RESPEITÁVEL PÚBLICO!

VENHAM TODOS! VENHAM TODAS!

sábado, 6 de agosto de 2016

Discurso de Formatura: Turma Professora Renata Vivi


“Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores.
 Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores.
 Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores.
 To regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores.

 Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho.
 Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho.
 Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho.
 Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho.

 Estou podando meu jardim
 Estou cuidando bem de mim.”
(Meu Jardim – Vander Lee)



Boa noite a todos e a todas.
Minhas saudações.
Na pessoa da Professora Renata Vivi, homenageada da turma com seu nome, saúdo a todos e todas as demais pessoas presentes na mesa. Na pessoa da Alana, oradora da Turma, cumprimento a todos os agora Professores e Professoras de Educação Física, seus paraninfos, parentes e amigos/as.
Cá estamos, agora Professores de Educação Física, a Turma 2012.1 da Universidade Federal do Pará (UFPA/Castanhal). A turma Professora Renata Vivi. E eu cumprimento minha querida Renata Vivi, mesmo com as nossas divergências, com carinho e honra, por entender que se trata de uma homenagem justa e também carinhosa.
Hoje, 5 de agosto, é um dia para celebrarmos e, em cada um e cada uma dos agora, companheiros e companheiras de trabalho, uma data a mais nas particulares histórias de vocês, assim como na minha.
Ainda que as palavras que utilizo para saudá-los me traga uma tristeza. Não a toa trouxe a canção “Meu Jardim”, de Vander Lee. Ele nos deixou hoje pela manhã. Sua obra é tão magnífica que encontrar uma letra de uma de suas canções se tornou uma tarefa longa, haja vista o tamanho de sua obra, mas simples, haja vista a vastidão de suas canções. E, penso, se encaixa perfeitamente tanto na saudação de Alana, quanto nas palavras emocionadas de Renata. Vida Longa, Vander Lee.
Estou neste espaço (uma casa pública, aparentemente do povo – a Câmara Municipal de Castanhal) e neste momento (a celebração coletiva de novos professores de Educação Física) também honrado com a homenagem prestada a minha pessoa. Reitero, aqui e em público, o eterno segundo de espanto e alegria que senti quando recebi a notícia desta homenagem. Essas palavras, à bem da verdade, seriam ditas independente desta. Impossível passar pela vida de vocês sem, em momento tão importante, deixar algumas palavras, reflexões, e principalmente esperanças.
Inicialmente, não gostaria de reconhecer neste espaço público que agora estamos, muita coisa importante, que tomassem por demais minhas palavras. Confesso que até busquei informações sobre o que anda, esta “casa do povo”, fazendo ultimamente. E percebam: não encontrei nada. Absolutamente nada (a publicação mais recente é a resenha da sessão de 6 de fevereiro... de 2013)... Se já temos uma certa cultura de não acompanhar a vida parlamentar de nossa cidade, Estado e País, esta casa, parece contribuir para que esta cultura se perpetue.
Em ano de eleições, não consultem o facebook, apenas.
Assim, vendo vocês nesta casa (reflexo das Câmaras Municipais, Assembleias Estaduais Brasil afora e do Congresso Nacional Brasileiro, em sua estúpida e superficial representação – com raríssimas exceções, à esquerda e à direita) as primeiras impressões que me causam é: vocês só podem ser “bem vindos” a esta casa como expressão de hipocrisia da mesma. Ou, no máximo, como mera formalidade anfitriã. Mas não tivemos anfitrião neste dia.
