RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

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quarta-feira, 8 de março de 2017

Todas as Mulheres...




            “Um corpo trans
 numa abordagem policial.
 Transgressão não, irmão
 baculejo
 violência
 Essa desgraça é mulher
 tapa
 chute
 empurrão
 medo
 vergonha
 desumanização
 ninguém sente
 ninguém se comove
 não é gente
 sem-lugar
 se matasse ali mesmo
 homens e mulheres de bem
 ainda iam nos culpar
 Quem mandou inventar?
 ainda é carnaval, cidade...”
(Tito Carvalhal)

Quem escreveu isso e permitiu que essas palavras caminhassem em nosso picadeiro de terra batida e lona furada de circo foi um camarada da Bahia, que conheci no dia-a-dia dos estudos pelas terras soteropolitanas.
Tito nasceu mulher... percebeu-se e tornou-se homem.
E estas (não todas) palavras de Tito não foram escritas para o 8 de março... são escritas para e por todos os dias...
Mulheres...
Mulheres Brancas ou Negras...
Mulheres Brancas ou Negras Pobres...
Mulheres Brancas ou Negras Pobres Analfabetas...
São Mulheres...

Mulheres...
Mulheres que não eram mulheres... tornaram-se...
Mulheres que eram mulheres... tornaram-se homens...
Mulheres que continuam mulheres...
Mais homens do que os homens...
Mais homens-mulheres... e que outros homens temem (pela violência) tanto quanto...

Nosso picadeiro de terra batida e lona furada de circo sempre se faz presente no 8 de março. E sempre opta por também expor a vigilância ao machista que está lá dentro, escondido da/na gente.
E Tito, nosso camarada Tito, nos inspirou para, por mais um ano, continuarmos a celebrar as mulheres que amam e que lutam.
Celebrar as mulheres que não cedem seus sonhos às vontades alheias ao seu lugar feminino.
Celebrar as mulheres Lutadoras do Povo, claro!

E continuarmos vigilantes... e quando a vigilância falhar, cobrar mais vigilância.
Vigilante ao tapa e ao silêncio...
Vigilante ao empurrão e ao silêncio...
Vigilante ao medo e ao silêncio...
Vigilante à vergonha e ao silêncio...
Vigilante à desumanização... e ao silêncio à nossa muitas vezes seletiva humanização.



E que a Emancipação Humana seja, verdadeiramente, nosso grande momento histórico para, nas palavras de Clara Zetkin, celebrarmos a luta, ombro a ombro, que estabelecemos contra a sociedade capitalista.
E que a Emancipação Humana seja, profundamente, e em marcha, como as primeiras (e que foram o berço da Revolução Russa de 1917) convocadas por Aleksandra Kollontai, por “Pão e Paz”.
E que a Emancipação Humana seja, historicamente a luz, a flor, o povo e seu canto dizendo “Presente” à primavera que chega, mesmo que tardia.

– Russo! Hey, Russo!
– Diga lá, nossa nobre Bailarina da Alegria Arrancada do Futuro!
– E hoje é aniversário de Tito!
– Só podia ser...

Viva, Viva Tito! Vida Longa!
Viva, Viva, às Mulheres!

Venham Todos!
Venham Todas!

PS.: publicamos este texto em tempos os quais a Anistia Internacional publica relatório destacando que o Brasil é um dos piores países da América Latina para se nascer menina... imagina quando as meninas e os meninos tornam-se mulheres... 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Jacinta Passos... comunista, baiana... Mulher!

Capa do livro Canção da partida, de Jacinta Passos.
ilustração Lasar Segall



“Acabem com isto!
 Façam o sol parar!
 Predam Zebedeu
 esvaziem o mar!
 Meu Deus, que aflição!
 Fuzilem Maria,
 tapem o vulcão!”

(Pânico Burguês/1951
 – Jacinta Passos).





