RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O Universal Circo Crítico... Eu vou para o Pará!!!


“Juncaremos de flores teu trilho,/

Do Brasil, sentinela do Norte./

E a deixar de manter esse brilho,/

Preferimos, mil vezes, a morte.”
(Trecho do Hino do Pará)


Eu vou p’ro Pará!


Vou p’ra Castanhal, um de seus 143 municípios (a cerca de 40 minutos da capital, Belém), estado de seus 1,247 milhão de km², com uma população de 7,110 milhões de habitantes. Diga-se de passagem, o segundo maior estado do país. Vou para o Pará, banhar-me, talvez, no Amazonas, no Tapajós, no Abaetetuba, no Tucuruí, no Barbacena ou no Salinópolis.

Vou para o Pará, Estado da Cabanagem, que, como tantas outras na história deste país (Revolução Farroupiha, Canudos, Ligas Camponesas entre outras) se caracterizou como um levante liderado pelas camadas populares.

Vou para o Pará, estado de um povo de belíssima pele parda, herança indígena (e, portanto, de sangue resistente e de lutadores) e de dialeto simples e rico, ao mesmo tempo. Do “tu”, do “ti” e que, muito possivelmente, o povo de “Sum Paulo” acha que fala igual ao nordestino (de belíssima e complexa linguagem, também). Vou falar “égua!”, “égua de ti!”, “pira paz!” e tantos outras expressões locais que fazem deste povo, um belo povo. Talvez eu venha a ser um “novo paraense”...

Vou para o Pará, Estado de grandes conflitos por terra e justiça, em que o poder, assim como em várias partes do país, continua a enfrentar os princípios e valores, a força e a resistência de lutadores e lutadoras do povo.

Vou para o Pará, comer Pato e Tamuatá no Tucupi, tacacá na cuia, maniçoba, peixe moqueado, pirarucu de sol, peixada, arabu, chibé, vatapá e caruru paraense, casquinho de mussuã, sopa de aviú (quando possível, regado a farinha d’água e pimenta de cheiro), ver e experimentar a particularidade e o capricho do cuzcuz e do caranguejo local. Vou me apresentar ao açaí (claro, sem granola, banana, morango em essas invencionices sudestinas), o bacuri, o cupuaçu, a pupunha, o muruci, o piquiá, o tucumã e o bacaba. E ver se é muito diferente o taperebá do cajá, a graviola de lá da graviola de Pernambuco e, finalmente, voltar a pedir na feira “macaxeira, por favor!”.

Vou aprender a dançar e tocar o Carimbó, dança criada pelos índios tupinambás, “aperfeiçoado” pelos escravos africanos. Aquela dança gostosa em que as mulheres, cheias de encanto, tiram a graça masculina com seu rodar de barra de saia. Quem sabe aprender o “Peru de Atalaia”? Ou talvez tocar os carimbos, o ganzá, o reco-reco, o banjo os maracás? “Lá vem caçador, lá vem caçador! Corre veado, lá vem caçador!”.

Ou, quem sabe, a Dança do Síria, o Lundu Marajoara, o Xote Bragantino, o Cairé, o Boi-Bumbá ("Pingo de Ouro", "Pai da Malhada", "Flor do Campo", "Flor do Guamá", "Flor da Noite", "Caprichoso", "Tira- Fama" e "Estrela D´Alva") ou, ainda, conhecer o Cordão dos Bichos: o "Tem-tem" de Manuel da Silva, o "Rouxinol", o Beija-flor de Manuel Lima, o Tucano do Senhor Ciprinio, o Caboclo Lina Pardo, da Manuela do Rosário, o Leão Dourado da Ilha de Marajó (e a Ilha de Marajó), o Bem-Te-Vi da Promossa de Dona Sulamita ao Menino Jesus, o Arara de Joana Cordovil. E tem a Marujada de Bragança.