Como disse na minha saudação, vocês agora, oficial e legalmente, são Professores e não vi (no site oficial e até em perfil de facebook – é, eu tentei até lá) nada que diga a população desta cidade qual papel esta casa vem desempenhando para melhorar, minimamente, a vida de seu povo. Se considerarmos uma particularidade das nossas possibilidades de intervenção – a Educação Pública – a pergunta que parece ficar sem resposta (numa casa que, à bem da verdade, funciona sempre ao interesse da elite endinheirada desta cidade) é: o que esta casa e seus “representantes do povo” vem fazendo em defesa da Educação Pública? Em defesa dos Professores que estão na Escola? O que priorizam? Seria o Plano de Cargo e Carreira dos Professores? E os demais trabalhadores da Educação? Seria, talvez, a luta pela garantia do piso salarial nacional de Professores da Educação Básica (que, no Congresso, está sendo seriamente ameaçado, assim como todos os recursos públicas voltados à Saúde e Educação Pública)?
Como disse: esta casa é mero reflexo do que vem se transformando os legislativos Brasil afora, com a particular atenção ao que estamos conhecendo como “Escola Sem Partido”, uma excreção sem tamanho e que sequer sabemos se já ronda esta casa. Falo da Escola Sem Partido com uma angústia que, inclusive, chega aos bancos da Universidade, haja vista professores que formaram vocês ainda não terem opinião sobre isso ou até brincarem com a ideia.
Vamos pensar:
Imaginem, vocês, prezados e prezadas professores e professoras de Educação Física, se confrontarem com o discurso, acerca da prática de vocês, de “descobrirem um Neymar na Escola”? Porque, infelizmente, ainda é o que escutamos – dentre outros equívocos, alguns até justificáveis – acerca do nosso trabalho.
Pois bom: este ídolo do futebol brasileiro e internacional (que na verdade é um novo “fonema” para Ronaldo, Ronaldinho, Robinho e por aí vai), que sempre tem destaque em entrevistas coletivas e nestas destaca tudo o que conseguiu e tem ainda muito jovem, este ídolo de nossas crianças e adolescentes, que estão na escola e se espelham nele, não concluiu o Ensino Médio.
Claro, uma primeira lição que deixo aqui é: por favor, se encontrarem um “Neymar”, façam o melhor por ele e não deixe ele interromper os estudos.
Mas, neste caso, à Luz dos princípios desta estúpida Escola Sem Partido, não interromper os seus estudos poderá enquadrá-los, puni-los, serem afastados de suas atividades docentes, em favor de uma possível carreira como jogador de futebol e ídolo de milhares de crianças e jovens não ser impedida por um professor ou professora irresponsável com sua formação. Agir daquela maneira poderá ser interpretado como “assédio ideológico”, pois estariam vocês indo ao encontro (conflituosamente) dos interesses do Mercado.
E quantos dos professores que vocês tiveram e conviveram durante este período de formação disseram exatamente isso: que vocês precisam estar prontos para entrar no mercado, adequar-se a ele? Pois bom: isso significa, no final ao cabo, ir contra os princípios atuais de uma sociedade “de mercado livre e democrático” e, portanto, estariam ideologizando este “futuro Neymar”, contra a sua vontade e de sua família, de ser jogador de futebol.


