RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Discurso de Formatura... Turma Márcia Cristina Greco Ohuschi


       Começo, como sempre, com minhas saudações. Aos amigos da mesa, Adriano, Kelly e Márcia, honrada com o nome da Turma, “Turma Márcia Cristica Greco Ohuschi”. Uma boa noite também os amigos e familiares aqui presentes.
            Prezados e prezadas Professores e Professoras de Letras, aqui formando-se, neste 27 de abril de 2012.
            Minha mais profunda, sincera, comovida e honrada saudação.
            Eu particularmente fiquei imaginando o que vocês disseram a seus pais, seus e suas companheiros e companheiras, familiares e amigos ao dizer-lhes que convidaram um professor de outra Faculdade para ser paraninfo da Turma de vocês. Mais ainda, um professor de Educação Física. Talvez estranhamentos que, no final das contas, são comuns quando falamos desta área do conhecimento.
            Mas, talvez, esse também seja um grande desafio de nossa Universidade Brasileira: extrapolar as barreiras disciplinares, que a modernidade cunhou em nomes diferentes, em áreas diferentes, vários, quase incontáveis. E se é possível celebrarmos com outras áreas, então, é necessário re-desenharmos e re-escrevermos a universidade para além de suas caixinhas de conhecimento. Celebrar, portanto, este momento com vocês é mais do que uma conquista e alegria particular. É mais uma prova de que o conhecimento é universal e interdisciplinar, inclusive em sua celebração.
            E agora, cá estou, falando para vocês, Turma 2008 da Faculdade de Letras. Claro, pensei nas letras e naquilo que elas formam, enquanto ia organizando esta retribuição à honra recebida: ser seu paraninfo.
Homenagear a Turma de Letras é desafiante. Assim como foi desafiante minha decisão em aceitar o convite da nossa querida Professora Kelly: ministrar uma disciplina na Faculdade de Letras. Talvez por isso, pelo desafio, pensei construir um “passeio sobre as palavras”. Aquelas que me levam a datas, a fatos históricos, a pessoas (preferencialmente os lutadores do povo) e suas palavras, suas idéias, suas lições.
            Portanto, ao pensar nas palavras, pensei nas idéias que as palavras formam e lembrei-me de nossos encontros, de nossos debates, de nossas reflexões e daquilo que construímos em sala. Lembrei-me de “V” e, em particular, quando seu protagonista nos alertava: “um homem pode morrer, lutar, falhar, até mesmo ser esquecido, mas sua idéia pode modificar o mundo mesmo tendo passado 400 anos”. Eram idéias, assim como nós construímos inúmeras, incontáveis idéias em sala de aula e, tenho certeza, vocês assim o fizeram não apenas comigo, mas como todos e todas docentes que passaram por vocês ao longe de sua formação, nesta Universidade. E, como a construir meu último papel pedagógico junto a vocês, na condição de formandos e formandas em Letras, deixo minha primeira-última lição (e lições servem para serem apreendidas, compreendidas, revisitadas e ressignificadas. Lições servem para não serem esquecidas): idéias nunca morrem. Por isso elas são necessárias... Nunca as abandonem.
            Aliás, mais do que nunca abandonarem suas idéias, reconstruí-las constantemente. E reconstruímos idéias quando as colocamos em nossa prática social. E só colocamos nossas idéias na prática social quando elas estão a serviço de um coletivo. E aqui, minha humilde sugestão: que este coletivo seja o Povo Brasileiro. E basta olharem para os lados, para a história da maioria de vocês, para sua própria história para saberem o que quero chamar de Povo Brasileiro.
            As palavras e suas idéias me levaram a uma poetiza cubana, Dulce Maria Loynas, que a 15 anos já não escreve mais, pois já não está conosco. Mas deixou uma bela obra. Não, Dulce Maria Loynas não escrevia sobre a Revolução Cubana, mas isso não fez de suas palavras menos belas. É em “yo te fui desnudando” (fui te despindo) que revelo nessa escritora mais de minhas idéias-palavras: Fui despindo você de você mesmo, / de seus ‘vocês’ superpostos que a vida / te cingiu ... / / Te arranquei a casca - inteira e dura – / que parecia fruta, que tinha / a forma da fruta. / / E diante do vago assombro de seus olhos / surgiu você com olhos ainda velados / de sombras e assombros ... / / Surgiu você de você mesmo, da mesma / sombra fecunda - intacto e desgarrado / em alma viva ...” (Yo te fui desnudando de ti mismo, / de los "tús" superpuestos que la vida / te había ceñido.../ / Te arranqué la corteza-entera y dura- / que se creía fruta, que tênia / la forma de la fruta. / / Y ante el asombro vago de tus ojos / surgiste con tus ojos aun velados / de tinieblas y asombros... / / Surgiste de ti mismo; de tu misma / sombra fecunda-intacto y desgarrado / en alma viva...”) - (De: Versos, 1920-1938).
            A Universidade, à bem da verdade, ainda não se despiu. Ainda não tirou sua casca burguesa, coisificada, mercadológica, distante e descompromissada das relações humanas e sociais, distante de seu compromisso com a humanidade.
            Quantas e quantas vezes recorrerei às palavras do bom e velho Comandante, Erneste Che Guevara, em discurso na Universidade de Havana (nos primeiros tempos da Revolução Cubana), convocando seus estudantes, professores e demais trabalhadores a pintarem a Universidade de camponesa, de negra, de trabalhadora, e eu mesmo ousava acrescentar, de mulher, de quilombola, de indígena, de ribeirinha, de operária... Mas, para tanto, precisamos despir a Universidade. Despindo-a, nos despimos de nossos “eu’s” e nos vestimos de nós. Despindo-nos, iremos despir a Universidade.
            Ainda assim, é imprescindível destacar meu testemunho, ainda que humilde e pequeno, no surgir vocês de vocês mesmos. E caminhar na Universidade, Pública e no Norte do País é caminhar na busca de vocês. Logro que tenham feito esse caminho, entre choros e alegrias, entre descansos e noites não dormidas, entre estudos e celebrações.
            Ouso dizer (no princípio Leninista de “a ousadia é o que nos dá sentido à vida”) que ainda são poucos, nesta Universidade – e falo sobretudo de seus docentes – que a querem pública, que a querem popular, que a querem despida. Mais ainda, são poucos aqueles que lutam por uma Universidade verdadeiramente Livre (com “L” maiúsculo), dentro de uma Pátria verdadeiramente Livre e com o povo soberano. E lutar por esta Universidade é também enfrentar os ditames do tal Mercado de Trabalho, expressão atual da exploração de trabalhadores e trabalhadoras pelo julgo do capital (que para existir, necessariamente produz miséria).
            A bela passagem de Dulce Maria Loynas, ainda que bem possivelmente ter feito este poema pensando no amor, nas pessoas que se amam, e não nestas viagens que faço, ainda assim nos permite mais uma grande, hercúlea lição: precisamos despir nossa Universidade e revesti-la. Precisamos tirar-lhe a casca burguesa e fazê-la redescobrir-se de Povo, de Gente. Precisamos, inclusive, fazer isso para que possamos tirar a casca do Povo, no sentido de fazê-los encontrar, no redescobrir-se, sua soberania. E essa tarefa não se cumpre sozinho.
            Precisamos fazer de nossas letras que compõem palavras que expressam idéias (que não morrem) nossos instrumentos de luta. Que não tenhamos medo de, ao ensinarmos crianças, jovens, adultos e idosos as artimanhas das letras e das palavras, ensinarmos seu real poder: transformar, de verdade, o mundo. E já sabemos, só transformamos aquilo que conhecemos.