Ah! Eu vou para o Pará! É onde tem o Círio de Nazaré, Santa que sempre quis ficar no Igarapé e nem governador conseguia fazer o contrário. Vivenciar o almoço do Círio (o pato no tucupi, a maniçoba, o tacacá ou o casquinho de caranguejo). Viver na pele a Procissão e a mística da Corda, a justa expressão da ligação entre o povo e sua santa, utilizada para puxar o luxuoso carro que transporta a Imagem da Santa.

Vou para o Pará, onde irei rever históricos amigos de muitos anos. É a terra da Jose e do Nei (e a pequena Júlia), da Zaira e do Robson (e a pequena Yara), da Edel, da Carmem Lilia, da Dalva, do Beto, do Matheus, da Lucilia, da Patrícia, de meus compadres Andréa e Paulo e de outros tantos amigos mais recentes com passarão a fazer parte de meu imenso roll de pessoas importantes.

Vou para o Pará, aprender mais sobre o Boto (vai que ele me ajuda), o Caipora, a Cobra Grande (hein?), a Matinta Perêra, Tamba-Tajá, Uirapuru, Mapinguari, o Peixe-Boi, Vitória Régia, Muiraquitã, os Rios, a Lua e o Sol, com suas lendas, histórias, verdades e mitos.

Vou para o Pará, para, quem sabe, aprender mais sobre os Karib, Tupi e Macro Jê. Aprender a fazer boneco de Tururi ou folhas de miriti e receber visitas em casa, em minha cadeiras de apuí.
Eu vou para o Pará... Vou para Castanhal!


Venham todos! Venham todas!

Vida Longa!


Marcelo “Russo” Ferreira

Obs.: Do Pará, na verdade, sei pouco. Apenas pesquisei e sintetizei o que me atraia o olhar e os sentimentos. Mas, lá, o que aprender, apresentarei por aqui. Isso é um compromisso.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O Universal Circo Crítico... Mainha...


“Um coração, de mel de melão
de sim e de não, é feito um bichinho..”
(Da música “Clara e Ana” – da Joana, acho)