A poesia é algo entre o misterioso e o inimaginável, com incontáveis outros temperes envolvidos.
Às vezes, pelas andanças das cordas de meu violão, quando consegui expressar ideias, vontades, esperanças, amor em canções como “O Menino e o Palhaço” ou, dantes, “Os Sinos de Londres” (letras já divididas por este picadeiro de terra batida ou ainda nos tempos do fantástico ArcaMundo), me perguntava “como essas palavras se organizam em minha cabeça? Como as transformo em música? E por que essas músicas, essas melodias?”.
Em um país como o nosso, e em tempos como estes, palavras escritas com tantos detalhes e contextos (sim, nossas canções tentavam ser assim) parecem, à bem da verdade, não fazer tanto sentido assim.
Hoje, penso nisso neste picadeiro...
Todas as conversas ao pé de ouvido que tivemos e ainda teremos...
Todas as despedidas...
Todas nossas pequenas viagens sobre o contexto de assombro e vigilância que cada vez mais se fazem presente – com o cada vez mais ainda silêncio das panelas e camisas amarelas...
Todas as relações humanas que, parecem, insistem em vigiar qualquer semente de “amor a humanidade” que queira brotar e vencer a secura de nossos corações... inclusive as sementes em terras de corações revolucionários...

E particularmente, nestes tempos destes dias de Carnaval – que também tem lá suas várias faces de resistência sendo oprimidas, ou pela força, ou pelo silêncio – lembrei-me de uma baiana...
Uma comunista...
Uma Mulher...
Ela não deverá, tão cedo, ser enredo de Escola de Samba...

Seu nome: Jacinta Passos!



Jacinta Passos “chegou” em minha história ainda no ano passado, em minhas várias pesquisas particulares sobre a história de Lutadores e Lutadoras do Povo.
E, na busca por sua literatura, encontro este pequeno livro de poemas, em um sebo. Sensível pelo corroer do tempo, assim como as palavras que dançam e se comungam em suas páginas: Poemas Políticos.



Novamente falando de tempos como os que vivemos, não parece-me demorar muito os dias em que livros como estes, com “títulos como estes” serão “perseguidos” e jogados na fogueira.
É... preciso prevenir-me...

Jacinta Passos nasceu em 1914, em Cruz das Almas, Recôncavo Baiano. E despediu-se em 28 de fevereiro de 1973.
Por isso... neste 28 de fevereiro, nossa humilde homenagem a esta Mulher...
Comunista...
Baiana...

Seus últimos anos de militância e poesia enfrentaram as portas que se abriam para a Ditadura Militar (civil, empresarial, midiática e de reconhecida intervenção norte-americana). Mas a levaram períodos “findouros” de ausência de memória e pobreza.
 
http://jacintapassos.com.br/album-de-fotos/ 

Quando conheci a obra de Jacinta Passos, foi como aprender novamente o valor da poesia na Luta e o quanto elas são mais sublimes e verdadeiras.

O Universal Circo Crítico “reabre” as portas neste ano de 2017.
Com a “Canção Simples” de Jacinta Passos...
Com sua poesia, com sua luta, com suas lições.

Lições de uma Baiana...
Lições de uma Comunista...
Lições de uma Mulher que dava vida às palavras “Lutadora do Povo”...

“A Flor caída no rio
 que a leva para onde quer
 sabia disso e caiu,
 seu destino é ser mulher.

 Leva tudo e segue em frente,
 amor de homem é tufão,
 o de mulher é semente
 que o vento enterrou no chão.

 Mulher que tudo já deu,
 homem que tudo tomou,
 é mulher que se perdeu,
 é homem que conquistou.

 Mulher virgem, condição
 para homem dar – nobre gesto –
 resto duma divisão
 se a divisão deixou resto.

 No sangue, honra é lavada
 de homem que mulher engana,
 mulher que vive enganada
 coitado! fraqueza humana.

 A flor caída no rio
 que a leva para onde quer,
 sabia disso e caiu,
 seu destino é ser mulher”

Sim... a burguesia também teme a poesia!