Vamos mais longe...
Pensem comigo: imaginem vocês falando nas suas aulas sobre quantos atletas (não apenas no futebol) deixam de estudar para tentar seguir carreira num espaço absurdamente desigual no Esporte brasileiro. Imaginem-se debatendo a desigual e desproporcional participação da mulher em todos os âmbitos do Esporte brasileiro (de atletas a gestores) e o apoio dado à atleta feminina, bem como o ainda presente machismo e assédio a que é submetida. Imaginem-se debatendo com seus alunos o que é o “Bom Senso Futebol Clube” e o que significa atletas de grandes clubes, sentando no gramado, ou cruzando os braços ou trocando passes sem desenvolver a partida durante um minuto assim que a partida inicia e as Redes de TV (que compram direitos de transmissão e, pasmemos, de não transmissão também) atrasam a transmissão das partidas para, justamente, não ter que explicar à população, ao telespectador, ao “bem, amigos!” o que isso significa. Imaginem-se, até mesmo, problematizando a desigual cobertura que se dá ao Esporte Paraolímpico, só para ficar neste evento que hoje inaugurou mais uma edição de Jogos Olímpicos.
Se ficarmos apenas nestas ideias, já dá “uma par de dezena de anos” de prisão por “Crime de Manifestação Partidária” nas Escolas, seja lá o nome que venha a ser dado a isso, caso passe.
É interessante pensar nisso tudo justamente hoje, 5 de agosto, haja vista ser o dia em que novos Professores e Professoras de Educação Física estão sendo apresentados à sociedade, à população brasileira, e, também, testemunhamos a abertura da 31ª edição dos Jogos Olímpicos da era moderna. E aqui no Brasil... o primeiro fato, claro, me é infinitamente mais importante e valioso.
Dos Jogos Olímpicos: apenas mais alusões ao nosso papel de “detectores de talentos esportivos”, numa insistente postura de nos afastarem de nosso lugar e tempo: somos Professores.
Sabem, vocês, que estou entre os professores desta Universidade que não celebra, sequer comemora nada neste evento. Prefiro manter-me solidário – dentre outras e inúmeras questões – às centenas de famílias de diferentes bairros do Rio expulsas, removidas (e, lembremos, removemos corpos, lixo e entulho) de suas casas e comunidades com o único intuito e propósito de garantir as obras do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, quer os esportivos, quer os de “mobilidade urbana” (seletiva, sabemos).
Várias famílias acordando e constatando que a porta de suas casas fora marcada, em tinta grosseira, com números e letras que indicavam: “será demolida”. Famílias que recebiam “Ordem de despejo” com data para o dia anterior ao que recebiam a tal ordem. Tratores, caminhões e a Força de Segurança Pública (e aqui o meu registro de respeito e admiração aos Servidores da Segurança Pública que aqui estão se formando) fortemente armada para garantir que nada interrompesse o sólido caminho para a consolidação do Brasil entre as 10 maiores potências olímpicas mundiais somada aos agentes da especulação imobiliária destas localidades a celebrarem a exponencial valorização destas áreas, adquiridas a preço de banana e com as benesses do Estado.
Vale a pena? Menos de 400 atletas brasileiros (sem tirar o mérito de que muitos deles sacrificam muitas coisas em suas vidas – outros, nem tanto, já que já sabem arrotar tudo o que conseguiram com o esporte: festas, carros, jatinhos) valem mais do que centenas de famílias, suas casas, suas comunidades, sua história, amigos, escola, celebrações, relações sociais?
A melhor marca olímpica, em termos de medalhas, vale tudo isso?
Reparem, meus caros camaradas de profissão: não digo aqui nada diferente do que sempre lhes disse em sala de aula. A vocês e aos seus colegas de outras turmas, que já se formaram ou ainda estão caminhando nesta direção. E se parece um discurso “entristecedor”, acho que é melhor eu já contestar este sentimento, antes que crie raízes fortes em vossos corações.
Minhas palavras são de ENCORAJAMENTO. Afinal, se a análise é pessimista, a ação sempre será otimista (de Gramsci, um italiano comunista).
E se, ainda assim, o 5 de agosto insistir em ser lembrado também pela sua alusão aos Jogos Olímpicos, não tem problema. Mantemo-nos nele e lembremo-nos de 5 de agosto de 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, Alemanha. A última edição deste evento esportivo antes da deflagração da II Guerra Mundial.
A Alemanha, já sob os auspícios da hegemonia política nazista, se preparava para tentar provar ao mundo a supremacia da raça ariana e nada como o Esporte (sempre ele) para ajudar nesta demonstração.
Lembremo-nos de Jesse Owens, atleta olímpico afro americano que venceu suas provas no Atletismo.
Na bibliografia de Jesse, para que não nos esqueçamos, está a seguinte declaração: “Não foi Hitler que me ignorou, quem o fez foi Franklin Delano Roosevelt (presidente dos Estados Unidos naquele período). O presidente sequer me mandou um telegrama”. Nenhuma alusão a Hitler, aqui... mas que são poucas as histórias de resistência humana, social, trabalhadora que conseguimos recordar e registrar na nossa formação no campo da Educação Física, ainda que tenha a ver com a nossa área.
O que iremos dizer, por exemplo, a nossos alunos, sobre a história dos Jogos Olímpicos ou do Atletismo, sobre outros tantos Jesse Owens? Ou então, o que diremos a nossos alunos sobre outros afro-americanos, Tommie Smith e John Carlos, que subiram ao pódio com ouro e bronze na prova de 200 metros e, após o hino de seu país, com as luvas negras, ergueram os punhos e saudaram simbolicamente os PANTERAS NEGRAS. Eles perderam a medalha e foram expulsos dos Jogos Olímpicos (Cidade do México, 1968)...
E Diogo Silva, atleta de Taekwondo que também repetiu o gesto nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.? O que diremos aos nossos alunos?