Lembro de algumas coisas...
Adorava deitar em seu colo para ela “limpar meus ouvidos”. Mas o colo era, também, e muitas vezes apenas... colo.
Também recordo, acho que com meus 7 anos, que fomos assistir a uma apresentação da Praça da Luz, em São Paulo – era um final de semana, sábado talvez. Música ao vivo e ao ar livre, nós, sentados em roda, no chão (grama), um certo fim de tarde de um fresco e leve dia de outono. Eu apareci na televisão, à noite... a câmara estava registrando a pequena platéia, devagarzinho, devagarzinho e, quase na hora de cortar a cena, lá estávamos... Bem na hora.
Não lembro ao certo quando a vi com o violão no colo, tocando com leveza e cantando num tom bem alto (comum na voz feminina – a afinada – família). Mas lembro que ela dedilhava uma bela canção que, em homenagem ao velho Hiram, seu pai, meu avô, resolveu colocar uma letra naquela melodia. Assim que ela a tocou, pedi o violão e resolvi tocar também. Tá! Não foi, obviamente, aquela maestria e nem era um talento prodígio (ainda bem...). Mas não há dúvidas que minha relação com o violão, e com a música em geral, começou ali... naquela música... com ela.
Sempre a vi com um olhar de, digamos, “alguém que sempre vai precisar de proteção”. E, que ironia, sempre corria aos seus braços pedindo, quase sempre silenciosa ou chorosamente, essa proteção.
Quando cortei a testa (que emoção, os primeiros de meus 78 pontos espalhados pelo corpo) numa brincadeira de pega-pega com minha irmã, pelos corredores do andar de cima da casa (era tão grande naqueles meus 5 anos), lá estava ela atenta, com o bom e velho bandaid... anos mais tarde, quando “trinquei” um ossinho do metacarpo da mão direita, ela que reparou no tom roxo da palma de minha mão e lá vamos estrear o gesso... De repente, por conta do gesso da mão-braço direita, em plenas férias de julho, é ela quem literalmente descobre: “Ele é canhoto!”.
A memória de minhas férias mais remotas também me levam, quase que inequivocadamente, a ela: passeio pelo Horto Florestal, eu que já conhecia os caminhos e descaminhos das trilhas locais, e ela preocupada e assustada com a possibilidade de eu me meter naquela mata e me perder. Eu tinha 8 anos e desde os 4, quando ia com painho buscar água na bica (o povo de São Paulo ainda faz isso?), me metia a brincar no mato. Mas ela não sabia... e, assim que ela me dá as costas enquanto eu brincava no parque, me enfiei na mata. É claro que ela percebeu, é claro que ela me “puxou a orelha” quando voltei ao parque – tentando enganá-la – e é claro que ela puxou a orelha de painho por saber, no alto de meus pequenos 8 anos de idade, que eu já fazia aquilo desde os 4 anos.
É verdade que, conforme ia crescendo, ficava entre continuar a respeitar os limites espaciais que ela me “sugeria” e os horizontes de meus sonhos. A música e o esporte (sim, era até que bem organizado “motoramente”) sempre me instigavam isso, a romper limites. Com o tempo, as manifestações de “estou indo um pouco mais longe” aconteciam com o testemunho de seus incomodados olhos: um passeio com a escola para o outro lado da cidade; um passeio com a escola para um lado de outra cidade. Uma festa no quarteirão de casa; uma festa no bairro; uma festa um pouco mais longe. Andar de bicicleta em frente de casa (no máximo, atravessando a rua); andar de bicicleta na rua de baixo (aquela, da estréia do Arca Mundo); andar de bicicleta no bairro; ir de bicicleta até o outro lado da cidade. O tempo passa, e, certo dia, vou para mais de dois mil km de distância.
Ainda no convívio comum espacial, quando minhas viagens musicais ainda reinavam mais os desejos do que a sua concretude (o Afã durou bons e criativos três anos) e naquela mania e ansiedade de pegar o violão e compor – ainda que as vezes “inspirado” pelas músicas que aprendia, as vezes ousando acordes próprios – saiu uma canção para ela, que ainda não a apresentei nem aqui, nem no ArcaMundo. Mas, sobre a canção, é outra história, para um outro momento.
Hoje, a distância faz com que a gente fique longe acerca de 15 anos. Visitas esporádicas, visitas surpresas, visitas marcadas, visitas não acontecidas... E assim, vai-se caminhando. Vez por outra, também, uma conversa rápida por e-mail, um bate-papo por telefone...
Cada uma sabe a que tem, cada uma sabe a que “adotou”. É verdade que, ao longo de minha vida, adotei e des-adotei mães. Mas, em que pese a velha piada do Juquinha (ou Joãozinho, como queiram), “Mãe, só tem uma!”...
Às mães que adotei pelo caminho e, em especial à Glauce, um feliz Dia das Mães.
À mainha, a mais velha do velho e inquestionável lutador do povo, Hiram de Lima Pereira, a diuchinha... Feliz Sempre Dia das Mães.


Vida Longa!


Marcelo “Russo” Ferreira


Obs.1: A foto é da mainha... não publiquei o artigo no próprio domingo por estar em deslocamento pelo país bem neste dia e cheguei tarde ao meu destino.Obs.2: Estou falando da minha mãe... Não dá p’ra plagiar, né?

domingo, 4 de maio de 2008

O Universal Circo Crítico... O racismo de novo...



“Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará”


(Vinicius de Moraes)





De novo o racismo sob sua forma acadêmica; de novo as pífias manifestações da mídia (inclusive as que admiro); de novo um silêncio ensurdecedor.
Ano passado, foi o Nobel da Ciência, o biólogo James Dewey Watson, quando declarou seu pessimismo em relação à África, entendendo (cientificamente) que “todas as nossas políticas sociais estão baseadas no facto de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto que todos os testes dizem que não é assim”.
A cerca de duas semanas, me deparei com o um programa dominical da loira Eliana e um estúpido quadro humorístico que desclassificava a figura do negro (comentei este encontro no Universal Circo Crítico). E basta algum de nós termos a paciência (ou absoluta falta do que fazer) de assistir aos humorísticos nacionais de Globo, Record e Rede TV! para nos depararmos com insistentes e constantes manifestações do mais puro e indignante perfil da mídia brasileira, travestindo de humor e alegria, o racismo, o preconceito e o uso do corpo alheio.
Mas, desta feita, nos deparamos com a ciência brasileira e com a coordenação do curso de medicina mais antigo do país. E, possivelmente, o Coordenador do Curso de Medicina da UFBA, o professor Antônio Natalino Manta Dantas, plagiou o Nobel da ciência, haja vista a seguinte declaração no meio de uma tuia de asneiras proferidas em entrevista à Folha de São Paulo (que não se inquietou muito): “o baixo QI dos baianos é hereditário e pode ser verificado por quem convive com pessoas nascidas na Bahia”.
Fiquei pensando em suas reflexões sobre o berimbau, instrumento de uma corda só que, segundo o pseudo-hemérito professor, é para QI’s baixos. Mas, a despeito de sua ignorância, trata-se de um instrumento donde se tiram notas musicais (em escala completa) e a percussão... ao mesmo tempo. Bom... eu todo violão e baixo e não sei tocar berimbau. Minha mãe toca piano divinamente, e não toca berimbau. Minha tia Sachenca toca acordeom, e (acho) não toca berimbau.
As manifestações de mestres de capoeira, Brasil afora, já dá conta de estabelecer a suficiente crítica a este Doutor sobre o sentido e significado deste belo instrumento orientador do ritmo e cadência de uma roda de capoeira. Que determina, na relação harmônica da corda e do caxixi, se trata-se de angola, regional, maculelê ou samba de roda.
Mas, é preciso também manifestar que, na arrogância de falar sobre instrumentos musicais, o Sr. Dantas é de uma ignorância musical imensurável, pois limita a sua crítica ao fato de o berimbau ter apenas uma corda, desconhecendo que, qualquer instrumento, com uma corda apenas, pode chegar a fáceis quatro oitavas musicais... caso o digníssimo doutor saiba o que vem a ser uma oitava musical.
Ele, como falei acima, é doutor. Realmente, a capoeira não forma doutores, apenas mestres. Conheço poucos, pois não sou um capoeirista nato (mesmo já tendo sido “batizado”), mas conheço: Bimba, Dionizio, Elias, Ezequiel, Garrincha, Gigante, Itamar, Jair Moura, João Grande, João Pequeno, Nestor Capoeira, Pastinha, Suassuna e uma dúzia elevada a ”n” potência. Mais de perto (e não sei se são mestres, mas são para mim) tem Rei, Brunnão (que, em breve, será doutor), Bené e Corisco.
Mas para além do berimbau, pude verificar, também, nas incursões que fiz nestes dias sobre o assunto, que a Capoeira se manifestou, o Olodum se manifestou (e contundentemente), o Ministério Público se manifestou (e o notificou), a reitoria da UFBA e a direção da Faculdade de Medicina se manifestaram, o governo da Bahia, o Senado Federal, a Câmara dos Deputados, políticos de cá e de lá, da esquerda mais arraigada à direita mais torturante (hein?) se manifestaram, criticando o descalabro da manifestação científica do digníssimo Doutor.
Mas, encontrei outras manifestações... anônimas e assustadoras: Um tal de ‘Paulista, Inteligente e trabalhador’ afirma que “Antes baiano era somente preguiçoso, agora também é burro. Vamos separar a Bahia do Brasil!”. O ‘Má’ diz que “é um problema cultural que vem afetando a todas as camadas da sociedade que dispõe de um presidentente (sic!) semi analfabeto. Existe alguma maneira sutil de dizer a alguém que essa pessoa não é inteligente?” E o Felipe entende que “Baiano depois de meio dia vira viadoooo”. Um não se identifica, mas entende que “Deve ser esse o motivo dos baianos não ficarem lá. São burros mas não otários”. E assim segue: “Antes de ser operado é melhor conferir o sotaque do médico...”; “Parabéns Dantas!!!! Além do comentário sobre o berimbau ter sido sensacional, você não disse nenhuma inverdade”; “existe orquestra na bahia????”; “Isso mostra a inferioridade nordestina, só mesmo através de cotas e bolsas”; “é só tirar as classes das salas de aula e colocar o professor em cima de um trio eletrico. aposto que ano que vem o conceito melhora. Comentário do berimbau foi excelente!!!” e por aí segue...
Manifestações que, como a do próprio Sr. Dantas, ignoram o berço histórico que é o Estado da Bahia: Ruy Barbosa, João Gilberto, Castro Alves, Caetano Veloso, Glauber Rocha, Gilberto Gil, Gregório de Matos, Jorge Amado, Milton Santos, Maria Quitéria, Joana Angélica, Divaldo Franco, Mãe Menininha do Gantois, Nestor Duarte, Joana Angélica, Mario Cravo, Calasans Neto, João Ubaldo Ribeiro, Raul Seixas, Tom Zé, Gal Costa, Maria Betânia, Dorival Caymmi, Carlos Mariguela, além de outros tantos baianos que tenho no meu coração, e de uma inteligência infinita.
O que, em princípio, fica disso tudo, é uma grande preocupação: o racismo e o preconceito, que já foram combustíveis de guerras, de massacres a minorias, de decisões jurídicas com “dois pesos, duas medidas” de toda ordem está mais presente do que nossa van filosofia poderia imaginar.
A convocação continua presente em nossos dias atuais: Socialismo ou Barbárie (Rosa Luxemburgo)