            Ninguém consegue transformar um pedaço de madeira, metal, aço, pano, pedra em algo novo se não conhece, verdadeiramente a madeira, o metal, o aço, o pano e a pedra. E não é apenas a ciência aquela capaz disso. A relação do homem com a natureza e o conhecimento produzido por essa relação é que possuem essa capacidade. Assim é como transformamos o mundo e, assim, temos uma lição embutida na lição anterior (de despir a Universidade): ensinem as idéias e que sejam idéias de transformar o mundo.
            Mais ainda, precisamos transformar nossas palavras, conhecendo as palavras que não sabemos. As palavras do campo, as palavras do quilombo, as palavras da favela, as palavras das comunidades indígenas, das andantes comunidades ciganas. E, se buscarmos saber as palavras que não sabemos, quilombolas, camponesas, indígenas e ciganas, ah!, aí sim, talvez transformemos nossas palavras e nos transformemos com elas.
            E se precisarmos de inspiração para tal, que lembremos sempre deste dia, no meio de tantos dias importantes na vida de vocês: 27 de abril.
            Hoje, 27 de abril, é o Dia da Liberdade na África do Sul, país cuja história conhecemos muito razoavelmente bem. Nem com os olhos do mundo voltados, em 2010, para este país encravado no sul do continente africano– durante a realização da Copa do Mundo de Futebol – ele, o mundo (e, portanto, nós) o conheceu de verdade. Sabemos algo sobre o Apartheid, sabemos tanto quanto de Nelson Mandela, quando se tornou o primeiro presidente negro daquele país em 1994. Mal sabemos de seus partidos políticos, de sua cultura, de sua música, bem menos do que ainda resiste ao direito de seu povo natal, o sul-africano, como é o caso do seguimento conhecido como “africaners”, os brancos que não aceitam o fim do Apartheid. E o Dia da Liberdade da África do Sul continua sendo, no final das contas, Dia em que Lutas Continuam.
            Ao tomar posse, naquele ano de 1994, o então presidente Nelson Mandela, em seu discurso, fez uma fala que também ficou conhecida no filme “Treinador Carter” (de 2005), dita por um de suas personagens (Tino Cruz, representado pelo jovem Rick Gonzalez), com, claro, algumas alterações hollywoodianas. Dizia Mandela: “Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta. Nos perguntamos: "Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?" Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?...Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você. E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.” (discurso de Posse de Nelson Mandela – 1994)... quando nos libertamos de nossos medos, nossa presença automaticamente liberta os outros.
            Essa lição nunca é fácil. Até compreendê-la e assumi-la parece-nos tarefa grandiosa demais. Claro, necessitamos cumpri-la coletivamente. Tarefa histórica nenhuma se cumpre sozinho ou sozinha. Tarefas históricas devem ser cumpridas por todos e todas. E Mandela, naquele ano de 1994, também cumpria com a tarefa de seu povo, de ser sempre mais, dando lições de humanidade que seus antigos colonizadores nunca entenderam, nunca entenderiam e nunca entenderão, porque ainda dividem e mundo em Hemisfério Norte e Hemisfério Sul. Mandela cumpria com o legado de outro grande Lutador do Povo Sul-africano, morto nas mãos do Estado. Falo de Steve Biko, que, como processo de sua luta, nos deixou uma lição verdadeira: "Racismo e capitalismo são faces da mesma moeda". Se lutamos contra toda e qualquer forma de preconceito (e, inclusive, se lutamos contra nossos próprios preconceitos), lutamos contra este Sistema que o produz. E se lutamos com essa mesma idéia (construir o antagônico do capitalismo), somos companheiros, somos companheiras.
            Como disse, dirigir-me a vocês, seria um desafio. E realmente o foi. Sei que a relação que fiz, meio que lúdica, de construir o caminho das letras às palavras e dessas às idéias, talvez se distancie um pouco do contexto e dos referenciais de um Curso de Formação Superior em Letras. Mas, nada como nossas viagens – que fortalecem nossas ousadias – para construir novas aproximações.
Também de maneira ousada, gostaria de trazer aqui uma passagem de meus tempos em que o violão ocupava com mais freqüência o meu colo e desta relação saiam pequenas obras, pequenas canções que sempre fizeram também companhia em minha estrada de aprendiz de Lutador do Povo. Pelo idos de 1998, escrevi uma canção chamada “O Menino e o Palhaço”, da qual extraio a seguinte passagem: “Ainda vou fingir minha derrota / minha esperança será também mentira / e quando menos esperarem / em seu vultuoso poder e vaidade / os pegarei por trás como um fantasma / e me porei a rir, a cantar e a chorar sem tristeza / o palhaço ri... / o louco ri... / quem chorava ri...” (a letra está publicada em http://arcamundo.blogspot.com.br/2007/09/sndrome-do-fantstico-o-menino-e-o.html)
            À guisa da conclusão, optei por escolher palavras e que expressam idéias. E as presenteio no meio das lições que aqui ousei.
Amor!
Porque aquele que sabe realmente o que é amar é, verdadeiramente, um Lutador do Povo. Que, enquanto nos desnudamos, descubramos o que é verdadeiramente amar. Não o amor egoísta, não o amor da posse, não o amor fetichizado. Esses são escritos com letra minúscula. Falo do Amor verdadeiro, aquele que nós descobrimos por nossos amigos, por nossas amigas, por nosso povo e por povos do mundo que lutam. O Amor revolucionário como sentido e como ato. E que o Amor seja re-escrito com as cores do povo e que vocês ensinem sempre o verdadeiro valor desta palavra... desta idéia.
Lutar!
Como expressão de felicidade, de alegria em meio aos desafios. Porque um povo que descobre que pode lutar por algo e para todos é um povo feliz. Como diria Anton Semiónevitch Makarenko, em sua experiência com as crianças e jovens da Colônia Gork, no início do século passado e tão bem detalhado em Poema Pedagógico: “Eles vão a luta! Que alegria é saber que se pode lutar!”. E que Lutar seja re-escrito com as cores do povo e que vocês ensinem sempre o verdadeiro valor desta palavra... desta idéia.
Celebrar!
Quer incorporemos a Celebração em nossas idéias, e que nossas celebrações sejam a representação fiel, verdadeira e radical da manifestação popular, aquela com a qual a burguesia não entende, porque celebrar a luta de um povo, a luta contra o poder, a luta dos lutadores do povo. Que Celebrar seja re-escrito com as cores do povo e que vocês ensinem sempre o verdadeiro valor desta palavra... desta idéia.
Liberdade!
Palavra cada vez mais estranha em nossos tempos e cada vez mais necessária. Pois Liberdade não se ganha, se conquista. Liberdade é, sempre foi e sempre será fruto de nossos valores e de nossas posturas. Liberdade nunca será individual, Liberdade sempre é de todos. E que a Liberdade seja re-escrita com as cores do povo e que vocês ensinem sempre o verdadeiro valor desta palavra... desta idéia.
Revolução!
Como meu convite final, mas que sempre o faço. Convido-os e convido-as a serem revolucionários. Transformar o extraordinário em cotidiano. Que seja, ela própria, a idéia! E que seja a própria síntese de Lutarmos por Amor e Celebrarmos a Liberdade!
Vida Longa a este 27 de abril!
Vida Longa à Turma de Letras 2008!
Vida Longa à Turma Márcia Cristina Greco Ohuschi!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Universidade em perigo...