Diogo Silva

Quantos temas teríamos que dizer “não existem, não interessam, não são importantes” sobre esses atos de atletas olímpicos, um deles em um 5 de agosto... Também o dia de hoje.
Mais um motivo para, a depender do que virá adiante (Escola Sem Partido), sermos afastados de nossas atividades docentes como Professores de Educação Física.
Meus caros Professores. Minhas queridas Professoras...
Insisto: são palavras de encorajamento. Só enfrentamos o que escolhemos quando conhecemos a fundo o que escolhemos. E, lhes garanto, essas palavras não chegam nem perto do que necessitamos saber para enfrentarmos, com coragem, o que temos pela frente (sim, temos, vocês, Eu, outros que comigo dividem essas reflexões, que passaram pela formação de vocês, que estão na Escola Pública, nas Academias, no trabalho com o Esporte e em outros espaços de atividade docente). Mas, ao mesmo tempo, essas palavras seguem o curso da expressão mais bacana dos Saltimbancos (os quatro bichos – o jumento, o cão, a galinha e a gata – que enfrentam seus patrões e buscam uma vida melhor para todos): “Ao meu lado há um amigo que é preciso proteger! Todos juntos somos fortes, não há nada a temer!”

–  Aproveitando o ensejo: Fora Temer! (Strovézio).

Olha aí o Strovézio. Sempre tão quietinho em Discursos de Formatura.
É curioso como esta data traz, em si, essas poucas particularidades que, diferente da aparência – que nos regalaria com obviedades olímpicas, talvez – tem muito mais a colocar-nos desafios do que meras associações pontuais.
Hoje é 5 de agosto... e gostaria de presenteá-los com dois nomes importantes da história da humanidade e que tem, neste dia, relações intrínsecas com vocês.
Em 5 de agosto de 1962, o então militante Nelson Mandela (que tornou-se presidente da África do Sul após intenso enfrentamento contra o Apartheid) era preso. E é preciso lembrar: Mandela foi presidente e mesmo depois de deixar a presidência de seu país, ainda constava na lista de “perigoso terrorista” dos EUA (saí da lista apenas em 2008).
Uma frase a ele atribuída parece-me bem interessante, e importante para este dia, considerando-o inclusive como um momento de congratulação de toda uma pequena história de quatro anos e meio de estudos, formação – alguns e algumas aqui, também de militância – e amizade: “Uma boa cabeça e um bom coração formam sempre uma combinação formidável”.
Parece-me uma grande lição, de quem lutou acima até de nossa compreensão pela paz em seu país.
Entendo, meus caros e minhas prezadas Professores e Professoras, que o bom coração tem, de um lado, uma boa dose de subjetividade e uma grande porção de Amor à Humanidade. Sabendo, vocês, quem eu sou, o que acredito, em que e em quem eu acredito (eu... um comunista, ateu – formado no cristianismo – militante e professor), quando falo de Amor a Humanidade, falo da necessidade de outro projeto de sociedade em que não haja mais o mínimo resquício da exploração do homem pelo próprio homem, quer material, quer cultural, quer pedagógica.
E um bom coração com uma boa cabeça, à mim, implica numa necessária e imprescindível disciplina: os estudos continuam. E para tanto, recorro a um último grande nome que tem a ver com este 5 de agosto: Friederich Engels, companheiro inseparável de Karl Marx e que representam a angústia de temor daqueles que insistem no insano projeto de Escola Sem Partido.
Engels era um pesquisador, filósofo, artista disciplinado. E ambos produziram uma obra durante mais de 40 anos e para compreendermos esta obra, não basta (como até mesmo a Academia/Universidade o faz) nos prendermos aos “chavões” e às experiências práticas a elas associadas. Precisamos estuda-los e estudar com afinco tudo o mais que necessitamos estudar.
Diria Engels, em uma de suas principais obras (Anti-Düring):



“Efetuar esse ato de libertação do mundo é a vocação histórica do proletariado moderno. Investigar suas condições históricas e, desse modo, sua própria natureza, levando à consciência da classe hoje oprimida, mas chamada à ação, as condições e a natureza de sua ação é a tarefa de expressão teórica do movimento proletariado, a saber, o socialismo científico.”