Vida Longa!
Venham Todos! Venham Todas!... Iê!




Marcelo “Russo” Ferreira




Obs.: Foram muitas as manifestações sobre o assunto. Ficam a disposição minhas palavras. Se citá-las, fico feliz em participar de suas reflexões.
Obs.:2 A tela deste artigo é "Negros lutando, Brazil" - Augustus Earle, 1822 (Biblioteca Nacional da Australia)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O Universal Circo Crítico... Três lições de um vira-lata...


“Amigos serão amigos... até o fim”

(Brian May e Freddie Mercury)

Quando recebi a série de fotos da apresentada neste artigo, lembro que o comentário da mensagem era: As pessoas ficaram impressionadas de como um cachorro vira-lata podia ser tão leal !.

Vejamos um pouco mais o conteúdo da foto: um pequeno cão vira-lata, que tinha um amigo (palavra que nós, humanos – hum... – estranharíamos deveras, por vincularmos a um animal) que, por um infortuito cálculo de tempo, fora atropelado mortalmente. Seu amigo, lá estava, em sua incansável tarefa de tentar acordá-lo, afim de que ele levantasse e saísse daquele ponto perigoso. A morte não lhe passava aos olhos naquele momento.

As fotos que se seguiram (quatro ao todo) demonstravam sua insistência em guardear o velho amigo, impedindo até que pessoas chegassem perto para retirar aquele “corpo estendido no chão”; Mas demonstravam, também, o circo humano, testemunhando outras pessoas que, assim como o autor destas fotos, registravam aquela cena.

É evidente que, se eu tratar superficialmente este fato, a primeira coisa que virá em nossas mentes é uma exclamação do tipo “Ah! Mas se fosse um amigo meu atropelado, é claro que eu estaria ali, protegendo o seu ‘corpo estendido’, para que pudesse seguir seu caminho final em paz”, ou coisas deste tipo.

Mas o que chama a atenção da mente e sentimento deste circense é que estamos diante de uma cena infalível de auto-crítica humana. Não consta em meus conhecimentos intelectuais, em meus livros, cd’s, e os poucos (decentes) programa de TV que assisto que, diferente do homem, os animais sabem que, um dia, irão morrer. E é, também, esta a linha de raciocínio que fiquei tratando alguns dias comigo mesmo.