“Que a Universidade passe a se pintar
de preto, de povo, de operário, de camponês”
(Ernesto Che Guevara





            Em meus Discursos de Formatura,, desde 2008 (quando cheguei à Universidade Federal do Pará), sempre venho batendo em uma idéia, em um conceito de Universidade.
            A epígrafe de Ernesto Che Guevara é uma referência, a qual completava em suas palavras que ela, a Universidade, precisava abrir as portas aos párias (segregados por razões raciais ou econômicas de toda ordem), do Projeto de Universidade Pública (e Histórico de Sociedade) que nossa humilde lona de circo acredita.
            Mais ainda, colocávamos, em nossos Discursos, que a Universidade também precisava se pintar de trabalhador, de índio, de mulher e, assim, responder aos verdadeiros anseios à qual uma Universidade, principalmente a Pública, deve responder. Não estar à disposição das demandas do capital (travestido de mercado de trabalho), mas às reais demandas da sociedade.
            E é com essa certeza que atuamos em nossa docência, em nossas pesquisas, em nossas ações de toda ordem junto a este espaço: a Universidade Pública brasileira pertence ao povo brasileiro, principalmente sua parcela mais desvalida econômica e socialmente. O/A preto/a, o povo, o/a operário/a, o/a camponês/a, o/a trabalhador/a, o/a índio/a, o/a quilombola/a, o/a pescador/a, o/a carroceiro/a, o/a favelado/a, o preto-velho, a mulher... Não pertence ao latifundiário, ao banqueiro, ao mega-investidor, ao especulador, ainda que estes usem de todas as artimanhas (projetos sociais, bancos de pesquisa, bolsas de estudos etc.) para lá estarem.
            Assim, neste espaço de disputa entre o Trabalho e o Capital dentro da Universidade Pública brasileira, nos deparamos, volta e meia, com os mais impressionantes descalabros jurídicos, sociais, acadêmicos que possamos imaginar. E basta um “passeio” na literatura científica dos últimos anos para percebermos que ela, a literatura, sempre produz (com ares de ciência) estes descalabros. Assim o é sobre os temas que envolvem a Educação do Campo, sobre a profunda e radical democratização do Esporte enquanto conteúdo historicamente construído, sobre o não pertencimento de qualquer conhecimento à qualquer área etc., mas sempre encontramos produções defendendo cientificamente que não são possíveis sobre qualquer ótica científica. Elas sempre retomam.
            Por estes tempos recentes, algo que mais uma vez mostra o quanto o Capital e seus defensores são capazes de atuar em defesa de seu Projeto Histórico (Capitalista, burguês, opressor e de produção da miséria): uma Pesquisa construída como Dissertação de Mestrado, na área de Geografia, na Universidade Federal do Pará é questionada judicialmente. Seu autor, o Professor Enéias Barbosa Guedes, está sendo processado pela família Abufaiad (latifundiária da região do Marajó) e pelos latifundiários da região por conta da produção acadêmica do referido Professor.
            A Autonomia da Universidade Brasileira, assim, está sob (de novo) ameaça. E a Universidade Brasileira (já dissemos, em particular, a Universidade Pública) volta a ser colocada no banco dos réus do Capital, do Latifundiário, da Agroindústria, dos Poderosos e da Elite de nosso país justamente em algo que lhe é valoroso: a liberdade e autonomia acadêmica e científica...
            Nunca é demais lembrar: são estes mesmos setores, estes púrias de nossa sociedade, que defendem a tal liberdade de imprensa.
            O Universal Circo Crítico aqui manifesta não apenas seu repúdio à família Alfaiad, mas, e principalmente, seu apoio e solidariedade ao Professor Enéias Guedes. E nesta manifestação, nossa posição em defesa da Universidade Pública brasileira... Precisamos pintá-la de preto/a, de povo, de operário/a, de camponês/a, de trabalhador/a, de índio/a, de quilombola/a, de pescador/a, de carroceiro/a, de favelado/a, de mulher, nunca é por demais repetir. E que esta Universidade e a Justiça Brasileira possa, um dia, assinar o atestado de óbito do latifúndio...
            Ainda dá tempo...!