            Venham Todos!
Venham Todas!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Aplaudam....



“Como seria maravilhoso este mundo se o mesmo esforço [de tornar maior o sofrimento da humanidade para a maior glória do deus Capital, de criar um sistema tão monstruoso à sobrevivência desta mesma humanidade], ou apenas metade dele, fosse dedicado a tornar o trabalho uma atividade alegre e criativa como pode ser” (Harry Braverman)

Aplaudam...
Aplaudam as marchas contra a corrupção (e suas idiotas camisas da CBF) e seu bater de panelas, agora silenciadas por sua imensa covardia e cumplicidade.
Aplaudam seus “Fora Dilma” e “Viva Cunha”... aplaudam seus “Fora Renan” e o silêncio celebrativo ao Capacho de Marionete do Capital, presidente michel temer.
E aplaudam a violência contra servidores públicos Brasil afora, por lutarem por seus empregos e direitos, até mesmo os mais simples - receber salários.
E aplaudam seus silêncio cumpliciado com esta justiça federal tosca e covarde, cúmplice apenas de seus próprios benefícios.
Aplaudam...

Aplaudam todos aqueles que estão nas Universidades Públicas, nos Institutos Federais e nas Escolas Públicas, vendo-as serem destruídas todos os dias e nada fazendo contra isso...
Apenas aplaudindo esta destruição, com o escroto discurso de “responsabilidade acadêmica e científica” que se expressa sendo contra toda e qualquer forma de luta...
Aplaudam... Mesmo que “cientificamente”, mas...
Aplaudam...

Aplaudam seu “direito de ir e vir”, ainda que não tenham sequer a mínima ideia para onde irão.
Aplaudam suas palavras de ordem “o seu direito termina quando o meu começa”, sem terem a mínima e estúpida ideia sobre quem irá definir até onde o “meu” de vocês chegará.
Aplaudam seus 65 anos de idade trabalhando, co-somados a 49 anos para terem direito a uma Previdência aparentemente digna. E aplaudam os Militares (com seus benefícios acumulados), os juízes (e seus inúmeros “justas retribuições” incorporadas em seus salários-teto) e os parlamentares (e seus inúmeros subsídios financeiros)... e, claro, continuem às ruas contra a corrupção.
Aplaudam, idiotas.
Aplaudam...



Aplaudam sua filosófica idiotice, de acreditarem no aparente como fato histórico. E fazerem do “Ouvi dizer...” a verdade concreta de suas ideias de “pessoas de bem”.
Aplaudam não saberem quem financia as guerras.
Aplaudam não saberem quem financia as crises.
Aplaudam não saberem quem decide por seus direitos... os SEUS direitos.
Aplaudam as notícias que vocês não recebem (e, portanto, convencem-se que não existem).
Aplaudam...

Aplaudam a Personalidade do Ano da Editora Três, em um ano desastroso (mas celebrado por alcoviteiros e sanguessugas de nossos direitos).
Aplaudam a Personalidade da Justiça do Ano e seu tét-a-tét com o mais deslavado e cara de pau tucano e seus atos de corrupção deslavados...
Aplaudam as celebridades que celebram sua miséria.
Aplaudam...

Aplaudam os Bancos, que fazem vocês acreditarem que vale a pena ter conta em um Banco que lucra cada vez mais em tempos de crise.
Aplaudam as Minerados que correm por rios mortos e justiça cega... aquela justiça com seus penduricalhos incorporados aos salários-teto.
Aplaudam os Latifundiários (e seu “apelidozinho” de agronegócio) e sua insana fome por devastação do meio ambiente e propagandas de um alimento repleto de veneno.
Aplaudam...

Aplaudam os títulos mundiais brasileiros de violência contra a mulher, de concentração de renda, de morte de jovens (pobres, negros, podres...), os justiceiros de farda, de violência contra homossexuais, de destruição de nações (NAÇÕES) indígenas.
E aplaudam seus “ditados populares” que justificam estas e muitas outras mais violências e sustentam estes títulos.
Aplaudam os idosos e trabalhadores chamados de vagabundos.
Aplaudam...