Destas fotos que recebi, com pequenos comentários às lições de amizade que deveríamos tirar, três lições me são claras:

Primeira Lição: de vida, que vai infinitamente mais além da ode humana e que somos inquestionavelmente obrigados a concordar, que, a não ser que seja ‘nosso’ o cão atropelado, não pararíamos para tentar socorrê-lo ou, na certeza de sua morte, recolhê-lo ao seu pacífico descanso final. Um cão (ou outro animal qualquer) atropelado instiga o desvio de nossos olhos “distraídos”.

Segunda Lição: de amizade, uma “pequena-gigante” lição de amizade que, em nosso pequeno e egoísta mundinho capitalista, perpassa de forma significativa por relações de interesse e, por isso mesmo, por relações de poder. O que fazemos e deixamos de fazer por nossos(as) amigos(as)? Quais valores nos desprendemos ou nos fortalecemos para com os(as) nossos(as) amigos(as)?

Terceira Lição (e a mais intrigante): a ode humana ainda passa seguidamente por cima de corpos – simbólica, metafórica ou até concretamente. Passamos por cima de Mendigos e Andarilhos, passamos pos cima de Sem Terras, passamos por cima de crianças e jovens drogados pelas ruas, passamos por cima índios, negros, GLBT’s, pobres, mulheres, imigrantes... pois não são nossos amigos...

A lição que fica para você, qual é?

Venham Todos! Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

PS.: no arcamundo tinha o hábito de solicitar a lembrança de minhas palavras, se elas fossem ser utilizadas por este mundo agora. Mas isso é decisão sua.

domingo, 20 de abril de 2008

O Universal Circo Crítico... o racismo não se esconde...


“A gente fica por aqui, um ótimo domingo
e uma ótima semana para vocês. Tchau!”

(a fala dos apresentadores de TV no final do programa)


Em novembro de 2007, ainda escrevendo no arcamundo (http://www.arcamundo.blogspot.com/), fiz uma referência à infeliz (mas consciente) manifestação do Nobel da Ciência, Mister Watson, quando afirmou que “brancos eram comprovadamente mais inteligentes do que negros”. À época, as matérias jornalísticas não fizeram muito alarde, noticiaram an passan essa declaração e, mais ainda, as desculpas do mesmo ao povo africano (centro de sua manifestação pseudo-científica).


O circo da mídia, atualmente, mantém a platéia num grande BBB jornalístico, com o caso de assassinato da pequena Isabella, em São Paulo. Durante os dois últimos dias, sempre que sintonizava-se os canais-horários de notícias, as matérias sobre o caso se repetiam, incansavelmente... para os jornais. Mas não é sobre esta infelicidade que passearei a refletir no palco do Universal Circo Crítico de hoje.


Vez por outra, tanto no ArcaMundo, quanto neste nosso espaço, trago os fatos que cruzam meus caminhos, quer em casa, quer na rua. Assim o foi quando falei do Mendigo e do “Precinho Carrefour” num sinal de trânsito, para falar do “Sanfoneiro”, bem como para comentar a cobertura jornalística sobre a Segunda Encíclica de Bento XVI. Assim o fiz, também, em algumas oportunidades em que comentei passagens dos programas dominicais.

Hoje, passei o dia em casa, separando algumas coisas para estudo e alinhando o violão. Numa parada, liguei a TV, que já estava sintonizada da TV Record, mais exatamente, no programa “Tudo é Possível” da Eliana (capa dos semanários fofoqueiros atuais, pois, todos querem saber, está de namorado novo).