            Apresentamos o link do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (SINPAF) para conhecimento.

Venham Todos!
            Venham Todas!

            Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira

terça-feira, 17 de abril de 2012

17 de abril! Presente!


 “Não sabemos se este novo ataque
será o prelúdio da tão anunciada invasão
dos 5 mil vermes.
Mas lutaremos sobre os cadáveres
de nossos companheiros,
sobre os escombros de nossas fábricas,
cada vez com maior determinação. Pátria ou Morte”
(Ernesto Che Guevara /
Às vésperas de 17 de abril de 1961)

Entre os dias 15 e 19 de abril de 1961, quando ainda se estruturava a revolução cubana enquanto Estado Cubano, a CIA do então presidente americano John Kennedy, juntamente com os governos ditadores (nada de novo na história imperialista norte-americana) da Guatemala (Ydígoras) e Nicarágua (Somoza), estabelecia seu avanço sobre a pequena e revolucionária Ilha do Caribe, na tentativa de restabelecer o governo de Fulgêncio Batista.
Tratava-se de uma ofensiva de de aviões B-26, pilotados por cubanos treinados pela CIA e que bombardeavam as bases aéreas de Santiago, San Antonio de los Baños e Cudad Libertad...
Ao final destes quatro dias, segundo Paco Ignácio Taibo II, “a invasão é um fracasso”... Kennedy estava seguro em seu Gabinete na Casa Branca. Fidel e Che foram para a linha de combate.
A data que nos importa, em particular, aqui, é 17 de abril de 1961. Neste dia, os EUA são derrotados na Bahia dos Porcos (Girón), em Cuba e no dia seguinte, às cinco horas e trinta minutos, os revolucionários cubanos retomam a baía estratégica de seu país. Dois dias depois, 19 de abril, a derrocada final americana frente à pequena ilha revolucionária e que proporcionou, também, a morte de vítimas deste conflito, civis ou militares.
A história da humanidade, de seus conflitos e seus confrontos, revelam que, ainda, esta vã e insana tentativa de destruir o povo cubano e sua conquista revolucionária poderia, no final ao cabo, desencadear um conflito mundial, liderado por EUA e URSS (a então União Soviética) que, fatalmente, representaria a exterminação da humanidade, em um conflito bélico e nuclear sem precedentes.
Em 17 de abril de 1996, 35 anos depois, possivelmente poucas pessoas no Brasil sabiam, nem ao menos celebravam esta data. Claro, não se tratava de nenhuma imagem histórica que favorecia qualquer interesse de aprofundar os valores de submissão da classe trabalhadora ao Imperialismo Americano.
Mas, também bem possivelmente, 19 agricultores, campesino, militantes Sem Terra, em Eldorado dos Carajás no Estado do Pará não imaginavam que nesta data que expressa a capacidade de lutar contra gigantes seria uma data de tristeza, em tempos e ações de luta.
Passados 16 anos daquele 17 de abril de 1996, os artistas e o público do Universal Circo Crítico homenageiam não apenas aqueles 19 lutadores do povo que enfrentaram o braço armado do Estado (Paraense e Brasileiro) com paus e pedras. Como enfrentam com paus e pedras os palestinos contra as armas de precisão de Israel. Como enfrentaram com o mesmo sentimento revolucionário dos Camponeses de Carajás o povo cubano em 1961.
A história da humanidade ensina constantemente: “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento” (Milan Kundera).
Não nos esqueçamos de 17 de abril de 1961.
Não nos esqueçamos de 17 de abril de 1996.

17 de abril! Presente!

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira

PS.:
Nossa homenagem e nosso compromisso com a verdade de Carajás... Sem assassinos condenados!

Abílio Alves Rabelo (seis tiros);
Altamiro Ricardo da Silva (executado no chão, após receber tiros na perna);
Amâncio Rodrigues dos Santos (hemorragia intracraniana);
Antônio Alves da Cruz (dois disparos de arma de fogo no peito);
Antônio Costa Dias (dois tiros no peito);
Antônio (conhecido como  Irmão – três tiros pelas costas, um no pescoço);
Graciano Olímpio de Souza (Tiro na cabeça, com marcas de lesões típicas de defesa);
João Carneiro da Silva (esmagamento de crânio);
João Rodrigues de Araújo (tiros e marcas de arma branca);
Joaquim Pereira Veras (dois tiros);
José Alves da Silva ((tiros característicos de execução sumária);
José Ribamar Alves de Souza (dois tiros, um a queima roupa);
Leonardo Batista de Almeida (arma branca);
Lourival da Costa Santana (tiro fatal no coração);
Manoel Gomes de Souza (três tiros, na cabeça – execução sumária);
Oziel Alves Pereira (três tiros na cabeça e um no peito – em poder da polícia, algemado);
Raimundo Lopes Pereira (dois tiros na cabeça e um no peito, com marcas de tentativa de defesa);
Robson Vitor Sobrinho (quatro tiros, dois a queima-roupa, pelas costas);
Valdecir pereira da Silva (não consta dados).

Outros dois camponeses hospitalizados após o massacre morreram no hospital.

sábado, 7 de abril de 2012

Como construir ditaduras...