Aplaudam suas defesas de “Viva o Mercado”, “Privatiza Tudo”, “Meritocracia” e o escambal...
Celebrem os 23 milhões de propina a José Serra...
Celebrem os 10 milhões de propina ao presidente...
Celebrem os Ministros empossados quando réus...
Celebrem o Aeroporto em Sítio do Aécio...
Celebrem um Congresso Tosco, Burro, Cego, Oportunista e Corrupto... tudo com letra maiúscula...
Celebrem a cocaína em helicóptero... 500 vezes, celebrem para cada kilo de cocaína... E a crise de abstinência que isso causou em seus usurários de colarinho branco...
Celebrem, mas celebrem muito 6 votos! Exatos 6 votos da vergonha, do achaque, da “justiça em auto-movimento” (se é que entendem isso)...
Celebrem CPI’s que inocentam políticos, mesmo que à custa de merenda pública...
Celebrem a Seca do Nordeste e a Seca da SABESP por conta da Bolsa de Valores...
Celebrem... mas aplaudam...
Aplaudam muito, de pé, initerruptamente e sonoramente para vocês escutarem a si mesmos...
Aplaudam, por fim, sua própria vergonha...
Aplaudam até seus aplausos fabricados... Mas aplaudam...



Nós não... 
Este picadeiro de terra batida e lona furada de circo, pequeno, humilde, do tamanho que sempre achamos que seríamos, e com as ideias tão grandes que fazem deste Circo um grande lugar, silencia-se por tanta estupides que constatamos a cada dia.
E nós, os artistas deste Circo – reais ou auto-imaginários, não importa – aplaudimos apenas os Lutadores e Lutadoras do Povo... que sabem o que significa lutar pelo povo, com o povo, para o povo...

Vivemos um ano difícil, um ano que tentou ser desolador às lutas e seus sujeitos.
E, mesmo assim, celebramos nossa capacidade de não arrefecer e continuarmos lutando.

A todos estes que lutam, aplaudimos de pé...
Aos que aceitam tudo como coisa natural, ah!, estes todos, vocês todos, não aplaudimos. Apenas dedicamos um poema final:

“Crave, sem dó,
 Profundamente
 A espada em meu peito,
 Deixe-me em meu leito
 Só
 Permanentemente.
 Nada quero ouvir,
 Nada quero falar,
 Não quero nenhum pensamento
 As vozes ecoam
 Por toda minha cabeça
 E antes que eu me esqueça
 Deixem-me ir,
 Enrijecer, gelar
 Assim as vozes se calam
 Neste mundo (de então) fantástico
 Mesquinhamente
 E tão cheio de gente
 Eu por ser diferente
 Nem preciso do seu beneplácito!”
 (“Não Aplaudam” de Claudio Caldas Faria – Taberna do Poeta)

Venham Todos!
Venham Todas!


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Discurso de Formatura - Educação Física 2012.2 - Turma Euzébio de Oliveira


 
“Se por vinte anos, nesta furna escura,
 Deixei dormir a minha maldição,
 Hoje, velha e cansada amargura,
 Minha alma se abrirá como um vulcão.
 E, em torrentes de cólera e loucura,
 Sobre a tua cabeça ferverão
 Vinte anos de silêncio e de tortura,
 Vinte anos de agonia e solidão...

 Maldita sejas pelo ideal perdido!
 Pelo mal que fizeste sem querer!
 Pelo amor que morreu sem ter nascido!