A cena: um comediante fazendo papel de mágico que iria transformar “um gato” em dois (um rapaz jovem, musculoso, tatuado, pele queimada do sol, possivelmente, “sonho de consumo” de uma razoavelmente significativa parcela feminina – em sua grande maioria, claro). Um caldeirão, uma loira ajudando, uma cesta com várias frutas (ingredientes mágicos) que, inclusive, não batiam com a lista inscrita num cartaz exposto ao lado do mágico. Pequeno equívoco de contra-regra.

Colocados os ingredientes, com o jovem modelo escondido dentro do caldeirão, coloca-se um pano laranja sobre ele e, logo em seguida, o “mágico” solicita aos, agora, dois jovens gatos, para que levantem-se, o que o fazem ainda com o pano sobre eles.

Ao ser retirado o pano, lá está o mesmo jovem e, ao seu lado, um negro, mas baixo, com um penteado estranho. A conclusão do mágico: “É, não deu muito certo... ele saiu um pouco ‘queimado’”. E assim, onde Tudo é Possível, Eliana se despede de seu animado auditório, sob aplausos.


Espero, realmente, que a maior parte de meus poucos leitores tenham encontrado algo melhor para fazer num domingo, quer de sol, quer de chuva. Eu apenas pausei-me de minhas pequenas e particulares tarefas para ligar a TV e me deparar com essa cena infeliz, racista e preconceituosa.


O interessante disso tudo é que esta semana, no fechamento de uma ação de Formação de Agentes Comunitários de Esporte e Lazer no entorno de Brasília, quando a discussão era sobre o não cumprimento rigoroso dos horários da programação, comentei com esses agentes que cumprir horário é uma decisão revolucionária e de responsabilidade coletiva, pois a elite, a direita, os grandes poderosos deste país cumprem horário e, todos os dias, entram em nossas casas com hora marcada. Estava, obviamente, falando das programações das TV’s abertas e pagas.

Era o horário de crianças na sala... era o horário de famílias se preparando para almoçar, almoçando ou terminando o almoço (caso tivessem comida em casa)... Era o horário de dar uma pequena amostra de como permitimos que conceitos racistas e preconceituosos entrem tranqüilamente em nossas casas e fortalecem os valores individualistas de nossa sociedade.

Eles também têm seu circo... E nós assistimos...

Venham Todos! Venham Todas!
Vida Longa!


Marcelo “Russo” Ferreira

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O Universal Circo Crítico... O palhaço e as estrelas...


Ainda no ArcaMundo, havia iniciado o exercício mensal de, sempre no segundo domingo de cada mês, apresentar minhas viagens musicais. Minha primeira experiência foi apresentar uma de minhas canções preferidas, “O Menino e o Palhaço”, música que viaja por ritmos, “solfejos” e melodias diferentes, que resgata o olhar acerca do que a barbárie capitalista estabelece sobre aquilo que ainda insistimos em chamar de “exploração do trabalho infantil” – e que, a bem da verdade, trata-se de crime – e a resgatar melodicamente meu personagem preferido, o palhaço.

É uma música que tem um particular: foi, posteriormente, construída quase que como uma trilogia, daquelas que vez em quando me (nos) leva a pequenas viagens sobre aquilo que gostaria(mos) de fazer com elas: gravar um CD em que a trilogia estivesse presente, com mais algumas outras viagens musicais, como as que já apresentei por aqui. O nome do CD? O Universal Circo Crítico.

Hoje, apresentarei o primeiro passo da seqüência de “O Menino e o Palhaço”. Ainda em Recife, nesta época, eu dava aulas de Educação Física numa pequena escola (o saudoso Projeto Nossa Escola) e, na época em que a compus, apresentei-a a uma amiga – Jailma – da Universidade que, também, era mãe de uma de minhas alunas da alfabetização e ela me presenteou com duas pequenas leituras: um pequeno desenho e um poema, que ela batizou de “O Segredo das Estrelas”.

Ao voltar para casa, naquele mesmo dia, mais uma vez acomodei o violão no colo e comecei a dedilhar a melodia final de “O Menino e o Palhaço” sobre aquele poema, musicando-o, como num verso de refrão, fazendo quase que uma conversa sobre as duas expressões construídas.