"Aos povos que não podem ou não querem
confrontar-se com seu passado histórico,
estão fadados a repeti-lo"
(Don Paulo Evaristo Arns)




            1º de abril de 1964.
            48 anos se passaram deste dia que a Casta Militar neste país ainda ensina como “Revolução de 64”. Basta um passeio nas Escolas Militares, sobretudo no material dos conteúdos afetos à História do Brasil. Também testemunhamos, todos os anos, a caserna do Colégio Militar (Rio de Janeiro) sempre comemora como sendo aquela data, a garantia de democracia e a proteção do país ante ao avanço da sombra comunista que ameaçava não apenas o Brasil, mas toda a América Latina.
            Assim, entre as décadas de 60 e 80 no século passado, Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Chile (para ficar em uns poucos países e apenas na América Latina) vivenciaram períodos tenebrosos, em que o simples ato de pensar diferente do Estado implicava em prisões, torturas e mortes. Não bastasse matar pessoas por pensarem diferente (em que pese a história da humanidade ter inúmeros registros deste ato), matar torturando-as e a seus familiares. Não bastasse matar torturando, matar vivos, como foram os casos de argentinos e chilenos dopados, colocados em aviões oficiais do Estado e lançados ao mar... dopados, ainda vivos, para se verem morrendo e sem forças para resistir.
Porém, não foram apenas os generais das Forças Armadas destes países os protagonistas das instalações de ditaduras naquele período. Dentre várias condições, a já conhecida Quarta Frota americana estava a postos. Duvidando da competência dos generais locais em colocar seus países (seus políticos, seus partidos, seus intelectuais, seus artistas, seu povo) no lugar e juízo do “american way of life”, estava pronta a força maior bélica dos EUA (derrotada no Vietnã, nos anos 70) para fazer valer sua determinação imperialista, expressa muito bem pelas palavras do já falecido ex-presidente da República (o aparentemente último ditador militar) João Batista Figueiredo; “se é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”.
É de conhecimento até do reino mineral que o Estado Brasileiro inventou (até os conservadores são criativos) a tal da Lei de Anistia. Era o estado agindo em benefício não mais do Estado, mas de interesses privados, de pessoas em seus postos de governo. E, também, de interesses de variados setores privados, em particular, os meios de comunicação. A grande beneficiada, durante a ditadura, foi a Rede Globo (não apenas), ao ponto de apenas esta ter resistido a crises financeiras diversas enquanto outras redes sucumbiam, a exemplo da TV Tupi  (que apoiou o Golpe, à bem da verdade) e TV Manchete (bem que tentou ser diferente). Uma Lei formulada e aprovada, com essa magnitude, sem uma profunda e verdadeira expressão dos interesses do povo brasileiro.
Ninguém pode ser punido pelo que fez, em que pese a hercúlea maioria dos “anistiados” terem sido os algozes. Às vitimas, o perdão pelo que pensavam, mas apenas aos vivos, já que, mais óbvio do que as próprias palavras do saudoso José Saramago (em Levantado do Chão), “entre mortos e feridos, ficaram estes”.
Mas entre os “não-estes”, existem os seus próximos. Algo interessante (e que o processo de ser, construir-se, aprender-se lutador do povo tem em seu DNA histórico), pois quem luta não luta sozinho. E não se trata apenas de familiares (pais, esposas/as, filhos e demais parentes), mas, também e inquestionavelmente, de seus amigos, companheiros, companheiras.
Um estado que provoca a angústia, a ausência não explicada e/ou mentida de pessoas a seus entes e amigos queridos ou até a suspeita, a partir de relato de outros presos que, talvez por serem menos “perigosos”, ao mesmo tempo que, também, poderiam conduzir o Estado a outros “pensadores perigosos”, eram liberados dos porões da ditadura e descreviam as características de quem lá estava, de quem lá desapareceu, de quem lá foi morto.
Celebramos o 1º de abril, mas não como se esbaldeia a Caserna incrustada no Clube Militar e espaços/pessoas afins, inclusive antecipando o dia do Golpe para 31 de março, para não cair nas graças do “Dia da Mentira” (que, quanto a “Revolução”, é uma mentira). Aliás, antecipação que só mostra o medo, a covardia insana de dizer que algo aconteceu em outra data, para não coincidir com data alheia.
Celebramos porque a memória daqueles lutadores, 48 anos depois, ainda mobiliza nossa sociedade, na justiça e, que bom, nas ruas. Assim o foi (e com o Estado, protetor do privado, sempre presente) nesta semana em cidades como Rio de Janeiro, em que pessoas apanharam da polícia e foram presas, do mesmo jeito que outrora.
Mas, ainda assim, precisamos ficar atentos... Ditaduras se promovem mundo afora (e algumas com discursos – imperialistas – de democracia e liberdade de expressão), em tempos atuais. E nem são promovidas apenas por Estados Nacionais.
Ditaduras são impostas pelos interesses privados, daqueles advindos da Indústria bélica à Indústria mais avançada da tecnologia e cibernética e que também concede benesses aos interlocutores do Estado.
A ditadura se estabelece pela imposição do medo, único artifício dos que não sabem convencer ninguém. O medo é imposto em sala de aula, em eleições (a mídia sempre soube fazer isso bem), mas também com Tropas de Choque e Polícia Militar, quando chegam e batem seus cassetetes em escudos pesados p’ra dizer “saiam daí, senão entramos”.
A ditadura se estabelece pela violência do estado, quando, após o aviso, entram com força, gás e armas (de borracha ou de fogo, ambas são letais) e derrubam quem estiver na frente. Derrubam e mantém no chão, surrando, batendo, torturando (porque as formas como são conduzidas pessoas pela polícia, quase quebrando-lhes os braços, é tortura)
A ditadura se estabelece pela Lei, que o diga A FIFA, CBF, COI e COB... que o digam o Código Florestal, SOPA (Lei contra a Pirataria Online, em inglês) ou as Leis que muitos municípios brasileiros já criaram, impedindo a chegada de “imigrantes” em suas terras.
A Ditadura se estabelece pela ignorância, pelo “inconhecimento”, pelo investimento da falta de história, cultura e memória. Que o diga o sucateamento da TV Cultura em São Paulo.
A Ditadura se estabelece escondendo a verdade (que sempre será revolucionária, por isso a escondem)... o que dizer uma "Comissão da Verdade" (ainda que com apenas sete membros).
A Ditadura se estabelece das formas mais estranhas, inusitadas, instantâneas e Universais que se podem imaginar... Como um 1º de abril.

