-os a serem revolucionários. Heróis e Revolucionários! Esse é o novo 11 de abril! Por tudo o que viveram nesta Universidade. Por tudo o que não viveram e não perceberam nesta Universidade. Por tudo o que esta Universidade ainda precisa fazer e, principalmente, sejam heróis e revolucionários por quem sustenta essa Universidade: o povo brasileiro.
A formação de vocês não acaba aqui. O que vocês construíram aqui não nos pertence (nós professores) e nem a vocês... e, por isso, gostaria de terminar essas poucas palavras trazendo um poeta já conhecido de vocês. Afinal, foi um colega... um companheiro de vocês que lhes apresentou, em um de nossos Temas Contemporâneos, Bertold Brecht. O escritor da classe trabalhadora em seu “Sobre a Construção de Obras Duradouras” nos dizia:

“Quanto tempo duram as obras? Tanto quanto o preciso pra ficarem prontas. / Pois enquanto dão que fazer / Não ruem.
Convidando ao esforço / Compensando a participação / A sua essência é duradoura enquanto convidam e compensam.
As úteis / Pedem homens (e mulheres, claro)
As artísticas / Têm lugar pra a arte
As sábias / Pedem sabedoria
As destinadas à perfeição / Mostram lacunas
As que duram muito / Estão sempre pra cair
As planeadas verdadeiramente em grande / Estão por acabar.
Incompletas ainda / Como o muro à espera da hera
(Esse esteve um dia inacabado / Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!)
 Insustentável ainda / Como a máquina que se usa / Embora já não chegue / Mas promete outra melhor. / Assim terá de construir-se / A obra pra durar como / A máquina cheia de defeitos.”.

Quanto tempo dura a turma 2010 da Faculdade de Educação Física da UFPA/Castanhal? Vocês devem durar muito, muito tempo, camaradas... Pois ainda darão muito o que fazer.
Vida Longa à Turma 2010 de Educação Física da UFPA/Castanhal.
Vida Longa!