“Ao meu lado há um amigo/
que preciso proteger/
Todos juntos somos fortes/
que preciso proteger/
Todos juntos somos fortes/
Não há nada pra temer”
(Chico Buarque – Saltimbancos)
Falo, neste momento, aos Estudantes que andam por aí, nos bancos universitários, que acabam de entrar ou que já estão ensaiando a festa de formatura.
Mas acho que falo também aos que já saíram deste espaço tão complexo, dinâmico, contraditório... ao mesmo tempo inovador, quase revolucionário, mas conservador e elitista, que é a Universidade.
E (por que não?) falo também aos que, assim como eu, lá estão, ano após ano, a formar jovens, adultos, até idosos, em diversas, quase que incontáveis, áreas de conhecimento. Professores que ensinam com o pé no chão e professores que se afundam no mais profundo orgasmo catedrático.
A Universidade, há tempos, vem me empurrando para reflexões de toda ordem. Por um lado, há uma lógica nisso, afinal, desde 2008 estou em uma Universidade Pública... No norte do País... aliás, no nordeste do Norte do País.
“É pouco tempo” diriam alguns que vociferam-se em seus muitos anos, talvez décadas, de Ensino Superior – em que pese alguns somarem os seus anos de estudante para “inchar” os dados de “sou da Universidade há...”. Quase contam nos dedos quantas pessoas formaram, quantas pesquisas desenvolveram, quantos livros, capítulos, artigos, textos, papers já produziram. E não é incomum na nossa Universidade, a pública, a brasileira, docentes em todo o país colocarem seus orientandos a escreverem e, por ser “orientador/a”, colocarem seus nomes.
Mas, ainda que pouco, somam-se aos meus “poucos anos” outros tantos anos vividos em diferentes lugares. Não me tornei professor de Ensino Superior (este termo soa estranho algumas vezes) apenas quando adentrei no quadro de docentes de uma Universidade Pública. Tornei-me em um tempo que, talvez, nem saberia dizer. E continuo “me tornando” professor. Todos os dias, o dia todo.
Mas foram tempos que me dão a certeza de qual professor me sinto, de qual professor me transformo... claro, não sou um professor pronto e acabado. Assim como sempre serei um aprendiz de lutador do povo, serei sempre aprendiz de minha própria docência.
E, por tudo isso, falo aos Estudantes que andam por aí... Ouso falar também a seus pais, seus irmãos e/ou irmãs, seus/suas companheiras, seus entes e amigos/as. Afinal, em um país como o nosso (democrático...), que ainda não consegue garantir o acesso amplo e irrestrito ao Ensino Superior – nem à educação básica de qualidade – que faz com que aqueles que estão nos bancos universitários sejam, no final das contas, parte da pequena parcela que ainda acessa a Universidade, não se trata apenas da superação individual, mas daqueles que estão juntos, apoiando e ao mesmo tempo torcendo e ansiosos por verem seus filhos, irmãos/ãs, companheiros/as e amigos alcançando um espaço na Universidade.
De tantas coisas que acho que a Universidade precisa garantir e que vocês, estudantes, precisam não apenas “cobrar”, mas acreditar na capacidade desta mesma Universidade atender, é a humanização. A Universidade precisa “formar gente”. E formar gente, obviamente, é o contrário de “formar coisas”.
E formar gente parece-me, a cada dia que passa, uma tarefa não apenas hercúlea, mas uma tarefa a qual muitos docentes em nossas Universidades há muito tempo abriram mão.
Premiar os primeiros colocados de vestibular não é formar gente.
Dizer aos nossos alunos “sejam O profissional, não mais um” não é formar gente.
“Corram atrás do conhecimento” (cada um por si) não é formar gente.
Ocupar um espaço no Mercado de Trabalho não é formar gente.
O que não apenas vocês, Estudantes, precisam é formarem-se continuamente, como o fazem desde que “viraram gente”. É, aquela coisa de “desde que me entendo como gente”, frase comum para dizer sobre o tempo em que começamos a compreender o quão grande é o mundo e o quão pequenos somos nele. Viramos gente e, quando nos aproximamos da vida universitária (e a conquistamos) vamos deixando de ser, porque precisamos ser mais espertos, mais rápidos, mais competentes.
E a Universidade precisa aprender, de uma vez por todas, a formar gente! E formar gente é, inquestionavelmente, formar mais um, mais um, mais um... numa grande composição que diga, a cada muitos “mais um” que formar, “somos fortes!”.
Parafraseando Victor Jara, devemos ser mais um, sempre mais um para que, todos os “um” unidos, possamos construir e formar uma Universidade nova... um país novo... um continente novo... um mundo com novos homens e mulheres.
Pensem nisso, caros estudantes...
Campesinos, soldados, mineros,/
la mujer de la patria también,/
estudiantes, empleados y obreros,/
cumpliremos con nuestro deber.
Sembraremos las tierras de gloria,/
socialista será el porvenir,/
todos juntos haremos la historia,/
a cumplir, a cumplir, a cumplir.
(Trecho da música “Venceremos”, hino da Unidade Popular, última canção entoada por Victor Jara, no limite de suas forças, após dias de tortura no Estádio do Chile em 1973.)
Venham Todos!
Venham Todas!
Vida Longa!
Marcelo “Russo” Ferreira