Vida Longa aos Lutadores e Lutadoras do Povo que, assim como Mariguella, nos ensinam, todos os dias, que não podemos ter tempo para termos medo. Assim era o avô de nossa Lona e nosso Picadeiro, Hiram de Lima Pereira (“Presente!”)

O Universal Circo Crítico homenageia aqueles que tombaram nos anos de chumbo da história recente do país. Como continua a homenagear aqueles e aquelas que, ainda hoje, continuam a tombar.

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa!

Marcelo “Russo” Ferreira



quarta-feira, 28 de março de 2012

Discurso de Formatura...


“É preciso trabalhar todos os dias pela alegria geral.
É preciso aprender esta lição todos os dias
e sair pelas ruas cantando e repartindo a esperança,
a mão cristalina
a fonte fraternal”
(Thiago de Mello)

            Prezado professor Stéfano Andrade, Coordenador Acadêmico do Campus de castanhal da UFPA, minha saudação.
            Saúdo, com amizade, carinho, admiração, nossa Querida Maele, homenageada da turma, a professora Kátia Kietze, também homenageada e minha querida Mirleide Chaar Bahia, que, mais uma vez, recebe a justa homenagem de nome da turma.
            Minha saudação, claro, especial, aos alunos, agora professores de Educação Física 2008, agora “Turma Mirleide Chaar Bahia”, seus familiares e amigos presentes, estendendo, também minha saudação a aqueles que estão, para vocês presentes em seus corações, pelos caminhos e esquinas da vida que não os conduziu até este momento.
            Desde que aqui cheguei, ao Pará, à Castanhal, à esta Universidade, tendo vivenciado todas as celebrações de conclusão de curso dos alunos desta casa. E sempre numa posição bastante privilegiada. Evidente que os caminhos e descaminhos que esta Universidade, seus alunos, seus docentes irão trilhar nos próximos anos, evidentemente me proporcionarão outros assentos. Mas, mais do que esta nova alegria de falar com vocês neste momento, de participar desta festa, de entregar alguns diplomas em mãos, falo de outra posição privilegiada, que tem muito mais sentido do que “sair na foto de formatura” da turma (o que, claro, é uma alegria muito grande): a posição de aprendiz... um docente de ensino superior que sempre persegue seu aprendizado de humanidade e divide, todos os dias, com seus alunos. Essa posição, assim espero, me conduzirá por toda a minha vida.
Portanto, ao falar para vocês como professor, falo, na verdade, como aprendiz.
            Sempre falarei, aqui ou nos espaços onde minhas palavras ganham vida (a sala de aula, os diálogos com meus alunos, a minha casa e minha família os eventos científicos, o bom e velho Universal Circo Crítico, as canções que faço, mesmo que não mais nos últimos tempos), sobre os dias de nossa celebração e as lições que podemos tirar... neste caso, falo sobre o dia 16 de março de 2012, e as lições que a curta mas longa história de vocês humildemente nos ensina, ou gostaria de ensinar
            Para tanto, e como bom brincante e viajante de minhas idéias, farei isso pensando em outro, um único 16 de março diferente de hoje, em um longínquo ano de 1962. Naquele dia, os Estados Unidos da América impunham de maneira mais autoritária, imperialista e globalmente o embargo econômico contra Cuba – como diria Frei Beto, “uma Ilha deste tamanhinho”, se comparada ao colosso continental daquele país que sabia, como nenhum outro, promover Guerras em terras alheias.
Longínquos 50 atrás... uma Pequena e Lutadora Ilha do Caribe estava condenada à miséria econômica e ainda assim resistiu. Tenho menos idade do que o tempo deste fato de nossa história moderna e dela sei a bem menos tempo ainda, já que os livros de minha escola, e talvez da escola de grande parte daqueles que estão aqui, hoje, nunca nos disseram o que era isso.
          É interessante falarmos sobre esta história, pois ao longo de nossas vidas, principalmente quando somos pequenos ainda, aprendemos, com outras palavras, o significado da palavra “embargo econômico”. E penso nisso bem ao estilo de “apertem os cintos” e “coloquem seus capacetes”. Quantas vezes escutamos o “comporte-se durante o ano para ganhar um presente do Papai Noel”? Até mesmo as reflexões que nos levam a aceitarmos as condições sociais e econômicas que nos são impostas para “termos nosso lugar no céu” quando daqui partirmos? Sei que parece uma reflexão mais dura até. Mas desde pequenos somos ensinados, quase que civlizadamente, a sermos, no final ao cabo, escravos da coisa, do prêmio, do “não nos acontecerá nada se assim fizermos”, parafraseando um dos nossos maiores e mais esquecido poeta sertanejo deste país, Patativa do Assaré, em “A escrava do dinheiro”:
“Dinhêro transforma tudo / dinhêro é quem leva e traz / eu nem quero nem dizê/ tudo o que o dinheiro faz /apenas aqui eu conto que ele pra tudo tá pronto / ele é cabrero treidô é carras e é vingativo / só presta prá ser cativo ,não presta pra ser senhô / A pessoa neste mundo / Bota o pé na perdição / Quando ela dêxa o dinhêro / governá seu coração.”
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E é possível, caros hoje professores e professoras, que vocês serão levados a essa condição a partir de agora. Talvez alguns até já tenham vivido isso durante seus anos de estudantes e até escutado conselhos “não reclame, não questione, aceite as regras” enquanto se sentiam explorados em seus postos de trabalho ou, como vocês gostam de caracterizar, seus postos de “escraviários” – os escravos do estágio. Aceitem as regras e conquistem o espaço no Mercado de Trabalho.
Em 1962, Cuba não aceitou as regras... e não aceitou bem no quintal da maior potência bélica do mundo (do ponto de vista do Estado e do ponto de vista da Indústria). E há 50 anos, com palavras mais distantes do “economês”, o povo cubano não ganha o presente de Natal, não irá para o céu quando morrer e não terá seu espaço no Mercado de Trabalho. Os que impuseram esta regra, por incrível que pareça, não são vistos como algozes. Assim como nunca serão algozes os nossos patrões. Ledo engano...