Os versos em negrito, abaixo, são das belas palavras de Jailma.

Apresento, “O Palhaço e as Estrelas”.

“Algumas vezes, os olhos não enxergam as estrelas / Quando elas brilham, não sei se brilham os seus olhos. / Como poderemos conhecer, assim, seus segredos? / Não conheço seus brinquedos. / Como brincam, se não têm tempo para brincar? / O chão longínquo do céu, seus sonhos perdidos ao léu. / Tão real...
‘Uma realidade estranha é conhecida em meio de sonhos, / estrelas pulsam em um chão longínquo. / até quando irei amar o vago, o nada?’
Nada de alegria ou amor. / Quando vai-se o sol, os corpos que se juntam não se amam. / O senhor sabe quantos anos ela tem? / Não te importa... / O senhor sabe quantos sonhos ela tem? / Não te importa... Não é o teu mundo.
‘Meu mundo distante, além, / muito além de onde nasce o sol. / Quisera alucinados visionários serem poetas.’
Poetas já não falam mais. / Sua luz e seu mistério se perderam muito além do sol. / Longínquo... Longínquo... / O palhaço e o louco, / o menino e a menina, / ‘O segredo das estrelas’ se perderam em sua ganância. / Nossa infância e sua infância, / nosso corpo, o seu corpo. / Nosso espelho...
Sobre os poetas... / ‘Possuir o poder de expressar a “luz e o mistério”. / Enquanto não o são, / contentam-se em vagar sobre as estrelas’
E contentam-se em sonhar sob suas mazelas. / E contentam-se em viver em sua luxúria podre, / pobre luxúria.”


Venham todos! Venham todas!
Vida Longa!
Marcelo "Russo" Ferreira

domingo, 6 de abril de 2008

Venham Todos! Venham Todas!


O Universal Circo Crítico...


Este é o espaço e o tempo que espero conviver durante um bom tempo, depois da fantástica experiência no belo ArcaMundo.
O Universal é a idéia: quanto mais longe formos, mais alto voarmos, mais profundos seguirmos, mais firmes nossos passos forem, mais seremos. Universal é, em princípio, tudo o que nos cerca, desde o que está ao lado, quase (ou na própria) na pele, até o que não conseguimos ver ou ouvir em tempo real, mas que sabemos que lá está, lá acontece, lá está vivo...
Mas o Universo não é tanto uma idéia apenas viva, mas uma idéia múltipla, facetada, contraditória, angustiante e, também por isso, estará sendo descrita por baixo desta lona...
A Lona... o grande elemento da arquitetura do Circo. Funciona quase que como uma caixinha de surpresas, com magias, brincadeiras, mulheres equilibristas, homens voadores, animais ferozes, outros adestrados. A imagem do Circo que sempre lembro é o palhaço com seus malabares, quase que como saindo de uma pequena caixa.
No circo, temos a possibilidade de explorar nossas idéias, fantasias, sonhos e alegrias. É onde tudo pode acontecer.
Mas nosso Universal Circo não será um espaço sem olhar... O será com um olhar crítico, mas não será frio.
Espero, neste espaço, continuar a construir as pequenas viagens dominicais que construir durante 9 meses no Arca Mundo.
Espero, neste despretensioso espaço, continuar com minhas correspondências, minhas canções, meus relatos do dia-a-dia, meus olhares sobre o infeliz papel cumprido pela mídia, sobre as pessoas, sobre os valores, sobre o poder.
Que este espaço, assim como o que pretende seu nome de batismo, permita-me a pensar longe, tentar ver globalmente, universalmente. E que o permita com magia, com emoção, com o sentimento que, como poucas artes humanas e milenares, só o Circo consegue. E que seja emocionalmente e universalmente um tempo-espaço que, como tal, não se pretenda “de lugar nenhum”...
Venham todos... venham todos...
O espetáculo vai começar!

Vida Longa!



Marcelo "Russo" Ferreira