 Pelas horas vividas sem prazer!
 Pela tristeza do que eu tenho sido!
 Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...”
 (Maldição – Olavo Bilac)

Prezados e Prezadas agora Professores e Professoras de Educação Física da UFPA/Castanhal...
Prezados e Prezadas Companheiros e Companheiras de Trabalho, Labuta, Profissão...
Minhas saudações.
Cumprimento, também, nestas palavras que celebram a formatura de vocês, o colega de Faculdade, professor Euzébio de Oliveira, homenageado com o nome da Turma.
Hoje, desta vez, passo apenas com uma expressão escrita, mas não menos honrado em poder me dirigir à esta turma que, agora, é de Professores e Professoras. Turma com a qual tive pouca convivência em sala, mas pude conviver nos corredores, nos eventos, nos diálogos e na recepção em meus tempos de Diretor da Faculdade e que, aos poucos, pude ir guardando o nome de cada um e cada uma de vocês. Expressão, portanto, de que nossa convivência seguiu para além da sala de aula e assim espero que possa seguir daqui por diante.
De qualquer maneira, não poderia passar em branco neste dia 16 de dezembro, data que entra para a história desta cidade, deste estado, deste país e da humanidade (com suas muitas histórias e estranhas versões) como o dia a qual, na nossa singularidade, é mais um dia importante em nossas vidas. A de vocês, que completam mais um ciclo... a nossa (professores), que vemos em nosso ciclo atual de docência, mais uma turma se consagrando.

E Hoje é 16 de dezembro.

Gosto, neste diálogo com professores que se formam, de passear na história da humanidade (o quanto nos é possível, claro) para tentar pensar algumas lições. Sim, a história sempre deixa e continuará deixando lições e elas servem para aprendermos, quer concordemos com elas ou não. Mas é estranho este nosso mundo, porque a “história oficial” normalmente é contada à luz de um velho ditado que diz: “A história do leão sempre é contada pelo caçador”. Alegoricamente falando, nunca pensamos em perguntar ao leão porque ele atacou o caçador.
Ou seja, a história normalmente é contada pelos conquistadores, pelos colonizadores, pelos que tem acesso a escreve-la e divulga-la. E isso, por si só, tornam as lições mais difíceis de serem entendidas e apreendidas. Mas, ainda assim, vale a pena recorrer a elas.
O Poema de Olavo Bilac que abre estas palavras (poeta Brasileiro, nascido em um 16 de dezembro, no século XIX), por mais duras que pareçam para uma saudação em dia de celebração, à bem da verdade dão o tom do que se inicia neste país para, exatamente, os próximos 20 anos... É, portanto, uma “epígrafe poética da nossa realidade” e é preciso ficarmos atentos.
Por outro lado, as palavras que se seguem, neste texto, dirão outra coisa, pois se fundamentam justamente em um termo que, até para nós (hoje, todos/as, Professores e Professoras de Educação Física) é, ainda, muito maltratado: MOVIMENTO. Ou seja, os próximos 20 anos não serão o que o governo brasileiro e as instituições que a ele se acomunaram (congresso) e acovardaram (justiça) a ele e ao Capital querem que seja, se percebemos que a história, por nossas mãos e corações, se movimenta.
Falemos da História em seu movimento, portanto.
Em um 16 de dezembro, digamos, longínquo (1773), ainda às vésperas da Independência mais “conhecida” dos livros didáticos mundo afora (falo dos EUA), um ato de revolta da ainda colônia inglesa foi deveras interessante – e registrada como um dos estopins do que viria a se tornar a independência daquele país: foi a chamada “Festa do Chá de Boston”. Tratava-se de um levante de colonos ingleses e trabalhadores portuários da cidade de Boston contra uma taxação a um dos produtos mais consumidos naquelas terras, o chá, e, também, contra a obrigação de o mesmo só poder ser adquirido pelas mãos da Companhia das Índias (que era inglesa). A tal “Festa” se caracterizou com o lançamento de todo carregamento de chá que chegava ao porto, naquele dia, ao mar... Cerca de 45 toneladas de chá ao mar. Claro, o que se seguiu daquele ato foram confrontos bélicos desproporcionais, pois eram “trabalhadores” desafiando “senhores”.