Assim, queridos e queridas professores e professoras, deixo aqui uma primeira lição: enfrentem este engessamento das relações humanas e que conhecemos com o nome de “mercado de trabalho”. Pois é o trabalho, não o mercado, o que nos dignifica enquanto seres humanos. E como sabem, falo do trabalho como condição de nossa humanidade, de nossa capacidade de transformar a natureza. Precisamos transformar, portanto, o nosso próprio trabalho, onde quer que cada um venha a atuar, precisamos transformá-lo. É a condição de existência da própria humanidade, transformá-lo. E, não tenho dúvida disso, transformando-o, nos transformamos. E, assim, talvez, apenas talvez, retomaremos o caminho que contraditoriamente a humanidade abandonou: sua própria humanização.
Não quero, e vocês me conhecem, fazer discursos pessimistas. Quero apenas continuar no meu caminho de viajante, apenas isso. E neste caminho, construir a boa e importante relação da condição humana de sermos “pessimistas na análise, otimistas na ação”. Pois quando o homem acha que tudo é imutável, ele morre.
Lembro das palavras de Bertold Brecht; “E se fôssemos infinitos? Tudo Mudaria. Como somos finitos, tudo permanece”. Pensarmos, infinitamente, agirmos em nossa finitude e isso é um agir otimista e revolucionário.
Continuo com meu pensamento voltado ainda a aquela mesma data: 16 de março de 1962.
Os fatos desta história e, principalmente, os valores que foram construídos e divulgados de maneira massificada nos quatro cantos do mundo, nos levam a quase naturalizar outra armadilha: somos o que o Mercado de Trabalho diz que somos, “cada qual no seu igual”, como diria o ditado popular.
E ao sermos isso, deixamos de ser “Nós” e passamos a ser “eu”. Não a toa, e já inspirado neste momento que agora estamos, escrevi, dias atrás, minha “Carta aos Estudantes” no bom e velho picadeiro do Universal Circo Crítico, prefaseando-a com Chico Buarque, em Saltimbancos: “Ao meu lado há um amigo que é preciso proteger / todos juntos somos fortes, não há nada pra temer”... A armadilha do individualismo, a armadilha do “eu sozinho”, a armadilha do amigo-inimigo. Talvez um dia nos encontremos numa mesa de bar, numa fila de banco, num passeio de domingo. E talvez vocês me digam “professor, ainda não entendi o sentimento que tive ao disputar um lugar em uma escola, uma academia, com meu amigo de Faculdade”. Acreditem, isso já aconteceu comigo.
Mas a lição explicitada nesta reflexão sobre os valores é que não tenhamos medo, receio de sermos mais um... que sejamos mais um e muitos “mais um”. Mais ainda, que vocês saiam daqui com a coragem de formarem muitos outros “mais um”... Não premiem ninguém, não dêem atenção aos mais fortes, rápidos, bonitos e espertos, não privatizem aquilo que aprenderam e ainda irão aprender. Que tenhamos a coragem, CORAGEM, caros professores, de sermos “mais um”. Não há nada de errado nisso...
Mas as lições de 16 de março continuam...
Penso também naquilo que pudemos, todos nós, docentes que vivenciaram este difícil mas belo caminho que vocês trilharam nos últimos anos, experimentar, acompanhar e referendar. Aliás, em um de nossos últimos encontros eu fiz questão de tratar sobre a obra que vocês construíram nesta Universidade, o tal do Trabalho de Conclusão de Curso.
Sabemos, nós, que vocês poderiam ter feito mais, que tinham condições e os instrumentos para tal construção. E, claro, não estou falando da nota final, do conceito que mediu os sacrifícios, a disciplina, a concentração e as noites mal ou não dormidas desta tarefa, grande e pontual tarefa Talvez a luta entre a formação da coisa e a formação da humanidade que, desde a escola, persegue nossos estudos tenha, vez em quando, permitido a ascensão da coisa em nossas produções, por exemplo, a nota. Mas ainda assim, e inclusive na contradição, o labor de vocês compõe esta Universidade. Mas nem vocês, nem nós docentes, nem esta Universidade está pronta e acabada, o que dirá do tal TCC. E nem estaremos distantes nesta construção, só porque saem desta casa. E neste sentido, quero não mais dividir apenas com vocês, novamente, as palavras de Bertold Brecht, das quais seleciono algumas passagens:
Quanto tempo / Duram as obras? Tanto quanto / Ainda não estão completadas. / Pois enquanto exigem trabalho / Não entram em decadência. / / Convidando ao trabalho / Retribuindo a participação / Sua existência dura tanto quanto / Convidam e retribuem. / (...) / 2 / Assim também os jogos que inventamos / São incompletos, esperamos; / E os objetos que servem para jogar / O que são eles sem as marcas / De muitos dedos, aqueles lugares aparentemente danificados / Que produzem a nobreza da forma; / E também as palavras cujo sentido / Muitas vezes mudou / Com os que as usaram. / 3 / Nunca ir adiante sem primeiro / Voltar para checar a direção! / Os que perguntam são aqueles / A quem darás resposta, mas / Os que te ouvirão são aqueles / Que farão as perguntas. / / Quem falará? / O que ainda não falou. / Quem entrará? / O que ainda não entrou. / Aqueles cuja posição parece insignificante / Quando se olha para eles /  / Quem dará duração às obras? / Os que viverão no tempo delas. / Quem escolher como construtores? / Os ainda não nascidos. / (...) / Por isso o desejo de emprestar duração às obras / Nem sempre deve ser saudado.
Todos nós não estamos prontos, eis aqui esta lição.
E se não estamos prontos e acabados, deveremos sempre olhar os nossos caminhos. O já percorrido, reconhecendo que o passado é necessário, o lugar em que estamos – e ninguém fala de lugar nenhum – e o caminho a ser percorrido. E assim ensinarmos, todos os dias, os nossos professores, os nossos alunos, a nossa Universidade a sempre olhar seus caminhos. Se tivermos sempre este olhar, penso que estaremos sempre prontos e despreparados, mas sempre caminhando.