Amor à Humanidade e Disciplina nos Estudos. Para mim, elementos necessários aos meus convites finais. E, reconheço, me farei repetitivo... e assim continuarei em tempos futuros:
Convido-os a serem Revolucionários. E serem Revolucionários significa, também, a capacidade de amarmos os que não conhecemos e nos solidarizarmos com eles, não com o que representa as suas angústias. Por isso, para mim, 5 de agosto de 2016 representará, pontualmente, a apresentação de novos Professores e Professoras de Educação Física à nossa sociedade, mesmo que esta festa seja bem mais singela (mas infinitamente mais humana e verdadeira) do que aquela que, agora, está acontecendo no Rio de Janeiro.
E convido-os a retornarem a esta casa (mesmo que fiquemos em trincheiras diferentes). E sobretudo, revolucionariamente, convido-os a voltarem a esta Universidade para que possamos, sem recuar um passo sequer, pintá-la de Negra, Campesina, Operária... Pintá-la de Indígena, de Mulher e de Povo.
E se essas palavras parecerem um pouco idealistas demais, olhemos a nossa volta e respondamos do fundo e ao fundo do nosso coração: todos os que mereceriam estar aqui hoje, estão? Todos?
Em 1845, Engels diria em relação à luta dos Trabalhadores contra as condições que enfrentavam de trabalho e de vida e que, mais de 170 anos depois, parece-me inquestionavelmente atual e expressivo do dia de hoje:
“Para a frente no caminho que vos engajastes! Muitas dificuldades vos aguardam; continuai firmes, não vos deixeis desencorajar; o vosso êxito é certo e cada passo à frente, neste caminho que tendes a percorrer, servirá à nossa causa comum, a causa da humanidade”.

Isso começa, também hoje.
Isso começa, também, aqui.

Vida Longa à Turma Renata Viva de Professores e Professoras de Educação Física da UFPA/Castanhal
Vida Longa!

E Música para a Turma Renata Vivi!
Meu Jardim...


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Conversa ao pé de ouvido de Paulo Henrique...



"Chega gente/
 Dá de garra nessa dança/
 Que é forro para as crianças
 E a alegria vai jorrar!"
(Forró das Crianças / Luiz Gonzaga) 


Salve, Salve nosso pequeno Paulo Henrique.
O Universal Circo Crítico te saúda. Nosso abraço e nossa celebração a seus pais, Paulo e Poliana, nossa “pequena” Poliana Vannucci...
– Rapidinho fica da altura dela, né não, Russo?
– Eras, Strovézio... maldade com a Poliana hehehe....
Mas é mais ou menos isso. A pequenina Poliana, sua mãezinha, é grande na atitude. Arrebentava nas Corridas da UFPA e, hoje, é professora de primeira...
– ... e de Educação Infantil também... (Strovézio)
– Te aquieta, Strovézio.