Os EUA, anos depois, tornou-se um país independente e, não menos, mais um país disposto a conquistar o mundo (assim como seus antes colonizadores).
Assim, tempos depois, já em inicios do século XX, já vivíamos um período em que as grandes potências do hemisfério norte (Europa e EUA) controlavam cerca de 84% dos territórios do globo terrestre... Reparem: 84% do mundo “pertenciam” direta e indiretamente a alguns países apenas. E isso ainda se faz presente.
Mas, e o movimento da História? Qual seria?
As revoltas populares realmente são interessantes: neste caso, uma revolta de uma colônia inglesa (enfrentando as leis de seu colonizador e seu conluio com interesses privados – a Cia da Índias) que transforma um país em uma potência imperialista que faz, exatamente, o que enfrentou séculos antes: coloniza, ocupa territórios e impõe seu modo de vida, consumo, valores etc.
Percebam: é mais ou menos assim que funciona. A gente quase que aceita as relações de poder como “naturais” sem nos darmos conta dos caminhos da história (e a história não caminha sozinha, ela é feita por homens – inclusive na resistência) que as conduziram.
Assim o é até neste nosso “microlugar” chamado Faculdade de Educação Física que, agora, vocês estão se despedindo. Isso acontece até neste campo de atuação à qual nós escolhemos atuar e contribuir com a sociedade.
Precisamos, portanto, reconhecer o nosso lugar nesta história e nestas relações de poder e, mais ainda, assumir franca e fraternalmente, o nosso lugar nesta história e nestas relações. A lição, aqui, é simples: que possamos reconhecer qual o lado que luta para viver dignamente e qual o lado que “luta” (assim, entre aspas, para não macular esta palavra tão valiosa) para continuar a explorar os que querem viver dignamente e, reconhecendo-os, saber qual lado nós ficaremos... Convido-os a ficarem ao lado daqueles que lutam, de verdade, sem aspas, no sentido mais profundo deste termo.
Numa alegoria às 45 toneladas de chá lançados ao mar, naquele longínquo 16 de dezembro de 1773, que possamos fazer a história chegar ao dia em que não lancemos ao mar (para não poluir), mas façamos uma grande fogueira com as carteirinhas do CONFEF/CREF e seus valores, conceitos, imposturas e imbecilidade com a qual dizem representar a nossa área.
Vocês estão concluindo o curso neste fim de ano de 2016. Pelas nossas contas, um pouco mais tarde do que previsto, haja vista as constantes lutas que trabalhadores e estudantes desta Universidade vem empreendendo nos últimos anos e, por duas vezes pelo menos, envolveu a formação de vocês. Aliás, espero que tenham aprendido com essas lutas também.
Mas, pela história – falo deum outro dezembro de 2016, fins de 1905 – o que ela nos marca me consome pela tristeza do fato em si e, também, pela alegria (pela história, que está sempre em movimento) e pela esperança que ela germinou na Classe Trabalhadora daquele longínquo ano,
Afirma-se nos registros da história da luta operária internacional que foi em 16 de dezembro 1905 que sovietes (que eram fortes lideranças daquele ano revolucionário, ainda que derrotado, organizados em “conselhos operários”) foram presos ou colocados na ilegalidade, além de outros oposicionistas ao governo do Czar Nicolau II, na Rússia. Um fato pontual de um ano histórico naquele país.
E aqui, novamente, nossa expressão de que a história se constrói pelo movimento dos homens e mulheres que a ditam. Aquele ano de 1905 foi, certamente, uma grande semente para a Revolução de 1917 que se avizinhava (e 12 anos na história da humanidade é como um grão de areia no deserto). Faz parte daquele 16 de dezembro uma data anterior, 22 de janeiro de 1905, e que a história denominou como “Domingo Sangrento”.
Eram cerca de um milhão de pessoas... em marcha... em direção ao palácio imperial de Nicolau II... Naqueles tempos, é preciso notar, a população de um país – e territorialmente um grande país, como a Rússia – inclusive sua população mais pobre, via no Czar um pai, aquele sujeito supremo que o protegeria diante de suas mazelas e fome. Um povo que adora seu líder.
Era um milhão de pessoas que seguiam para falar com seu pai e deixar que ele soubesse como seu povo estava sofrendo. Um milhão de pessoas com uma carta, uma única carta em mãos, na qual diziam:

“Estamos numa situação miserável, somos oprimidos, sobrecarregados com excesso de trabalho, insultados, não nos reconhecem como seres humanos, somos tratados como escravos. Para nós, chegou aquele momento terrível em que a morte é melhor do que a continuidade do insuportável sofrimento”

E o Czar recebeu seus filhos... a bala.



A história não registrou quantos tombaram... mas registrou que de uma grande e dura derrota de um movimento que era pacífico e paterno, germinou o ano de 1917, com a Revolução Russa de outubro.
A tristeza pelos que tombaram e a esperança pelo que veio a seguir, anos depois. É desta lição que, agora, vos falo.
Não tenho ilusão, meus caros hoje Professores e Professoras de Educação Física. Não é fácil tirar lições da história da humanidade e, nestes tempos em que vocês são levados, todos os dias, a pensar em si (no seu “cada qual com seu cada qual”), a buscar um lugar no tal “mercado de trabalho”, a defender o direito individual de vocês à revelia do direto do outro (e o outro pode ser uma sociedade inteira), em que somos – inclusive durante a nossa formação – convencidos a valorizar a coisa mais do que as relações humanas... não é fácil dizer essas palavras em tempos tão individualistas.
Mas, se a história (mesmo quando contada apenas pelos opressores – que se fazem de heróis) deixa sempre algo concreto, é que ela é forjada pela Luta. Até os opressores não podem negar isso.
Hoje, 16 de dezembro, a “casa” de vocês encerrou um pequeno ciclo e colegas, diria companheiros e companheiras de estudos de vocês foram protagonistas deste ciclo: a UFPA/Castanhal estava ocupada e, enquanto tal, não faltaram tentativas insanas e irresponsáveis, até mentirosas, de desqualificar o movimento, em sua forma e conteúdo. Até entre vocês que aqui estão hoje se formando. E entre parte daqueles que contribuíram com a formação de vocês.
Hoje, 16 de dezembro de 2016, eles também escreveram na história de vocês e deixaram registrado pelo que, por quem, para quem lutaram durante semanas:

“Estamos muito orgulhosos de todos os estudantes que ocuparam escolas, universidades e institutos federais, de todos que foram às ruas e deram a cara à tapa, que levaram spray de pimenta e bala de borracha. Nossa luta não acabou, elas está só começando. [...] Nosso grito de ordem é resistência” (Carta do Movimento de Ocupação da UFPA/Castanhal)