            Como aprendiz, me levo de novo às palavras do Poeta Thiago de Melo, em sua “Vida Verdadeira”: “Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar. Aprendi (o caminho me ensinou) a caminhar cantando como convém a mim e aos que vão comigo. Pois já não vou mais sozinho”. Sabemos que “o caminho se faz caminhando, caminhante”, mas ele é contraditório e muitas vezes somos levados a cada vez mais longe do real caminho que precisamos perseguir, o caminho do coletivo forte. E dentre tantos que poderiam aqui se fazer presentes para falar sobre os caminhos coletivos (Paulo Freire, Florestan Fernandes, Leon Trotsky, Wladimir Lênin, José Saramago ou mais contemporâneos nossos, como Frei Beto, Celi Taffarel, Michele Ortega), escolho quem, em silêncio, celebrou 124 anos de seu nascimento, Anton Semyonovich Makarenko:
“(...) Num coletivo desses, a incerteza dos caminhos individuais não podia determinar uma crise. Pois os caminhos individuais nunca são bem claros. E o que é um caminho individual claro? É a renúncia do coletivo (...): uma preocupação tão precoce, tão tediosa, quanto ao pedaço de pão futuro, quanto àquela decantada formação profissional”.
E quando faço esta reflexão, faço-a no sentido de trazer o que já disse, e continuarei a dizer, a colegas que já passaram por esta casa, aos que estão passando e aos que ainda estão a chegar: Voltem! Voltem a esta casa. Não importa em qual lado da trincheira estarão, ainda que eu sempre possa contar com mais lutadores e lutadoras do povo nesta casa. E, se assim o são, se assim continuarem a ser, estarei do lado de vocês, assim como acredito que estarão do nosso lado (lembrem-se, sou um de muitos “mais um”). Se estiverem do lado de lá das trincheiras desta Universidade e de nossa sociedade, também serão bem vindos, pois testemunharão a transformação desta casa.
E se aceitarem o convite o estendo mais ainda, sem perder a oportunidade de, mais uma vez, para mais uma nova turma que se forma, dizer o que precisamos fazer nesta Universidade, em palavras já ditas por outro grande visionário, outro grande lutador do povo, Ernesto Guevara, o Che: precisamos pintar esta universidade de Preto, de Índio, de Mulher, de Camponês, de Trabalhador... Não apenas no acesso, como são as importantes políticas de inclusão. Mas na sua concepção. Nenhum, e isso é uma convicção, nenhum docente, por mais doutor que se arrogue, é sabedor do mundo. Muitas vezes, não é sabedor nem de onde está. Porque, dentre outras coisas, não sabe o que é ser negro, o que é ser mulher, o que é ser índio, o que é ser camponês, o que é ser trabalhador... E esta é mais uma lição: escolhermos, sem receio, sem medo, o lado em que estaremos e, mais ainda, não tenham medo das suas palavras. Nem dêem sequer tempo ao medo. É disso que esta Universidade, a brasileira, ainda precisa. Somos muitos “um” que não tem medo, mas há muitos que plantam o medo. Mas, como disse um dia o cantor-poeta nordestino, Ednardo: “Eles são muitos, mas não podem voar”.
            Quero caminhar para minhas considerações finais. Mas sempre olhando para o 16 de março e, talvez, a lição que considero fundamental. Um povo sofrido, em 1962, não aceitou o medo como imposição de sua condição de povo e encarou de frente aqueles que queriam atrelar sua soberania aos seus interesses espúrios. Falam o tempo todo do Projeto Histórico que vigora naquele país, mas não falam que os princípios que levaram as principais potências econômicas e bélicas do mundo, de tempos em tempos, aprofundam-se em sua própria crise. Hoje, a Europa condena seu povo à miséria, à fome, ao desemprego e à perda de direitos sociais de toda ordem. “Não o Capitalismo, mas ganância de banqueiros e outros grandes ricos do mundo”, dizem... Como se este sistema social a qual conhecemos como capitalismo não investisse justamente na ganância, no individualismo, no poder centralizado para continuar a existir.
            A lição? Simples e complexa, como minhas viagens: não aceitem derrotas, construam vitórias... e, claro, as coletivas. Bertold Brecht talvez estivesse lendo as mentes e os pensamentos de muitos aqui, neste local:
            “Você diz:/ Nossa causa vai mal./ A escuridão aumenta. As forças diminuem. / Agora, depois que trabalhamos por tanto tempo / Estamos em situação pior que no início./ Mas o inimigo está aí, mais forte do que nunca./ Sua força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível./ Mas nós cometemos erros, não há como negar. / Nosso número se reduz, Nossas palavras de ordem Estão em desordem. O inimigo Distorceu muitas de nossas palavras / Até ficarem irreconhecíveis. / Daquilo que dissemos, o que é agora falso: Tudo ou alguma coisa? / Com quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora Da corrente viva? Ficaremos para trás / Por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo? / Precisamos ter sorte? / Isso você pergunta. Não espere Nenhuma resposta senão a sua.”
Minhas palavras são assim, caros professores e professoras de Educação Física que aqui se formam. Palavras que sempre acreditaram na formação de novos revolucionários... e revolucionários são como guerreiros: Guerreiros são pessoas / São fortes, são frágeis / Guerreiros são meninos / No fundo peito / Precisam de um descanso / Precisam de um remanso / Precisam de um sonho / Que os tornem perfeitos / É triste ver meu homem / Guerreiro menino / Com a barra de seu tempo / Por sobre seus ombros / Eu vejo que ele berra / Eu vejo que ele sangra / A dor que tem no peito / Pois ama e ama / Um homem se humilha / Se castram seu sonho / Seu sonho é sua vida / E  vida é trabalho / E sem o seu trabalho / Um homem não tem honra / E sem a sua honra / Se morre, se mata / Não dá pra ser feliz / Não dá pra ser feliz”
Precisamos, no fim das contas, sermos felizes... um, mais um, mais um, mais um... felizes.

Venham Todos!
Venham Todas!

Vida Longa à Turma 2009!
Vida Longa à Turma Mirleide Chaar Bahia!

Vida Longa!