Chegastes em um 18 de maio, e nosso picadeiro de terra batida e lona furada de circo celebra duplamente: a sua chegada e o primeiro ano de vida de nosso Pequeno Lutador do Povo, Aquiles (http://ouniversalcircocritico.blogspot.com.br/2015/05/conversa-ao-pe-de-ouvido-de-aquiles.html)...
E isso é arretado!
Pois é!
E é a nossa primeira e honrosa referência à data de sua chegada: chegas no dia em que celebramos nosso pequeno Aquiles e, portanto, é a primeira vez que nós podemos celebrar uma aniversário e a chegada de mais um Pequeno.
Veja que massa, Paulo Henrique!
O Universal Circo Crítico sempre recebeu nosso pequeno público recém chegado contanto histórias que buscamos para além de nosso picadeiro, ainda que com estreita referência para nós.
Agora, com sua chegada, celebramos nela o que celebramos no nosso próprio picadeiro. E adoramos isso! Pra dedéu!
Se entre tu e Aquiles vai sair amizade, dupla de totó, de ping-pong, vôlei de praia ou música sertaneja, isso não sabemos. Mas, se vierem a cruzar o caminho mundo afora, lembrem-se sempre de celebrarem este dia, assim como o Universal Circo Crítico está celebrando.
– E viva Aquiles!!!!! (Strovézio)
– Viva!

Pois bom.
Nossas celebrações e referências não seriam muito diferentes, mas, mesmo assim, é importante não perdemos de vista que o mundo está em constante movimento, que as ideias se formam a partir de nossa prática social e, portanto, nada como reforçar ideias que nos passaram e que ainda precisam ser reforçadas para celebrar 18 de maio, Dia de Paulo Henrique!
Vivemos tempos bastante estranhos, aqui e além fronteira, pequeno Paulo Henrique. Tempos em que algumas palavras começam a ficar cada vez mais perigosas, tais como formação, organização, democracia, direitos humanos e por aí vai. Tempos em que até uma camisa (a depender da cor, da imagem, das palavras) pode se transformar em “crime”... Por hora, com justiceiros de rua, vestidos de (hipócrita) honestos e brasileiros. Mas há quem queira transformar em Lei.
Mas, sempre teremos em nossa memória, pois a história pode até ser escondida, mas não se apaga (assim como palavras podem ser esquecidas, mas nunca deixarão de existir e, portanto, sempre voltarão).
E, das pessoas que temos sempre respeito por sua história, destacamos Augusto Sandino. Ou, apenas Sandino, que também nasceu em um 18 de maio, lá na Nicarágua (América Central).
Um revolucionário que sempre lutou pela paz em seu país e que deixou de legado a sua história e sua coerência em defesa dos trabalhadores, principalmente campesinos, contra os interesses do capital ou de países imperialistas, como os EUA.
Celebramos você, Pequeno Paulo Henrique, celebrando Sandino e sua indignação contra a injustiça do homem consigo mesmo.
Chegas em um 18 de maio que, no Brasil, é o “Dia Nacional de Combate ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”.
Sabe de uma coisa, Pequeno Paulo Henrique? Algumas datas e suas referências servem para celebrar, para comemorar algo ou alguém. Digamos que somos encantados por “datas”.
Mas há aquelas que, infelizmente, precisam ser marcadas para lembrarmos de algo que nunca mais deve acontecer. É o caso deste Dia Nacional de Combate ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (é uma data sancionada por uma Lei de 2000), pois nos remete a uma outra pequena, de nome Araceli.
História triste e longa pra contar aqui (como também o foi quando saudamos Aquiles).
Portanto, de Sandino e Araceli, tiramos, como sempre fazemos, uma pequena e importante lição, que este picadeiro de terra batida e lona furada de circo espera que leves por toda sua vida, e pelas vidas que chegarão também por ti, futuramente: lutar sempre pelos Direitos de todos, como se fosse a luta por seus próprios direitos e de quem você ama. E o direito à vida vai muito mais além do que simplesmente respirar.
E vale a luta por uma vida inteira: lutar pelos, para, com os outros!
Tem música neste 18 de maio, pequeno Pedro.
E música que nosso picadeiro a-do-ra!
Tem um músico, que também nasceu em 18 de maio, que é fantástico. Daqueles que a gente diria, sem medo, “Du Canário!”... 70tentão, já. Ou seja, tem história e trabalho pra dedéu! É quase mágico...
Falo de Rick Wakeman, um inglês (é, tem mais do que The Beatles na Inglaterra), tecladista, pianista e um dos maiores nomes do rock’n’roll mundial, que tocou durante muito tempo com uma das maiores bandas de Rock Progressivo da história: Yes!
Deixamos uma canjinha que ele deu, um dia, aqui no Universal Circo Crítico (sqn hehehe).