Assembleia dos Estudantes da UFPA/Castanhal - deflagração da ocupação

Meus caros hoje professores e professoras de Educação Física, eu tenho que perguntar: pelo que vocês Lutam? Por quem vocês Lutam? E, claro, contra o que e contra quem vocês Lutam?
Se estas perguntas ainda estão em construção para cada um e cada uma de vocês e, também, no pensamento coletivo de vocês, construído ao longo destes pouco mais de quatro anos, deixo aqui uma lição a mais: Lutem pela Humanidade...
Que a cada injustiça cometida contra qualquer pessoa, a qualquer tempo e em qualquer lugar do mundo possa mover o coração e a força de vocês. E se concordarem com este princípio, como diria Che Guevara, somos companheiros... Talvez possamos dizer “somos camaradas”... E talvez a certeza de todos os dias, lutarmos lado a lado.
E, parece-me, estamos vivendo tempos intensos de luta.
Pela Educação Física na Educação Básica... e pela Educação Básica propriamente dita.
Pela Educação Física na Saúde... e pela Saúde Pública propriamente dita.
Pela Formação Superior em Educação Física e pela Universidade Pública.
E quantos desafios e quantas lutas estamos sendo convocados todos os dias...
Nestes tempos em que o Estado Brasileiro e suas instâncias todas (legislativa, executiva e judiciária) parecem optar pelo escárnio em nome da manutenção do poder e dos favores que preferem manter ao Capital, em detrimento do aprofundamento da perda de direitos, da miséria batendo na porta de seu povo... Nestes tempos em que até listas de trabalhadores grevistas e estudantes ocupantes das Universidades e Escolas são solicitadas pelo Estado...
Nestes tempos em que vemos tantos jovens, tantos trabalhadores, tantos professores ainda presos em seu silêncio ensurdecedor, cientes de que tá tudo errado mas defendendo um “sigamos a vida como se nada estivesse acontecendo”...
Nestes tempos em que mal cabem nestas palavras detalhar, o convite desta lição parece-me tão importante quanto necessário: voltem a esta casa. Afinal, se é verdade que esta casa, a Universidade, é a casa da Sabedoria (como expressão dialética do conhecimento), então, que vocês saiam hoje daqui, neste dia 16 de dezembro, lembrando que na cultura romana antiga, hoje é o dia do Festival de Sapientia, ou da Sabedoria...



E se voltarem, que possam fazer no sentido de lutar por ela, todos os dias. E lutar por esta universidade tão atacada e destruída pelos interesses do capital (e isso se faz de maneiras tão singelas que até quando há notícias de recursos para ela, há quem comemore, sem entender o que há por trás... ou o que se retirou), pelos interesses da “indústria da educação”, significa lutar para que ela seja cada vez mais pintada de negra, camponesa, quilombola, trabalhadora, operária, pobre, mulher... pintá-la de revolucionária, por que não?
E, portanto, o convite à juventude que hoje se forma é este também: convido-os a serem revolucionários!



Pois bom...
Gostaria, humildemente, de aproximar-me do final destas palavras com algo mais pessoal, mais particular, mais singular. Mas, também, como uma homenagem... um presente, no sentido mais comunista da palavra. Um presente que não é “coisa”, que não para nosso consumo. Um presente que nós (eu) damos sobre nós (eu) para vocês.
Em 1770, também em um 16 de dezembro, nascia um dos maiores compositores da história, o alemão Ludwig van Beethoven. Um nome da música clássica.
E, também neste 16 de outubro, a cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte, se emancipava e, portanto, celebra seu aniversário. É de Caicó uma das figuras mais importantes da história política, artística e jornalística brasileira... Mas ele não estava ao lado da “história oficial”, por isso, pouco sabemos.
Em Caicó, no ano de 1913 (ainda que não num 16 de dezembro), nascia Hiram de Lima Pereira: jornalista, comunista, ator (um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular em Recife) e jornalista... Desaparecido político, capturado, preso, torturado em 1975.
Meu avô...

– Hiram de Lima Pereira, Presente! (Strovézio)
– Presente! (em côro, todos os artistas deste picadeiro)

Hiram foi pai de quatro meninas: a mais velha, Nadja Pereira (minha mãe).
Beethoven, Caicó (e Hiram de Lima Pereira) e minha mãe se encontram neste dia 16 de dezembro de 2016.
Confesso: se eu pudesse me fazer presente hoje, da tribuna, com a palavra podendo ser proferida a vocês, pediria um pouco menos de cinco minutos a mais para uma canção e convidaria minha mãe para toca-la a vocês. Como disse acima, como um presente.
Para situações como essa, um piano colocado no centro deste picadeiro de terra batida e lona furada de circo, já nos é humildemente suficiente.



Vida Longa à Turma Euzébio de Oliveira.
Vida Longa à Turma 2012.2 de Professores e Professoras de Educação Física da UFPA/Castanhal.

Venham Todos!
Venham Todas!