Daí, imagina só esses seus dedinhos, ainda pequenininhos, mexendo pra lá e pra cá, incansavelmente, fazendo uma música quase completa? Né não?
– “Quase completa”, Russo? Oxi, por que? (Strovézio)
– Ué... porque não tem forró!

Mas...
Tem forró em 18 de maio! Fundação de Caruaru, a terra do Forró!!!!
Ou seja, se não for um piano, ainda tem a zabumba, a sanfona (que é parecido com o piano) e o triangulo.
Tá tudo certo!
Daqui por diante, na casa de Poliana e Paulo, vai ter Forró em 18 de maio!

– E viva as Festas Maiolinas!!!!! (Strovézio).
– Viva Viva, que agora é dois meses de São João, Strovézio!!!!



É assim...
Por isso tudo e por tudo o que virá!
Seja Bem Vindo, Pequeno Paulo Henrique!
Vida Longa!
Sempre Vida Longa!

– sssssshhhhhhiiiiiiiiiii..............! Silêncio, Russo. Paulo Henrique tá quase dormindo.
– Eita... Strovézio, canta uma canção de ninar aí, pra ajudar.
– Opa! Lá vai! Aprende aí, Poliana e Paulo!


Venham Todos!
Venham Todas!


domingo, 31 de julho de 2016

Escutei por aí... Liniker!



“Sou bicha,
 Sou preta,
 Mas não sei se sou homem
 ou sou mulher,
 estou em processo.
 Estou sendo o que sou”
 (Liniker – entrevista TRIP TV)

Quando era ainda criança, mas já no meu processo de avançar (?) ao período da adolescência, alguns termos e valores começaram a ir se consolidando em minha formação.
De coisas boas a bobagens, ou das bobagens às coisas boas das relações humanas, termos como “bicha” (de vez em quando com o adjetivo “louca”) e viado (isso, assim mesmo, pra diferenciar do “veado”), por exemplo, desde muito cedo entraram para o meu universo de valores em formação, na linha CERTO X ERRADO.
Eu tinha que ser homem. Já tinha a vantagem de ser branco.
Daí, desconsolidá-los seria, e continua sendo, um processo profunda e permanentemente complexo e visceral. E, junto com este processo de desconsolidação, incluir não apenas o trato com a homossexualidade (ainda que hetero), mas também com o racismo, o machismo e diversas formas outras de preconceito que perpassavam até as referências geográficas (“de onde tu vens?”, “onde tu moras?” etc.).
Este picadeiro de terra batida e lona furada de circo, e seu pequeno público são testemunhas e cúmplices de nosso constante auto reconhecimento: ainda persigo o machista, o racista, o homofóbico que está escondido dentro de mim. Como um inimigo interno que está lá, se fingindo de morto, e com a qual não posso desatentar.
E quando olho à minha volta, identifico até mesmo em pessoas próximas um pouco destes (des)valores presentes e seus fantasiados discursos hipócritas, a atenção sempre se redobra.
Talvez assim faz-se um revolucionário, por isso continuo aprendiz.
E em lugares, palavras, sons à nossa volta, continuo encontrando novas lições e quando as aprecio, sinto que continuo no caminho certo.
E assim, conheci Liniker...
Um cara... hããã... uma cantora... quer dizer... ééé... bom...
– Uma voz, um poema, uma música du canário, Russo! (Strovézio).
– Isso, meu caro palhaço... só tu pra ajudar.
Liniker, como o/a próprio/a diz: apenas Liniker. Não é “O” Liniker. Não é “A” Liniker”... É Liniker.
Pintou no youtube e se surpreendeu com a quantidade de visitas e a divulgação. Já ganha alguns palcos de programas alternativos de TV e outros que rola na internet.
Típico artista que, pela gama de fãs que já aglutina, pela música, pelas ideias, pela ousadia, já “mereceria” um espaço nos “programões de auditório” da TV Aberta.
– Espero que não mereça... Sacou?
– Vero, Strovézio... Mas se for, vai deixar muito/a apresentador/a enrolado/a. Afinal, parece-me que Liniker está bem à frente da mentalidade fútil destes programas.
– Programa do Jô, à parte... Liniker já pintou por lá.
Pois bom...
Afinal, vejamos: negro/a, com cabelos rastafári, estilo Dreads, às vezes com um turbante, às vezes de calça, às vezes de vestido, às vezes tudo junto. Baton marcante em meio ao rosto com pelos de barba ainda se formando, brincos exuberantes e voz forte e presente... não é Du Canário?
Em tempos de uma luta conservadora desenfreada a uma baboseira alcunhada de “Ideologia de Gênero”, parece-me que para Liniker já tá bom o que está sendo consolidado.
Pode ser que não... isso cabe ao artista.
Mas que Liniker chegou chegando, que é de uma beleza profunda, humana, artística, periférica inquestionável, ah!, isso Liniker é. Até porque, ele
“[...] tem flores na cabeça e pétalas no coração
 Tem raízes nos olhos, excitação
 Acalanta o meu coração”
 (Sem nome, mas com endereço)

Escutei por aí...
Líniker!

Escutem também...
Venham Todos!
Venham Todas!


sábado, 16 de julho de 2016

Sonhos não voam...

... Jovens não voam...
 
http://vovomoina.blogspot.com
Voar, voar / Subir, subir
 Ir por onde for /
 Descer até o céu cair /
 Ou mudar de cor /
 Anjos de gás /
 Asas de ilusão /
 E um sonho audaz /
 Feito um balão...”
 (Sonho de Ícaro / Biafra)

Parece que os caminhos que seguimos “em nome da humanidade”, a cada dia que passa, deixa rastros e caminhos à frente cada vez mais... desesperançadores...
Muito temos assistido pelas redes e a imprensa sobre os atos terroristas na Europa, Golpes (com tanques ou com a “legalidade constitucional”) a estados eleitos democraticamente (democracia burguesa, mas...), torcidas que choram, torcidas que celebram.
Ok... é verdade... um mundo com mais de 7 bilhões de habitantes, não deve ser nada fácil à nossa imprensa, selecionar o que vai e o que não vai ser notícia.
Mas, este picadeiro de terra batida e lona furada de circo, definitivamente, não acredita em meras coincidências. Afinal, vivemos tempos de legislativos em franco avanço reacionário (de municipais ao Congresso Nacional) de tal ordem que sentenciam os debates de gênero à morte e, ao mesmo tempo, golpeiam às famílias um estatuto conservador-religioso (Estatuto da Família).
Assim, quando assistimos às notícias de “fulano/a, homossexual, apanhou até a morte”, colocamos em tal estado de “natural”, que não percebemos o quão profundo e sem volta é o buraco o qual estamos nos metendo.

Pois bom... ou, talvez soasse melhor “pois mal”...

Saulo de Assis Lima. Um jovem de 23 anos, de Porto Velho/Rondônia, se joga de uma torre de telefonia... Ele era homossexual, sua família deu-lhe às costas (em princípio, por questões também de ordem religiosa) e o mundo parecia tornar-se pequeno para ele.
Ao assistir à cena, nossos artistas deste humilde picadeiro se perguntam:

– Mas, ele era tão jovem... Por que não voou?
 
http://manicomunicacao.blogspot.com

Homens não voam, diria a biologia.
Jovens não voam, diriam os experientes.
Sonhos não voam, diriam os realistas.
Talvez, tentasse Saulo voar... mesmo após várias horas angustiantes no alto de uma torre de telefonia e, portanto, já bastante cansado.
Caiu o corpo, seus sentimentos e sua história.
E ao cair, parece-me que o que voa cada vez mais para longe de nós a nossa humanidade.
Não conhecíamos Saulo... Mas nada nos tira a certeza de que ele voava dentro de si, de seus sonhos, de seus amores e de suas alegrias.
“Do alto Coração /
 Mais alto Coração...”

Venham Todos!
Venham Todas!

Cena do Filme: Sonho de Liberdade